tatuar isto

«Burn your fire for no witness it’s the only way it’s done.»

Angel Olsen, white fire

[para quem dizia aquilo da ironia e não sei quê, pronto, mas uma coisa assim tem de ser muito bem feita para não cair no ridículo, esta faixa é assombrosa (o disco é todo bom )] <– fiz parêntesis rectos

este verso, para os interessados, vem na linha da minha admiração superlativa do Robison Crusoe de Daniel Defoe escrito em 1719 e que versa, entre outras coisas, sobre a redução ao absurdo de todos os esquemas, conceitos, convenções sociais, culturais e morais e até da própria linguagem num isolamento completo. Na ilha, o Robison tentava recriar um simulacro de sociedade, com regras, horários, trabalho, higiene física e moral, mas não era fácil não senhor. Ontem fui correr (pensavam que escapavam ao post da corrida do domingo?) sem relógio GPS pela primeira vez na vida, estava sem bateria e não me apercebi a tempo, fui com um reles cronómetro como se fosse um mero Carlos Lopes nos anos 80. Não imaginam o que é para mim correr ou andar de bicicleta sem registar isso num software qualquer para analisar, somar aos kms que fiz esta semana, este mês, este ano, partilhar o percurso no Strava ou eventualmente no facebook, saber o ritmo por km, as minhas batidas cardíacas a qualquer momento… Hesitei muito antes de sair. Parece que “é para nada”. Claramente, preciso deste tipo de terapia, mas não estou sozinho, é conhecido o efeito psicológico e motivador da competição, da partilha de sucessos ou insucessos… A questão que se coloca é: teria  vontade de correr assim se estivesse numa ilha? Eu já vivi muito tempo sozinho e nem de cozinhar mais do que atum com esparguete era capaz.

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4 thoughts on “tatuar isto

  1. Eu agora ia dizer qualquer coisa sobre o Baudrillard e o simulacro e mais não sei quê mas almocei muito bem e desce-me o sangue para o estômago e já não me apetece. Digo-te só o que já devias saber: és um gajo competitivo e sentir-te-ias em casa aqui na Coreia.

  2. Uma excelente reflexão. A mim fez-me foi pensar no hedonismo, no Epicuro, e na ideia de agir sempre como se fossemos observados por alguém cuja opinião prezemos. Entre a tua reflexão e esta ideia, há de haver aqui algum sumo para espremer… a outra hora 🙂

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