nacional bimbice

E pronto. A nacional parolice em todo o seu esplendor, a propósito dos ‘insultos’ de Blatter (já lá vamos) a Cristiano Ronaldo.

Antes de prosseguir, devo dizer que tenho pela FIFA (e pela UEFA que por acaso é do Platini) o maior desprezo possível por inúmeras razões, que vão desde sucessivos e muito credíveis indícios de corrupção em massa, em ambas as instituições, passando pelo papel de monopolista a quem são conferidos os direitos de organizar e regular competições sem qualquer concurso ou concorrência regular, o que, como pessoas que não são de esquerda sabem, favorece sempre a corrupção e ineficiência que acaba por ser paga por nós, adeptos, sócios e consumidores de produtos e serviços, competições essas que são sucessivamente deturpadas em função do lucro que possam gerar e, finalmente, culminando na pessoa serôdia do Blatter e na pessoa detestável do francês extremamente francês que é o Platini.

Também devo advertir que sou fã do Cristiano Ronaldo, conforme já pude atestar em diversos debates e até num mítico post em que tentei reconfortar o CR7 depois de ter perdido um prémio de merda qualquer (presumo que este a que se refere o Blatter) com uma comparação de estilo, automóveis, penteados e namoradas para com os bens e serviços equivalentes do Messi, sendo esta extremamente desfavorável para o Messi (como muito bem explica o Blatter).

Tenho também um certa aversão à inveja e ao ódio de que é alvo de muitos portugueses que, de certa forma, o vêem muito pior do que o Blatter vê, focando-se na sua suposta arrogância (o Mourinho é arrogante, Ronaldo não), esquecendo que ele banca a arrogância com golos e performance, o que lhe confere o direito de ser arrogante ou de ter uma personalidade forte, digamos assim, como outros mitos do estilo Maradona, Cantona, a cabeçada bonita de Zidane ou, porque não, Ibrahimovic, que não é exactamente um Messi. Ah, Messi.

Não gosto muito do Messi. Não simpatizo com ele. Sempre detestei o Messi, a verdade é essa. Joga muito bem. Até estou disposto a admitir que Messi joga melhor que o Ronaldo, mas que Ronaldo é melhor jogador do que Messi. Messi (e todo o eixo Barcelona-UNICEF) é uma coisa enjoativa e que me cheira a hipocrisia, a mesma que agora é utilizada naquele vídeo imbecil em que se vê Ronaldo a preto e branco em câmara lenta a dar beijinhos a crianças com cancro e que o DN, estranhamente, apelida de “o lado humano de Ronaldo”. O lado humano? A maior parte do tempo, o Ronaldo está a encher no ginásio ou em treinos intensos e obsessivos ou a marcar golos espectaculares. O resto do tempo deve ser merecidamente passado nas ramboias mais hedonistas que se possam imaginar, para as quais se desloca de Lamborghini. Com o que tem de f***r, deve-lhe sobrar uns 5% de tempo para dormir e, com sorte, 0.5% de tempo para ser fotografado e filmado em momentos de “lado humano”. Mas tudo bem. Vamos todos ser hipócritas e medir o Ronaldo pela mesma bitola Jonet que Blatter usa, armado em avozinho, para justificar a preferência por Messi (chega a dizer que é o filho que todos queríamos ter). Depois vai-se a riscar um pouco debaixo da superfície do menino bonito do Messi e vê-se que está a responder em tribunal por uma evasão fiscal de de 4 milhões de euros.

Portanto, agora que estamos devidamente sintonizados, esperei um bocado até ver o video do Blatter e fiz boa fé no que li por aí. O assunto não me dizia muito, o Blatter é um velho serôdio e odeio a FIFA e a UEFA e a nacional parolice já é coisa gasta. Até cronometrei quanto tempo demorava até vir a página do facebook para demitir Blatter. Assisti a todo o tipo de indignação que até poderia ter surgido a propósito da RTP não ser vendida, muito menos extinta e o Governo ter aumentado a contribuição da Taxa do Audiovisual na factura da electricidade, mas que não surgiu (a indignação). E ia ficar sossegado até ter lido que o o ministro dos assuntos parlamentares do GOVERNO DA REPÚBLICA PORTUGUESA</> já se meteu ao barulho, classificando de muito más as declarações de Blatter, a ver se passa mais um corte nas reformas. O que se segue? Comentar a novela Bárbara Carrilho?

E pronto, fui ver o vídeo com os meus olhos, à espera de ver o Blatter a ser Platini (um filho da puta). E o que vejo? Isto

Um velhinho, um pouco rosado do almoço, que não me pareceu absolutamente nada ofensivo para com Ronaldo, pelo contrário. Podemos argumentar que o presidente da FIFA não deveria tecer aquelas considerações sobre a sua preferência pessoal por um ou outro jogador, uma vez que vem aí a eleição do melhor jogador do mundo, mas isso também é atribuir uma importância desmedida a um prémio que está descredibilizado pelas escolhas que não fez nos últimos anos. É também esquecer o contexto em que disse aquilo e todo o discurso que antecedeu o que disse: eram os dois os melhores e que estavam (e estão) em extremos opostos do que representam para o futebol e que o futebol vive disso, deles, incluindo Ronaldo. Exacto. Brincou com os penteados do Ronaldo. Ora foda-se.
hair

Devo dizer que a minha Júlia também tem um penacho em cima da cabeça, mas é 100% natural e a sua orientação está completamente entregue à electricidade estática e direcção da corrente de ar.

A reacção que tenho visto é um pouco reveladora da procura que temos de bases de identidade nacional que não sejam os descobrimentos e que precisamos de Ronaldos, Selecções e Mourinhos, de uma nacional parolice que tem tanto de generosidade como de  insegurança ou timidez. Isto do Blatter, vejo-o constantemente nos comentários do youtube quando um comediante estrangeiro, especialmente um brasileiro, se atreve a ironizar com o estereótipo do português, mesmo que o humor não seja maldoso. Vê-se num concerto quando o bife, num sotaque manhoso, diz “obrigada Portugal” e arranca uma ovação maior do que se tocar uma música na perfeição (e o público chega cantar o hino, já vi e ouvi) . Um espanhol ou um francês ou um inglês assumem que o cabrão do artista vai dizer gracias, merci ou thank you. Mas o português deslumbra-se com o “I… eu… adoro… Lishboa” Eehhh Patinhas de português no ar! Eu podia dizer que este sentimento existe em toda a parte, mas não acredito. O português em certos aspectos parece bipolar. É completamente obcecado pela forma como o vêem e ao seu país e inflama-se todo para o defender quando um estrangeiro o ataca ou um dos seus símbolos. Mas ninguém o ataca tanto como o próprio português, às vezes com uma auto-imagem completamente desajustada, fatalista e pessimista. Já escrevi isto uma vez a propósito da semelhança que, no meu conhecimento limitado da literatura russa, encontrei entre esse país e Portugal.

Termino com um exemplo bonito,  no programa do Anthony Bourdain, a partir do minuto 7 em que Anthony é submetido a uma fadista e ao António Lobo Antunes. Precisou de dois xanaxes depois daquele segmento, digo eu.

5 thoughts on “nacional bimbice

  1. Hum…eu também detesto o Barcelona, mas gosto de muitos jogadores do dito clube, incluindo Messi. Costumamos dizer cá em casa que o Ronaldo é o melhor atleta do mundo (podia ser bom até a jogar curling) mas Messi é magia. E sem ter nada a ver com feitios, ou penteados, ou anúncios a batatas fritas.

  2. Fogo, eu não acho nada que o Messi é o filho que todos gostaríamos de ter, pah. Apesar de ter duas raparigas e de me sentir defraudada nas minhas aspirações a ter um rapaz, um Hobbit é que jámé. E ainda põe cima é um bimbo dum Shire qualquer. O CR7 nem é arrogante, é puto, e um bocado vaidoso, e a família de chulos que sustenta, enfim…. O velho, é velho, o Platini já se esqueceu do par de cornos que fizeram manchetes meses a fio ou então alinda lhe pesam e é por isso que está um traste. E quanto ao programa do Anthony Bourdain, aquilo é que foi mostrar ao homem a nossa tradição caramba !!!! Aposto que o Places Unknown nem cá vai por os pés. Jinhos ás piquenas !

  3. A reacção ao Blatter definida como nacional parolice só pecará por defeito. Mas a tua reacção à nacional parolice é o quê? Algo como “ninguém o ataca tanto como o próprio português, às vezes com uma auto-imagem completamente desajustada, fatalista e pessimista”? Só isso justificaria uma frase como “Eu podia dizer que este sentimento existe em toda a parte, mas não acredito.” Mais, ao apostares, como pareces apostar, que há pelo menos UM sentimento exclusivo de Portugal, não estás tu também a embarcar na “procura (…) de bases de identidade nacional que não sejam os descobrimentos…”?

    Beijinhos à Júlia.

    1. Sim, tens razão,quis acrescentar um parágrafo no fim com isso de eu próprio fazer isso, mas estragava-me o impacto do video do Lobo Antunes a falar de Portugal. A Júlia estranha os beijinhos e olha-te de lado, pois ainda não te viu antes O_o

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