aurora rosa

A. não encontra posição na cama, suspira, resfolega os lençóis, volta-se para um lado, depois para o outro, suspira. A janela está aberta, mas não sopra uma brisa. Dou-lhe espaço, vou dormir para o sofá. Acordo às 4:11 com a luz da lua cheia, a pensar que é de manhã. Não consigo dormir também, já não tenho posição. Aos primeiros sinais de que o parto pode estar próximo, junta-se a decisão médica de o induzir na próxima sexta feira caso a Júlia não nasça até lá, materializando numa data concreta o fim de 41 semanas de espera.

Contemplo o equipamento de corrida, preparado de véspera antes de dormir, um truque para tornar o processo matinal contínuo, sem desculpas para preguiças. Equipo-me e fico uns momentos no sofá a tentar decidir se faço mesmo o treino programado ou outro mais leve pois temo o regresso da lesão no joelho e domingo foi exagerado. São 5:11 da manhã. Espreito o relógio para verificar a minha taxa cardíaca de repouso. 46 batidas por minuto. Confirmo a pulsação no pescoço. Entusiasmado por este novo mínimo, saio de casa, em jejum. É de noite. Vou correr até ao estádio universitário, uma volta e regresso. A cidade está a dormir, ainda não raia a aurora. A sensação de correr no meio das ruas desertas, de madrugada, é como estar num sonho, sensação poderosamente ampliada pela escolha da faixa Leave It de The Field que, a par da Open Eye Signal do Jon Hopkins, após centenas de testes, sobressai como uma das melhores para induzir uma meditação de cabeça vazia e olhos abertos (nem sempre é isto que se quer, note-se bem).

The Field: Leave it from Flummi on Vimeo.

Subo a alameda deserta. Um guarda nocturno patrulha a entrada do Estádio Universitário com uma lanterna acesa. Pergunto-lhe se já posso entrar, uma vez que o portão parece fechado. Diz-me que sim. Está deserto e algumas zonas de bosque estão tão escuras que tropeçaria não estivessem os trilhos tão bem cuidados. Primeiro, um gato assusta-se e desaparece no meio do restolho. Depois, humanos. Cruzo-me com dois corredores finalmente: uma rapariga atlética de boné à jogger americana e iphone no braço, numa passada 20x mais veloz que a minha e depois um senhor de alguma idade, com uns enormes ténis brancos e uma t-shirt branca que lhe dá pelas côxas, dando-lhe a aparência cómica de pequeno boneco animado.

Entro em transe aos 30 minutos, no ponto mais alto, a correr em direcção ao céu côr de rosa, com a 2ª circular à minha esquerda e o campo de futebol lá em baixo à direita. Um gigantesco avião vindo do atlântico sobrevoa-me, cheio de passageiros ensonados a acordar. Ao descer a alameda sou  forçado a parar, sinto pontadas nos joelhos e temo o regresso da lesão. Desligo a música e faço o resto a andar lentamente, sou ainda ultrapassado por um grupo de três corredores que conversam alegremente, às seis e pouco da manhã.

Tomo pequeno almoço, analiso os dados da corrida, contente por ter mais números para brincar. Antes de sair, vou ao quarto despedir-me da A. Lamenta-se de não ter dormido nada. Esteve o tempo todo às voltas na cama, com sonhos confusos. Saio para uma Lisboa já bem acordada e com pulsação de Agosto e também tenho a sensação de ter tido um sonho.

5 thoughts on “aurora rosa

    1. Quem sabe! Espero que sim 🙂 E ainda tenho de investigar essa história da lua cheia. Quero um estudo com um teste do Chi-Quadrado a 95% de confiança que demonstre que a média de nascimentos na lua cheia é superior a outros dias da semana…

  1. Hoje é o primeiro dia de lua cheia. Pode ser também o primeiro do teu maior sonho. Espero que sim e mando um beijinho e votos duma hora pequenina á A. 🙂

  2. Gosto do humor fino subjacente a esta expressão: pequenina, claro, mas UMA hora, de qualquer forma, que isso de ser aceite no clube das mães não é coisa para se atingir sem custo. >:)

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