tema quente

A rábula(?) de Bruno Nogueira sobre MRP não prima pela piada, nem parece esforçar-se para tal. Portugal em plena crise e contestação e aparece a MRP a ser MRP só que em vez das gordas e dos gordos, deu asas à costela Jonet e o alvo foram as pessoas que não se portam bem e se manifestam. E Bruno Nogueira, encarnando o justiceiro de esquerda que de vez em quando possui o espírito do comediante português que ganha bem ao serviço do melhor que o capitalismo tem para dar por intermédio do sistema concorrencial da fama, vai daí e tungas. Direito à opinião todos temos, mas diria que há um espaço para opinião não trabalhada, digamos assim, e outro onde supostamente se é criativo e esforçado, como num programa de humor. Luís Franco Bastos fez um video ‘contra’ o Blatter (http://www.youtube.com/watch?v=RRiohOmocOE) a propósito da terrível polémica do Ronaldo e que termina com “Platini, vai pro caralho”. Estava chateado, o Luís Franco Bastos, mas eu também escrevi que o Platini é um filho da puta e compreendo o Luís Franco Bastos e tenho toda a solidariedade para com ele e com as coisas que nos aborrecem muito. Não deixa de ser um video pessoal, gravado do pc de casa, não imitou ninguém, não tentou ser engraçado. É daquelas coisas que uma pessoa faz a quente e que, agora, graças à maravilha dos social media, podemos depois arrepender-nos mais tarde.

Não me parece ser esse o contexto deste trabalho do Bruno Nogueira. De resto, não me parece que nasça daqui algo de novo. Temos apenas uma discussão entre as pessoas que odeiam a MRP e as coisas que adoram a MRP. A coisa apenas reforçou e estigmatizou os campos em vez de diluir fronteiras e fazer do mundo um lugar mais parecido com o que o Martin Luther King sonhou para nós, até para a MRP e para os seus leitores. Tem tanto interesse humorístico como chegar a uma reunião do KKK e contar aquela piada do “como sabes que um preto utilizou o teu computador? Já não está lá”.  O que é preciso é um deputado do CDS-PP chegar a uma reunião com deputadas do Bloco de Esquerda e, enquanto liga o iPad e abre o dossier, contar a da mulher que se vira para o marido e diz “só queres sexo quanto estás bêbado” e ele responde “não é verdade… às vezes apetece-me uma bifana” e esperar que essa piada quebre o gelo antes da discussão sobre alterações à lei do aborto.

ecos

A A. está a ensaiar uma peça e hoje eu a Fominhas Roupinhas vimos o Benfica juntos. Depois de festejarmos os golos, seguiu-se a habitual sessão de tortura de lhe tentar dar biberon sem ter à mão as maminhas da mãe, tão eficazes em induzir-lhe a paz de alma tão necessária ao sono repousado, pois as maminhas resolvem dois problemas de uma vez: fome e sono / birra. Sem a mãe, instala-se o caos nos hábitos e procedimentos tão bem determinados. Curioso, depois de umas horas a ouvir a Fominhas a chorar, continua ou intermitentemente, toda vermelha ou apenas em lamentos soluçados, noto que continuo a ouvi-la chorar quando está a dormir, como se fosse um eco ou uma alucinação auditiva. Todos os sons se parecem com ela a chorar e vou lá ver. Estou sempre a tirar os fones se oiço música, a desligar o aquecedor, a ouvir o silêncio e o todos os sons indistintos e ruído branco se metamorfoseiam em choro da Fominhas Roupinhas e naquele arrepio de stress de ter de passar por tudo outra vez. Vou dormir com o som a retinir, especialmente os gritos mais efusivos que ela dá. Em termos relativos, somos uns sortudos e não quero imaginar o que seria combinar isto com privação de sono, mas quero solidarizar-me com todos os pais deste mundo que passam por isso (ando em fóruns a ver e é tudo muito natural).