inveja

Estou em crer que nos últimos 10 anos nunca passei tanto tempo sem escrever. Sem sequer dedilhar um teclado. Virtude da licença de paternidade e férias prolongadas. O meu telemóvel está em estado terminal, não consigo escrever mails, dá um trabalho enorme escrever mensagens curtas e a bateria aguenta dez minutos. Fiquei em casa quase 24 horas por dia com um bebé com quem conversei bastante, mas que ainda está numa fase bastante rudimentar no que respeita à expressão oral. É difícil responder a termos como “pffffff” acompanhado de baba em bolhinhas quando acabámos de expôr a nossa opinião sobre existencialismo. Tudo somado resultou num isolamento monástico em que a parte de meditação espiritual introspectiva foi substituída por jogar playstation até não me sobrarem neurónios funcionais. A propósito, ontem, passeio de domingo, chego à Igreja de Nossa Senhora do Cabo Espichel, construída no início do século XVIII. Tive, mais uma vez, perante um altar, pena de não ser católico e poder usufruir das instalações como deve ser, em vez de ficar embasbaco a olhar para os pormenores de talha dourada e os frescos no tecto. Nas igrejas sinto-me como se entrasse num ginásio do qual não sou membro. Não sei se a comparação é feliz, mas acho que sim. Tive inveja do português turista de fim de semana que se benzeu ao meu lado antes de sair e enfrentar dois filhos adolescentes que o esperavam cá fora e não pareciam de todo interessados em partilhar o momento. O que invejo é a estrutura espiritual daquele homem que me pareceu ser chofer de taxi não sei porquê. Uma pessoa acredita naquilo, do Cristo e assim, e tem a vida feita, rotina, hábitos mentais, ordem, tudo arrumadinho. Ainda por cima o Papa Francisco é amigo das pessoas. Isto, claro, se acreditar como deve ser, sem pensar demais, aceitando, o que também é difícil quando se passa uma determinada fronteira de nível intelectual que no meu caso já vai longe e pequenina no retrovisor. Nesse caso, acho que ser católico é pior e mais torturante, como se não bastassem os problemas que se tem, ainda se lhes junta o tempero da culpa e do pecado. Veja-se o exemplo do Pedro Mexia. Aquilo não é só Morrissey, há muita catequese naquilo. A minha devoção espiritual foi absorvida pela experiência, a todos os níveis fantástica, de ser pai, menos quando, por exemplo, o bebé chora muito e exige coisas impossíveis da Vida, como, vamos supor, que a própria mão obedeça à vontade de agarrar a girafa de borracha que está precisamente à frente dela e perfeitamente ao alcance de uma mão funcional. O que sobra é dirigido para coisas como as ameijoas à bulhão pato e a feijoada de choco que comi no restaurante da Alice, na aldeia da Azóia, perto do Cabo Espichel. Isso eu consigo compreender. E o pão quentinho molhado no azeite a ferver onde o alho picado flutua a crepitar. Da varanda do hotel em Sesimbra observei os pescadores à linha que apanham peixes para vender nos restaurantes e invejei-os muito, pois não trabalham na economia da informação. É só inveja. Mas devo estar a cogitar um plano, como sempre. Eu cogito sem me aperceber que estou a cogitar e depois surpreendo-me com decisões aparentemente intempestivas, mas que cozinharam em fogo lento como alcatra em tacho de barro. Para completar esta reflexão que após uma 2ª leitura ainda não me pareceu Estado Novo que chegue, resta-me acrescentar que preciso de voltar a trabalhar e de ter uma rotina organizada e transformar tudo em hábitos e rituais devidamente encaixados. E entretanto, esqueci-me de como se deve terminar um texto.

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