ctrl+alt+del

O Bill Gates finalmente admitiu que ter de fazer ctrl+alt+del para o log on no windows é provavelmente a ideia mais estúpida que já existiu desde a invenção das pequenas chaleiras de alumínio que se usam para espalhar o chá na mesa do café e que devia ter optado por uma simples tecla.

Tarde demais.

O ctrl-alt-del sempre me intrigou. O Jobs inventou o rato que permite usar o computador só com uma mão e sem precisar de teclas. O Bill Gates deu luz verde a um engenheiro para nos obrigar a usar três teclas só para poder usar o pc. Que o engenheiro quisesse impedir que o gato dele fizesse restart acidental à sessão de pornografia pixelizada e monocromática, percebo. Mas log on? Queria impedir quem ou o quê de fazer log on, este geek? Um maneta do MIT que tinha a mania de entrar no PC dos colegas e espiolhar a colecção de pixeis privados? Entretanto, desenvolveram-se 300 mil teclas de atalho directo em muitos teclados que NUNCA utilizamos, como aquela que tem uma setinha e uma dropdown list ou outras que acedem a menus do windows. Este problema do crtl+alt+del diz-me muito agora: experimentem fazer log on ao computador com um bebé a dormir pendurado num braço como preguiça dos amazonas agarrada ao cipó. É uma coisa delicada, um bebé a dormir. Com uma sagres, é fácil. Mas com um bebé e com uma sagres torna-se muito complicado. Felizmente que muitos babygrows têm pregas, bolsos e elásticos que funcionam como suporte temporário para a cerveja, nestes momentos.

andar de bicicleta é mais seguro que viver

Cycling advocates’ favorite comparison of cycling’s collision risks.
Activity Fatalities per million hours activity
Skydiving 128.7
On-road motorcycling 8.8
Scuba diving 2.0
Living (all causes of death) 1.5
Snowmobiling 0.9
Passenger cars 0.5
Water skiing 0.3
Bicycling 0.3
Flying (scheduled domestic airlines) 0.2
Passenger car post-collision fire 0.0
From Charles R. Murray, “The Real Story: Overdesign Prevents Cars from Exploding,” Design News, October 4, 1993.

primeiras chuvas

Instantâneo que capta no momento em que um autocarro da Carris passa por mim na Baixa num dia de chuva intensa
carris

Já tinha saudades de ir de bicicleta para o trabalho num dia de diluvio épico, com direito a trovoada e tudo. Acho que todos os anos escrevo este texto mais ou menos por esta altura e digo o mesmo, mas com outras palavras, ao jeito obra de Lobo Antunes.  Mas o facto é que todos os anos o Verão acaba e o final do mês de Setembro costuma concentrar uma grande transformação na cidade e eu sinto-me compelido a registar grandes transformações concentradas, seja na cidade, no campo ou no mar. Eu gosto muito de chuva e costumo enjoar dos longos períodos de calor e seca inerentes aos verões do aquecimento global, mas curiosamente, este ano, senti-a particularmente triste. Primeiro, porque acabou um período da minha licença paternal e vi-me afastado da Fominhas Roupinhas, de novo no escritório. Segundo, porque dois dias antes das primeiras chuvas, achei que era boa ideia tirar os guarda-lamas da bicicleta que lá estavam desde o inverno passado e que pensei serem desnecessários visto que nunca mais chove e deu-me uma trabalheira colocá-los outra vez. Isto, combinado com tempo chuvoso e o aspecto apocalíptico que Lisboa adquire sempre que chove, mexeu um pouco comigo e pôs-me melancólico. A solução, claro está, é cantar à chuva, Frank Sinatra style. Se não a podes vencer, junta-te a ela. Curiosamente, só vi um ciclista hoje, muito giro, com um blusão amarelo fluorescente e um capacete desportivo, cheio de estilo. Depois percebi que era eu próprio reflectido numa montra, parado num semáforo. Fora isso, não vi nenhum maluco. Compreendo. As primeiras chuvadas e ventos ciclónicos separam as águas. É bom observar a cidade do lado molhado, por oposição ao lado seco. Há pessoas que saem de um carro, com uma mala por cima da cabeça ou uma pasta, a correr desajeitadamente para dentro de um prédio, outras que tentam saltar, sem sucesso, por cima de uma poça de água no passeio, outras que fogem do tsunami acastanhado com espuminha de óleo à passagem de um autocarro, outras cujo chapéu de chuva se contorce como um esqueleto desconjuntado por rajadas. E nisto, as estradas engasgam-se de carros fumegantes, de pára-brisas embaciados, veículos sinistrados e condutores autuados. E eu?

Eu sou a tempestade. Eu, o grande relâmpago amarelo, com o meu blusão fluorescente, as minhas botinhas e o meu capacete desportivo, voo no meio do caos, as minhas rodas apartam as águas furiosas muahahaha…. Bom, hoje por acaso, tive mesmo de sair da estrada e refugiar-me num toldo ao pé de duas velhotas. Mas foi só um bocadinho e porque achei que era pouco seguro pedalar sem os meus óculos de natação, pois já não conseguia abrir os olhos devido ao impacto das gotas nas córneas.

Tenho muita pena que este escritório não tenha um secador de mãos daqueles com ar quente, mas por outro lado já não corro o risco de ser apanhado em posições acrobáticas e suspeitas com as duas peúginhas nas mãos, todo entretido a secar-me.

remoímentos

poe

Acompanhem-me neste texto, venham daí amigos. De mão dada, isso, em fila. Aqui há uns anos (10?) tinha muita facilidade em falar sobre os livros que lia. Podia citar-me de novo e colar aqui que “emitimos opiniões nos espaços que a ignorância permite” e cito. Agora sou uma pessoa que se cita a si própria, já que ninguém me cita, a não ser nas respostas oficiais que recebo da Segurança Social a propósito de uma reclamação minha. É muito difícil falar de coisas sobre as quais sabemos um pouco mais do que nada. Porquê? Porque dá trabalho. Então cada texto sobre qualquer coisa se ramifica, potencialmente, num tratado interminável e não tenho tempo. Cada novelo tem de ser desenrolado e validado até ao fim. Nos blogues escrevemos para uma população que é, a maior parte das vezes, bem mais ignorante do que nós nos referidos assuntos, para além de ser assaz menos curiosa do que nós (eu e eu), pelo que é raro contradizerem-me, o que é bastante agradável e libertador. Se quisesse discutir 300 vezes o motivo pelo qual o Breaking Bad é mero lixo televisivo, por que motivo o Gonçalo M. Tavares é um escritor menor, por que motivo os The National merecem o esquecimento de um mau sonho que passou ou por que motivo o Tribunal Constitucional é um exemplo perfeito do nosso atraso civilizacional pelos vistos impossível de resolver, então podia discutir com pessoas cara a cara, mas nem isso faço, se há coisa que me caracteriza nos tempos que correm é simplesmente ouvir, remoer e seguir em frente. Há dias, por exemplo, no café, o senhor insurgiu-se contra a lei que equipara as bicicletas a veículos nas rotundas, uma coisa que eu, pela minha experiência, até via acontecer mesmo antes da lei existir, visto que felizmente há senso na maior parte dos condutores. Na opinião daquele iluminado, o problema das estradas são as bicicletas que têm a mania que podem fazer tudo (sic). Guardo os meus “remoímentos” para mim.

A Narrativa de Arthur Gordon Pym de Nantucket do Edgar Alan Poe é um daqueles livros que posso incluir na categoria de obras como o Robison Crusoe, do Daniel Defoe, o Huckleberry Finn do Twain, o Frankenstein da Mary Shelley ou o Dracula do Bram Stoker. Cada um, à sua maneira, tem um ponto de partida bastante humilde: procura entreter com aventuras ou com o fantástico, muitas vezes numa postura que parece quase juvenil (devo dizer que não li ainda o Frankenstein, mas já googlei e já vi que não tenho razão uma vez que o título original do Frankenstein até tem o “o Prometeu Moderno” à frente, o que revela um certo excesso de consciência da Mary Shelley que a atira para fora do campeonato a que me refiro).

Muitas vezes estes livros têm um equivalente de literatura que podemos considerar séria. Não sei se é muitas vezes, mas eu acho que pelo menos algumas vezes sim. Assim, o Candide do Voltaire ou o Bom Selvagem do Rousseau têm um antepassado no Robison ou no Sexta-Feira, escrito muito antes, como se depurassem o que, inconscientemente, Dafoe escreveu muito antes num romance de aventuras. No caso deste livro do Poe, a primeira comparação é com o portento aborrecido megalónico do Moby Dick do Melville, um livro do qual consegui extrair uma enorme arte nos 20% legíveis e interessantes e sentir-me torturado nos restantes 80%*, uma vez que tem uma parte com um baleeiro que sai de Nantucket e também um índio maluco e assustador a bordo. A comparação fica por aí. É só que acho que não se dá o crédito devido às pessoas e depois o país não anda para a frente, nem sequer a parte literária do país. No outro dia liguei a televisão de sinal aberto 20 minutos em horário nobre e fiquei deprimido. Se aquilo é horário nobre, não quero imaginar o horário da plebe. Jesus Cristo. No telejornal passou uma reportagem de rua em que a repórter perguntava a pessoas diversas o que achavam de Abril ser o mês do ano com mais feriados.

* isto foi só uma espécie de electrochoque a ver se acordo o Frankenstein do alf, na verdade a proporção é mais 60-40% e os 40%

“temos saudades das rotinas”

Fui eu que disse isto, um dia. Tenho o humilde hábito de me citar a mim mesmo. Experimentem. Faz-vos parecer uma daquelas pessoas que são citáveis. Quanto à citação em si, vou desenvolver. Nunca gostei de passar férias num local que não me desse para desenvolver uma rotina, o que acontece naqueles pacotes febris para hiperactivos que prometem experiências novas todos os dias, com guias e excursões e horários, uma noite aqui, outra acolá, transporte incluído, ferry, comboio, autocarro… Dois dias bastam para ter uma rotina, por exemplo, jantar duas vezes no mesmo sítio numa cidade com mais de 1000 restaurantes ou passear na mesma rua ao sair do hotel.

Tendo em conta que atravesso uma fase “homem da maratona”, não podia deixar de incluir a referência ao ensinamento #42 jedi da corrida neste texto e que tem a ver com o poder da repetição e da rotina, por exemplo, em correr sempre nos mesmos sítios, ao longo do ano. O efeito é criar uma zona de conforto e previsibilidade que é propícia à auto-superação diária, visto que a alma não tem de se preocupar com o inesperado e se sente apoiada. Curiosamente, no dia da corrida, há uma descarga de adrenalina enorme pela novidade do percurso desconhecido, o que também é bom.

Tendo em conta que atravesso uma fase “homem que é pai pela primeira vez”, não podia deixar de referir que o facto de ser acolhido dias consecutivos com um sorriso de bebé pela manhã, permite usufruir da experiência de ser pai com mais intensidade do que a sucessão de novidades e adaptações em ritmo alucinante associadas ao parto e semanas seguintes. Se trocar uma fralda se tornar um gesto expedito e rápido, sobra mais tempo para fazer cócegas aos refegos do bebé que retribui com sorrisos. Até aqui, foi um pouco como tentar concentrar-me num romance de Tolstói a 200kmh numa montanha russa.

Tentemos encaixar a escrita nisto tudo.