Nina Simone

Vocês sabem como eu sou anti-quotas e racista e machista etc. mas isto da actriz mestiça que vai desempenhar Nina Simone é completamente absurdo. Já costumo desconfiar biopics, mas não vou ver um filme em que a actriz principal tem de usar maquilhagem e um nariz prostético para imitar uma mulher negra que se destacou, entre outras coisas, pela luta pelos direitos dos negros. E eu sou a pessoa que se insurgiu quando escolheram a mulata Hale Berry para Catwoman. A Catwoman é branca, não me lixem.

85mm e 18-35mm

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Até agora, a minha foto mais votada no https://gurushots.com/ no desafio cityscapes. É também a minha preferida. É curioso ver as diferenças nas reacções às fotos. Nunca vencerei nenhum desafio acho eu, são milhares de fotógrafos e as de topo costumam ser ultra pirosas! São quase todas péssimas, mas acabam por ser muito competentes na parte técnica (se estivermos à procura de fotos para colocar numa apresentação power point). Mesmo assim, se tivesse 4 city scapes destas, ficaria no top 1% acho eu. No meio de tanta coisa igual, tanto cliché, é mais interessante procurar algo original, mas igualmente competente.

Uma enorme vantagem destes desafios é mesmo a exposição às ratoeiras óbvias em que eu próprio pensei. Do novo escritório fiz várias experiências com uma grande angular para captar uma vista enorme, mas não muito interessante…. Mesmo que fosse, a foto seria igual a milhares de fotos bonitinhas que têm prédios e céus saturados. Quantas operas de sidney, torres eifel, perdi a conta ao arranha-céus com nuvens reflectidas…

Fui experimentando lentes, janelas, horas do dia… dava um saltinho a um lado, espreitava, testava (tenho vista quase 360º) . Fui o último a sair e desliguei as luzes. Então vi este prédio, tive de me esticar todo (12º andar e eu tenho vertigens). E pumba, foi com a 85mm mas o ideal até seria 150mm porque isto é um crop da imagem final.

Fiquei fascinado com a imagem logo na altura. Para mim é mais do que a coisa estética, são como vidas compartimentadas, gaiolas, bonequinhos de sims… ainda por cima estão vestidos à escritório, apanhei senhores de gravata, senhoras de tailleur, detalhes em cada gaiola, como ecrãs de computador, luzes diferentes, luzes apagadas… O ângulo é perfeito, mas tudo fruto do acaso. Se fosse uns andares mais baixo, mais acima, se estivesse mais à frente etc. perdia-se a profundidade tridimensional de cada gaiola, ficavam só quadrados de luz bidimensionais.

Depois demorei mais de meia hora a tratar esta foto. Não que esteja adulterada por aí além, mas a indecisão era o que fazer dela. Como disse, é um crop, ou seja, um detalhe de uma foto maior. Podia incluir o prédio quase todo, podia mostrar os limites, experimentei preto e branco… depois comecei a pensar no que era interessante na foto. Com o preto e branco iria perder as janelas azuis, mas ter mais detalhe perceptível nas caixas.

O que queria? Percebi que eram os detalhes dentro das caixinhas, a sucessão de detalhes… a vida numa ‘grande cidade’ abstracta e não o prédio propriamente dito, ou Lisboa. Então foi escolher a zona do crop para dar uma ilusão de fachada e padrão muito maior (vários amigos pensaram que a foto não era minha, mas de um filme e de um arranha céus em nova iorque: o prédio tem uns 10 andares acho eu).

Quanto à estética, optei por reforçar o detalhe perceptível , uma gravata, um penteado, uma cadeira, um computador, mas sacrificando o detalhe mais fino para reduzir ao máximo o ruído (foi tirada com iso alto, pois não consegui ter o tripé no ângulo certo. Queria que tivesse um feel pictórico, como uma infografia, um esquema (a foto tem  3 cores apenas). Tirei saturação ao laranja e amarelo para harmonizar mais com o brilho das janelas azuladas em cima, se não fizesse isso não podia puxar a exposição. Diminuí a exposição das zonas escuras, para tornar a fachada mais preta e uni-dimensional, de modo a reforçar cada caixinha de luz e dar-lhes profundidade, e garantir que a luz das janelas iluminasse uns rebordos.

Depois mais 10 minutos a ajeitar o crop, até que senti, é isto. E achei curioso ter sido mais uma com a 85mm nikkor. É com se a lente forçasse um minimalismo e os seus limites nos inspirassem. Tiramos uma foto a um rosto, um bocado de prédio, um pimento numa mesa…

E noto pelo menos pelo guru shots que a maior parte das pessoas usa e abusa da wide angle e até da ultra wide (e do oposto, a macro, para fotos fofinhas de gomas e lápis de cor) com toneladas de fotos iguais. Nada contra a grande angular!

Tirei esta foto que adoro, este domingo, com uma 18-35mm quand fui à procura de arco-íris com a minha filha. Foi a 35mm penso eu. É preciso saber usar e é muito difícil.

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Esta resultou por uma combinação de factores “mágicos”, desde o timing (o sol nos pilares da ponte neste ângulo), a textura da areia (que está no primeiro plano isso é essencial para a wide, eu estou quase agachado) a figura da minha filha com a sua hello kitty em primeiro plano a balançar na lama, isso também é bom no uso da wide, porque permite uma noção de perspectiva e escala, ampliando os espaços, sem ela ou a areia o campo ficava vazio , o contraste de luz rio, areia e sobretudo as três curvas, a margem, a ponte e a nuvem… aliás,a margem e a nuvem são quase simétricas, as sombras na areia são paralelas à ponte… enfim, não reparei em nada disto no momento, só na luz que estava incrível. Não digo que a foto esteja excelente, mas o ponto é que com a wide é difícil ter uma foto sem ruído excessivo, sem apanhar coisas que não acrescentam nada ou sem transmitir algo mais do que “isto é muito bonitinho”.

fotografia, mais notas, vidro e digital

Uma das coisas que me surpreendeu na fotografia, especialmente na era digital da hiper sofisticação, é como a componente óptica, de metal, vidro e plástico, tem ainda o papel fundamental. Não me refiro apenas a sharpness ou quantidade de luz, como se para ter belas fotos fosse preciso ter uma espécie de performance técnica. Por vezes é o metal e o vidro, nas suas imperfeições, a conferir algo único à foto.

Li recentemente o livro de Todd Hido da colecção da aperture, em que Todd dá uma espécie de aula e comenta as suas fotos, a sua evolução, as suas técnicas – não tanto as técnicas de fotografia, lentes ou revelação, mas o processo geral.

Todd fotografa as suas paisagens atrás do vidro do carro, um vidro que pode estar sujo, com condensação, gotas de chuva ou gelo. Esse vidro distorce a paisagem, coloca fisicamente o espectador na cena e reforça o que se quer transmitir: frio, humidade, isolamento. Seria irónico precisar de uma máquina de precisão suprema se o resultado final estará distorcido, baço. Nos retratos pode desfocar, utiliza 2-3 máquinas, incluindo uma point and shoot igual à primeira que teve em criança.

Curiosamente, Hiddo colabora com Raymond Carver. Várias capas de livros do Raymond Carver são com fotos do Hiddo. Ambos partilham a mesma sensibilidade, um na literatura, outro na fotografia.

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Gosto muito do trabalho do Hiddo. É democrático. Abre as portas para possibilidades não restritas pela técnica ou pelo acesso a coisas difíceis ou implausíveis próprias de abordagens mais clássicas. Por exemplo, não podemos fotografar um pimento como o Edward Weston sem uma máquina de médio formato. Não é isso que faz a foto, como é óbvio, mas é a ampliação e o detalhe extremo, bem como a ausência de distorção que nos faz ver um pimento como nunca antes vimos um pimento.

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Hiddo faz-me acreditar que no plano técnico, até com um telemóvel podemos fazer fotografia interessante. Está para a fotografia como estaria o John Fante ou o Bukowski para a literatura. Não os colocaria ao lado dos Tolstoi, Beckt ou Kafkas, mas mexem tanto comigo como estes últimos e inspiram mais. São mais “punk” se podemos usar o termo. Não esmagam porque usam a nossa linguagem.

Por exemplo, esta foto do Larry Fink esmaga.

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Como esmagam as fotos de famosos que faz. Ter a Merryl Streep e a Natalie Portman a interagir num momento de emoção é 99% de qualquer coisa. Claro que faz parte do talento de Fink enquanto fotógrafo estar lá e captar. Mas de novo, não depende de grandes variáveis de performance de lentes e máquinas hoje em dia no século XXI.

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A fotografia continua a ser o que sempre foi, apenas mais fácil e democrático, facilitando a transformação do trabalho. Hiddo acabou por me fazer prestar atenção às simulações de filmes analógicos. Ou seja, em XXI onde acho que há uma revolução é muito mais nas possibilidades criativas da pós-produção, das escolhas.

Alguns exemplos de domingo no cabo da roca.

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As lentes que usei têm uma resolução extraordinária. Existem originais destas fotos com um nível de detalhe superior e objectivo, mas em todas introduzi outro nível de ruído e tentei apenas que todo o “set” tivesse um tratamento coerente e semelhante a um filme de rolo analógico. A propósito de precisão, não é verdade que o analógico tenha mais que o digital, há alguma confusão nos conceitos, mas isso é para lá do ponto aqui. Ainda estou em experiências, mas gostei do resultado. A base foi uma emulação do Kodak Ektar 100 com desvio para tons frios porque estavam mais condizentes com o dia (gelado, chuva) e  o que significa olhar para o mar em fevereiro. A luz, cortesia em parte da nuvem de pó que passava pela península ibérica aquela hora, era perfeita e não tive de fazer nada à exposição.

Percebi por Hiddo e por outros (mesmo o grande Ansel Adams) que a manipulação da cópia não é algo a evitar. Vejo muitas vezes a tag #nofilter ou #semfiltros em fotos nas redes sociais, como se os ditos filtros fossem batota. São só a continuação do acto criativo. Podem é tornar uma foto desinteressante ou previsível ou artificial, pois se toda gente só precisa de clicar num botão para aplicar um de 10 filtros à escolha, é natural que ao fim de algum tempo isso canse e prejudique a foto, uma vez que aplicar um filtro pode não ser um acto criativo per si.

A mim, agrada-me o uso de técnicas que me reportam à fotografia com que cresci, as fotos que tenho nos meus álbuns, saturadas, com grão.Transmite-me logo algo de melancólico ou vagamente familiar, que fotos demasiado limpas não dão. Podem dar outras coisas, mas este sentimento específico não.

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S, por mim.Fiquei muito contente com os resultados. Senti alguma responsabilidade. Gosto muito de ver cada vez mais amigos e amigas com fotos minhas nos perfis nas redes sociais, sujeitos a elogios e muitos likes, mas esta era a primeira vez em que iria controlar as variáveis e não apenas uma foto espontânea longe do que idealizei. Nunca tinha fotografado uma modelo em modo de escolher e controlar o local, a hora, e levá-la por trilhos com lama (literalmente) para um local, ter a minha 85mm f1.4g.. E ainda a obriguei a levar o meu reflector, um chapéu de chuva. Felizmente tivemos o bom senso de deixar a mala com mudas de camisolas no carro.

Já tinha o local em mente há algum tempo e já o tinha fotografado no verão, mas nesta época do ano os verdes são escuros e profundos e ainda há detalhe destas plantas carnudas (que não conheço o nome) terem estes tons arruivados e acastanhados.

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Vi a meteorologia e antecipámos a sessão para mais cedo, mas tivemos mesmo sorte com a luz e o dia, o mar mimetizou os olhos invulgares da S. na perfeição ou vice-versa.

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É retrato assumido e a foto é para a outra pessoa, não tem qualquer pretensão. Sinto-me como um mero arquitecto a quem encomendam algo (sendo que aqui fui eu que pedi). Vejo retratos profissionais nas redes sociais, daquelas sessões de pros, em vários contextos, e muitos parecem-me maus, foleiros é o termo. Quem recorre a esses serviços acaba por ficar satisfeito julgo eu, por isso paciência. No fundo, quando vejo uma pessoa descaracterizada e empinocada numa sessão, em poses artificiais, pergunto-me que pessoa é aquela? Que interesse tem uma beleza (muitas vezes não existe) que envolve um nível de fabricação estanque impossível de recriar no dia a dia? A S. é assim todos os dias. E é isso que é preciso captar.