e elas a insistirem

“Isto não se resolve só com a cenoura, também não se resolve só com a chibata. Temos de fazer um equilíbrio, de forma a que a pessoa que está entre a cenoura e a chibata sinta a vontade de fazer melhor”, disse.

Fernando Leal da Costa, Secretário de Estado da Saúde, referindo-se à pessoa que pratica a profissão de médico e à respectiva resistência de carácter equino em adoptar as mais modernas regras de higiene no trabalho.

Há um conjunto de instrumentos – anéis, pulseiras, alianças – que “sabemos que são potenciais veículos de transmissão”, com os quais “as minhas colegas insistem, muito alindadas, em ir trabalhar”

Fernando Leal da Costa, Secretário de Estado da Saúde, referindo-se ao hábito insistente que as suas colegas têm de usar anéis, pulseiras ou alianças, objectos estes genericamente denominados por conjunto de instrumentos de alindamento.

Público

nacional bimbice

E pronto. A nacional parolice em todo o seu esplendor, a propósito dos ‘insultos’ de Blatter (já lá vamos) a Cristiano Ronaldo.

Antes de prosseguir, devo dizer que tenho pela FIFA (e pela UEFA que por acaso é do Platini) o maior desprezo possível por inúmeras razões, que vão desde sucessivos e muito credíveis indícios de corrupção em massa, em ambas as instituições, passando pelo papel de monopolista a quem são conferidos os direitos de organizar e regular competições sem qualquer concurso ou concorrência regular, o que, como pessoas que não são de esquerda sabem, favorece sempre a corrupção e ineficiência que acaba por ser paga por nós, adeptos, sócios e consumidores de produtos e serviços, competições essas que são sucessivamente deturpadas em função do lucro que possam gerar e, finalmente, culminando na pessoa serôdia do Blatter e na pessoa detestável do francês extremamente francês que é o Platini.

Também devo advertir que sou fã do Cristiano Ronaldo, conforme já pude atestar em diversos debates e até num mítico post em que tentei reconfortar o CR7 depois de ter perdido um prémio de merda qualquer (presumo que este a que se refere o Blatter) com uma comparação de estilo, automóveis, penteados e namoradas para com os bens e serviços equivalentes do Messi, sendo esta extremamente desfavorável para o Messi (como muito bem explica o Blatter).

Tenho também um certa aversão à inveja e ao ódio de que é alvo de muitos portugueses que, de certa forma, o vêem muito pior do que o Blatter vê, focando-se na sua suposta arrogância (o Mourinho é arrogante, Ronaldo não), esquecendo que ele banca a arrogância com golos e performance, o que lhe confere o direito de ser arrogante ou de ter uma personalidade forte, digamos assim, como outros mitos do estilo Maradona, Cantona, a cabeçada bonita de Zidane ou, porque não, Ibrahimovic, que não é exactamente um Messi. Ah, Messi.

Não gosto muito do Messi. Não simpatizo com ele. Sempre detestei o Messi, a verdade é essa. Joga muito bem. Até estou disposto a admitir que Messi joga melhor que o Ronaldo, mas que Ronaldo é melhor jogador do que Messi. Messi (e todo o eixo Barcelona-UNICEF) é uma coisa enjoativa e que me cheira a hipocrisia, a mesma que agora é utilizada naquele vídeo imbecil em que se vê Ronaldo a preto e branco em câmara lenta a dar beijinhos a crianças com cancro e que o DN, estranhamente, apelida de “o lado humano de Ronaldo”. O lado humano? A maior parte do tempo, o Ronaldo está a encher no ginásio ou em treinos intensos e obsessivos ou a marcar golos espectaculares. O resto do tempo deve ser merecidamente passado nas ramboias mais hedonistas que se possam imaginar, para as quais se desloca de Lamborghini. Com o que tem de f***r, deve-lhe sobrar uns 5% de tempo para dormir e, com sorte, 0.5% de tempo para ser fotografado e filmado em momentos de “lado humano”. Mas tudo bem. Vamos todos ser hipócritas e medir o Ronaldo pela mesma bitola Jonet que Blatter usa, armado em avozinho, para justificar a preferência por Messi (chega a dizer que é o filho que todos queríamos ter). Depois vai-se a riscar um pouco debaixo da superfície do menino bonito do Messi e vê-se que está a responder em tribunal por uma evasão fiscal de de 4 milhões de euros.

Portanto, agora que estamos devidamente sintonizados, esperei um bocado até ver o video do Blatter e fiz boa fé no que li por aí. O assunto não me dizia muito, o Blatter é um velho serôdio e odeio a FIFA e a UEFA e a nacional parolice já é coisa gasta. Até cronometrei quanto tempo demorava até vir a página do facebook para demitir Blatter. Assisti a todo o tipo de indignação que até poderia ter surgido a propósito da RTP não ser vendida, muito menos extinta e o Governo ter aumentado a contribuição da Taxa do Audiovisual na factura da electricidade, mas que não surgiu (a indignação). E ia ficar sossegado até ter lido que o o ministro dos assuntos parlamentares do GOVERNO DA REPÚBLICA PORTUGUESA</> já se meteu ao barulho, classificando de muito más as declarações de Blatter, a ver se passa mais um corte nas reformas. O que se segue? Comentar a novela Bárbara Carrilho?

E pronto, fui ver o vídeo com os meus olhos, à espera de ver o Blatter a ser Platini (um filho da puta). E o que vejo? Isto

Um velhinho, um pouco rosado do almoço, que não me pareceu absolutamente nada ofensivo para com Ronaldo, pelo contrário. Podemos argumentar que o presidente da FIFA não deveria tecer aquelas considerações sobre a sua preferência pessoal por um ou outro jogador, uma vez que vem aí a eleição do melhor jogador do mundo, mas isso também é atribuir uma importância desmedida a um prémio que está descredibilizado pelas escolhas que não fez nos últimos anos. É também esquecer o contexto em que disse aquilo e todo o discurso que antecedeu o que disse: eram os dois os melhores e que estavam (e estão) em extremos opostos do que representam para o futebol e que o futebol vive disso, deles, incluindo Ronaldo. Exacto. Brincou com os penteados do Ronaldo. Ora foda-se.
hair

Devo dizer que a minha Júlia também tem um penacho em cima da cabeça, mas é 100% natural e a sua orientação está completamente entregue à electricidade estática e direcção da corrente de ar.

A reacção que tenho visto é um pouco reveladora da procura que temos de bases de identidade nacional que não sejam os descobrimentos e que precisamos de Ronaldos, Selecções e Mourinhos, de uma nacional parolice que tem tanto de generosidade como de  insegurança ou timidez. Isto do Blatter, vejo-o constantemente nos comentários do youtube quando um comediante estrangeiro, especialmente um brasileiro, se atreve a ironizar com o estereótipo do português, mesmo que o humor não seja maldoso. Vê-se num concerto quando o bife, num sotaque manhoso, diz “obrigada Portugal” e arranca uma ovação maior do que se tocar uma música na perfeição (e o público chega cantar o hino, já vi e ouvi) . Um espanhol ou um francês ou um inglês assumem que o cabrão do artista vai dizer gracias, merci ou thank you. Mas o português deslumbra-se com o “I… eu… adoro… Lishboa” Eehhh Patinhas de português no ar! Eu podia dizer que este sentimento existe em toda a parte, mas não acredito. O português em certos aspectos parece bipolar. É completamente obcecado pela forma como o vêem e ao seu país e inflama-se todo para o defender quando um estrangeiro o ataca ou um dos seus símbolos. Mas ninguém o ataca tanto como o próprio português, às vezes com uma auto-imagem completamente desajustada, fatalista e pessimista. Já escrevi isto uma vez a propósito da semelhança que, no meu conhecimento limitado da literatura russa, encontrei entre esse país e Portugal.

Termino com um exemplo bonito,  no programa do Anthony Bourdain, a partir do minuto 7 em que Anthony é submetido a uma fadista e ao António Lobo Antunes. Precisou de dois xanaxes depois daquele segmento, digo eu.

Lou Reed

Um dos meus músicos preferidos morreu hoje. Em toda a sua discografia sobressai, até por motivos históricos, o que fez nos Velvet Underground, mas é na carreira a solo que ele é depurado no Lou Reed que se conhece, um pouco como o John Lennon pós-Beatles.

Lou Reed.

O Transformer é um dos meus discos preferidos, um disco que devo ter ouvido umas centenas de vezes ainda no tempo em que as cassetes no walkman nos disciplinavam a não fazer skip de faixas de 10 em 10 segundos ou shuffles esquizofrénicos como na idade do milhão de músicas gratuitas em mp3 num chip do tamanho de uma pastilha. Ouvi-lo traz-me memórias de viagens de autocarros e metro, a rezar para que as pilhas não me falhassem antes de chegar ao quarto minúsculo qualquer que estivesse a alugar na altura e pousar os sacos com as roupas para a semana e os livros dos estudos. Vou ouvir a satellite of love e espero que ele também esteja lá up in the sky e porreiro.
http://vimeo.com/62580844

semi-apagão

Bati o meu recorde de distância (+18km) num percurso com 470 metros de acumulado vertical. A vista do Anfiteatro Keil Amaral com a ponte 25 de Abril semi-mergulhada num nevoeiro branco fluorescente quase que me cegava, mas imagino que fosse muito bonita para quem tivesse daqueles óculos de ver eclipses. O pior foi perto do km 14 ou 15 (já nem me lembro) quando comecei com princípios de hipoglicemia. Não costumo comer antes das corridas longas e relativamente lentas. Entre outros objetivos, servem para habituar o metabolismo do corpo a ir buscar energia à gordura corporal. Mas hoje, em jejum, torrei 1862 calorias (de acordo com as estimativas do strava) e, como era de esperar, comecei a sentir-me fraquinho, fraquinho, fraquinho, a tremelicar das mãos, a ver tudo turvo e escuro. Com o carro apenas a um quilómetro, já estava a ponderar pedir um gel energético a um qualquer ciclista que passasse no meio do bosque cerrado. Corria umas dezenas de metros e era forçado a andar, para recuperar. Nunca fiquei tão contente de ver civilização quando cheguei a Benfica. Animado, recomecei a correr e só parei num café onde consumi, avida e barbaramente, um sumol, uma coca-cola, um croissant com chocolate, uma sandes de ovo e um café com açúcar. E se tivesse mais de 10 euros, tinha gasto mais. Agora vou aquecer o arroz de marisco no microondas. Próxima compra, cinto com uma garrafinha de bebidas isotónicas e gel/barras energéticas.

http://www.strava.com/activities/91591280

Monsanto

Hoje testei os meus novos ténis de trail North Face Ultra Guide GTX (soa a tuning) em Monsanto e gostei mesmo muito. Pensei que era o único maluco a chegar lá antes das 8 da manhã quando ainda era meio de noite, mas mal estacionei o carro na base, vi três corredores a trepar por ali acima e uma corredora a terminar o seu percurso exausta. Pois é, a cidade ainda dorme e já Monsanto tem os seus exploradores madrugadores. Contudo, tenho de dizer que durante 1 hora não vi absolutamente ninguém, apenas 2 ciclistas de btt, de tal forma é possível uma pessoa embrenhar-se em trilhos labirínticos. A topografia de Monsanto também não é exatamente propícia a quem não tenha algum espírito aventureiro. Se por um lado tenho uma certa pena que Monsanto seja tão ignorado por tantos lisboetas (que por outro lado sobrepovoam a zona ribeirinha ao fds), por outro acho que isso mantém Monsanto mais calmo e propício a divagações como a que fiz hoje. Conheço razoavelmente bem aquela mata pela prática de BTT, mas no BTT acho Monsanto um pouco “curto” e claustrofóbico. É complicado fazer 30km por lá, quanto mais 50km, temos a sensação de não sair do mesmo sítio e andar às voltinhas. Mas na corrida, o mesmo problema não se coloca. Com o ilotibial band syndrome não me apetece correr treinos mais longos em asfalto. Já é a 2ª lesão do género, agora na perna direita. Felizmente existe Monsanto que nos dá o luxo de correr rampas muito inclinadas, em terra batida ou gravilha e até em trilhos fofinhos da caruma dos pinheiros, o que permite um treino de força acrescida, mas sem os impactos inerentes à corrida em asfalto / passeio. O próprio trail educa a passada a ser mais curta e rápida por causa do terreno irregular e o pé a aterrar mais no “midfoot” e não no calcanhar, como sucede numa passada mais larga em terreno plano. É apenas preciso ter cuidado a descer, mas isso também se resolve escolhendo trilhos técnicos que obrigam a reduzir velocidade e a trabalhar os músculos do core (abdominais profundos etc.) No meio disto, é inútil pensar em paces, recordes pessoais, zonas cardíacas de treino ou outra coisa. A evolução é um pouco invisível, mas existe e o que se desenvolve naquele tipo de terreno acaba por ser muito útil em estrada (e vice versa, é preciso dizê-lo). Os quenianos têm pânico do asfalto, correm quase sempre a subir montes e em terra batida e dominam o circuito mundial. Eles lá sabem… Espero recuperar, até porque vou participar na corrida do ISCTE a 17 de Novembro e quero fazer um tempo inferior a 50:00. A mudança de ares está-me a saber bem, como umas férias dos meus quatro laboratórios (campo grande, inatel, estádio universitário e parque josé gomes ferreira) onde ando às voltas como um hamster numa gaiola, num cenário relativamente urbano, a controlar rigidamente os meus treino. Para me manter motivado entrei num desafio do Strava, conseguir pelo menos 1000 metros de altitude em 10 dias (ou 2000, quem sabe) Hoje consegui 280 metros, amanhã estimo perto de 500, no treino de 16km por Monsanto. Talvez consiga 2000 metros em 10 dias. Não é nada de mais, o tipo que lidera o desafio fez 2300 num dia e há corredores portugueses de ultra maratonas que vão facilmente atingir mais de 4000 metros se lhes coincidir com treinos e provas. Só os holandeses se queixam do desafio nos comentários!

Hoje desnorteei-me completamente entre o km 4 e o 5.5. Passei três vezes no mesmo sítio. Senti-me num quadro do Escher. Não fazia sentido nenhum do ponto de vista tridimensional. Eu metia-me num trail, dava lá umas voltas em espiral e voltava à estrada de onde tinha entrado no trail, apesar de me parecer que tinha estado sempre a subir ou sempre a descer, o que consiste num belo paradoxo. Escolhia outro trail e acontecia a mesma coisa. Nevoeiro, corvos a grasnar, bosque cerrado… só faltaram whitewalkers. Amanhã levo o GPS para os 16km, não posso arriscar a mesma brincadeira ou não chego ao carro…