o anel de diamantes

Já não se morre em casa, nem se fica doente em casa, a ciência está sempre a criar tecnologia e curas, por isso quando alguém fica doente com um cancro fatal, a surpresa faz parte da reacção. Não há empregado de escritório que cometa o erro de ler dois livros que não sonhe com qualquer coisa do género ser tratador de golfinhos, espião internacional ou músico. Os empregos são formas geométricas onde encaixam seres humanos para se gerar dinheiro, mas hoje em dia as nossas formas são cada vez mais difusas e complexas, até porque crescemos a ouvir que somos especiais e complexos  e por isso a fila para um casting do ídolos nunca mais acaba. E hoje em dia ouvimos que “temos de fazer aquilo de que gostamos” ou “sem paixão, não se consegue criar nada” o que alimenta sentimentos de culpa ou falhanço adicionais, como se algo nos estivesse a escapar constantemente e a vida nos passasse ao lado, enquanto que antigamente as preocupações materiais ou familiares talvez bastassem, talvez, a alguns claramente nunca bastaram, a julgar pelo que escreveram. As taxas de divórcio disparam, o casamento é um papel, a utopia, desmascarada. Os escapes espirituais como a religião estão em decadência excepto os que têm uma visão utilitária da fé, como as seitas brasileiras em que a vida das pessoas se transforma para melhor na saúde, no dinheiro, no amor, por magia, o misticismo new age dispara. Temos sociedades excedentárias e confortáveis como nunca tivemos, mesmo em tempos de crise, quando comparadas com há 100, 200 anos, temos sociedades muito menos violentas do que há 50 anos, mas o Correio da Manhã diz que não e a pobreza que existe é mais chocante, afecta-nos mais, há reportagens, correntes no facebook, somos mais sensíveis, no tempo do Salazar vivia-se melhor, uma pessoa do campo vivia bem com meia dúzia de tostões porque tinha galinhas e uma horta e não havia bullying, havia uma guerra colonial, não havia praxes, mas serviço militar obrigatório. Um jovem pode estar desempregado até aos 30 vivendo em casa dos pais, não se pense que este jovem é feliz, mas também não se pode dizer que é infeliz como um operário de uma mina de carvão do século XIX ou um soldado numa trincheira. Uma economia de entretenimento, as apps, os smartphones, os jogos, milhões e milhões de cérebros inovadores a desenvolverem mais e melhor entretenimento e tecnologia e comunicação para estarmos mais perto uns dos outros, empresas atingem milhões na bolsa sem sequer gerarem lucro, só pela ideia e o potencial. No World of Warcraft há profissionais que desenvolvem atributos de personagens durante dias a fio e depois vendem as personagens no e-bay por largas centenas ou mesmo milhares de euros. Alguém de fora poderá dizer “isso é ridículo, estão a pagar por algo virtual, a esquecer o mundo real!” E um anel de diamantes, para que serve? Alguma vez serviu para alguma coisa?

One thought on “o anel de diamantes

  1. Isto é tão tolo que nem pareces tu… O que é que queres dizer com isto? É uma invocação da burguesia de agora à burguesia de ontem para reafirmar, como já se fazia antes, que a burguesia nada tem de que se auto-recriminar? E se achas que burguesia é a uma palavra datada e sem conteúdo, olha bem para os exemplos que deste.

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