fragmento

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Abri os olhos e nada de luz a não ser uma linha branca na ombreira da porta, uma luz intermitente de lâmpada cheia de tremeliques de raivinha. Confirmei, às apalpadelas, que era a porta da cela. Confirmei também, de gatas e com o maior cuidado, que está aqui o meu catre, a minha almofada raquítica e a sanita. O Neves veio buscar-me para passear na Gaiola. Uma hora passada numa cegueira branca ao sol. Suponho que fosse meio dia, não tinha sombra a não ser debaixo dos pés. Demorei tanto tempo a adaptar-me à luz que não me adaptei, não tive tempo, algemaram-me e levaram-me dali de volta para aqui para o escuro.

─ Isto é a minha cela? Mudaram-me? ─ perguntei ao Neves, antes da porta fechar.

─ Sempre estiveste aqui ─ disse-me.

─ Há quanto tempo estou aqui?

─ Há duas semanas.

Estou, ao que tudo indica, num regime de privação de luz de que me falaram na ala comum. Antes tinha luz, posso garantir. Fossem dar uma volta ao bilhar grande. Raios os partam. Olha, fodam-se, pronto, fica assim escrito. Deito-me na cama o dia todo, tenho medo de andar por aqui pelo quarto a tropeçar nas paredes que de repente me são estranhas. Olho na direcção oposta à da porta e tento visualizar a janela que antes estava ali, onde me apareciam os animais do bosque. Só vejo um negro absoluto, infinito, espesso. Nunca vi nada tão negro e vazio, é como um céu estrelado sem estrelas. Um dia o céu será assim para todos, as estrelas explodem ou colapsam, apagam-se, ficam frias, perdem-se, chocam umas com as outras, são engolidas por buracos negros… no longo prazo é perigoso ser estrela. Há sempre uma merda qualquer. Estou a ver o futuro, o meu e o vosso futuro. Estico a mão para este véu negro e a minha mão, invisível, não toca em nada. Só posso imaginar o meu corpo, mas as suas dimensões tornam-se infinitamente grandes ou microscópicas e é indiferente. O meu braço tanto pode ter mil anos de luz de comprimento como um milímetro. Não sei. Tento tocar no nariz com o indicador, logo à primeira. Falho e meto o dedo no olho. Arde-me. Faço chichi de pé, depois de apalpar bem a sanita e certificar-me que oiço o ruído do chichi a cair na água, para ter a certeza de não me mijar o tampo todo ou deixar uma poça no chão. Passo as mãos pela parede do lado da cama e sinto as frases escavadas, confirmo que é a minha cela. Destruam sem piedade as cidades veneradas. Dois homens olharam pelas janelas, um viu grades e o outro o céu, haja alguma verdade, uma referência, isto é real. Apalpo a parede que deveria ter a janela e confirmo que não está lá, nem uma alteração de textura, apenas betão liso e húmido, uniforme, com a tinta a escamar, com o aspecto de estar assim desde sempre. Terei sonhado com a janela?

Seria muito positivo poder fazer um relato objectivo da minha situação e lamento, mais do que qualquer outra pessoa, ser tão incoerente em detalhes tão simples. Quase que me dá vontade de fazer eco da escuridão e calar-me, desaparecer, já que nada do que digo parece ser fiável. Mas não o faço. O meu compromisso é com a Verdade e a Verdade é esta, pelo menos por enquanto.

O tempo passa, uma hora parece um mês, no escuro, nem consigo ver cores quando fecho os olhos e tento imaginá-las, aparece-me tudo a preto e branco. Grito, alto. O Neves, suponho que seja o Neves, bate com o bastão na porta e manda-me calar. Sempre quebra a rotina. Grito de novo, isto é como um jogo. Desta vez entra o Neves, muito prestável, a luz acende-se quebrando o protocolo, pisco os olhos, depois tungas, bastão na cabeça, nas costas, na cabeça outra vez e eu calo-me. A luz apaga-se para me deixarem confortável a reflectir no que sucedeu. Não tenho sono nenhum, raios, isto é pouco relaxante… levar com bastões…Podia-me ter batido até eu desmaiar. Hesito em chamar o Neves outra vez.

uma boa empregada doméstica é essencial à saúde mental da pessoa

apartamento 1

apartamento 2

apartamento 3

apartamento 4

fotos do apartamento onde Kurt e Courtney viveram até 1992

Comigo basta uma ou duas tardes por semana, fez-me toda a diferença. É certo que se o Kurt tivesse a mesma experiência que eu tenho, teria dificuldades em orientar-se e encontrar coisas depois da limpeza. A heroína num frasquinho de temperos ao pé dos cominhos e do pimentão doce, as colheres para ferver o produto na gaveta dos talheres, as seringas no armário dos medicamentos, a guitarra no quarto dos brinquedos, os rabiscos de letras no caixote da reciclagem do papel, as camisolas e calças grunge passadinhas a ferro e a cheirar a soflan no estendal etc.

prismas

the-art-of-game-design

Os jogos – por jogos não se entenda apenas “videojogos”, inclua-se coisas como xadrez, monopólio, macaca ou futebol – têm uma característica curiosa: englobam todas as outras formas de arte. Levados a níveis mais complexos  – aqui sim, falamos de videojogos  sofisticados –  são uma experiência que precisa de estética, narrativa, visão artística, fotografia, cinema, música, design, engenharia, matemática… Um livro ou um filme são experiências lineares, com estados sucessivos (páginas, frames) que se desenvolvem numa ordem pré-determinada. Os jogos diferem das outras formas de arte pela sua não-linearidade e por terem subjacente uma mecânica que regula a interacção que temos com ele. Um jogo só existe, totalmente quando estabelece uma relação com um ou mais jogadores que jogam com ele. O que me tem agradado bastante e consiste numa saída airosa para o caso disto ser apenas um ‘hobbit’ passageiro (game designer) é que muito do que tenho aprendido serve para aplicar na minha escrita e um bocadinho na minha própria profissão (consultor na área do branding e research). Especialmente este book of lenses do Jesse Schell que consiste numa série de questões ou prismas pelo qual vemos o jogo.  Os prismas sucedem-se e o autor dedica uma análise detalhada e completa com exemplos. Alguns, por exemplo, o valor endógeno de bens dentro de um jogo ou “regras”, que parecem não ter relação – e não têm na “literatura” dita séria – podem ter interesse quando pensamos em fantasia ou ficção científica, autores como Tolkien, George R.R. Martin, JK Rowling, Isaac Asimov ou Arthur C. Clark, artistas que constroem um mundo alternativo com regras próprias, com uma economia subjacente que tem de ser credível e em que muitas vezes existem “sub-jogos” (exemplo, o Quidditch do Harry Potter, uma batalha entre as forças de Mordor e a irmandade do Anel em que ambas as partes recorrem a armas, magias e estratégias que dão a impressão de equilíbrio e imprevisibilidade) Deixo aqui a longa lista com os primas abordados:

Lens of Essential Experience
Lens #2: The Lens of Surprise
Lens #3: The Lens of Fun
Lens #4: The Lens of Curiosity
Lens #5: The Lens of Endogenous Value
Lens #6: The Lens of Problem Solving
Lens #7: The Lens of the Elemental Tetrad
Lens #8: The Lens of Holographic Design
Lens #9: The Lens of Unification
Lens #10: The Lens of Resonance

Lens #11: The Lens of Infinite Inspiration
Lens #12: The Lens of the Problem Statement
Lens #13: The Lens of the Eight Filters
Lens #14: The Lens of Risk Mitigation
Lens #15: The Lens of the Toy
Lens #16: The Lens of the Player
Lens #17: The Lens of Pleasure
Lens #18: The Lens of Flow
Lens #19: The Lens of Needs
Lens #20: The Lens of Judgment

Lens #21: The Lens of Functional Space
Lens #22: The Lens of Dynamic State
Lens #23: The Lens of Emergence
Lens #24: The Lens of Action
Lens #25: The Lens of Goals
Lens #26: The Lens of Rules
Lens #27: The Lens of Skill
Lens #28: The Lens of Expected Value
Lens #29: The Lens of Chance
Lens #30: The Lens of Fairness

Lens #31: The Lens of Challenge
Lens #32: The Lens of Meaningful Choice
Lens #33: The Lens of Triangularity
Lens #34: The Lens of Skill vs. Chance
Lens #35: The Lens of Head and Hands
Lens #36: The Lens of Competition
Lens #37: The Lens of Cooperation
Lens #38: The Lens of Competition vs. Cooperation
Lens #39: The Lens of Time
Lens #40: The Lens of Reward

Lens #41: The Lens of Punishment
Lens #42: The Lens of Simplicity/Complexity
Lens #43: The Lens of Elegance
Lens #44: The Lens of Character
Lens #45: The Lens of Imagination
Lens #46: The Lens of Economy
Lens #47: The Lens of Balance
Lens #48: The Lens of Accessibility
Lens #49: The Lens of Visible Progress
Lens #50: The Lens of Parallelism

Lens #51: The Lens of the Pyramid
Lens #52: The Lens of the Puzzle
Lens #53: The Lens of Control
Lens #54: The Lens of Physical Interface
Lens #55: The Lens of Virtual Interface
Lens #56: The Lens of Transparency
Lens #57: The Lens of Feedback
Lens #58: The Lens of Juiciness
Lens #59: The Lens of Channels and Dimensions
Lens #60: The Lens of Modes

Lens #61: The Lens of the Interest Curve
Lens #62: The Lens of Inherent Interest
Lens #63: The Lens of Beauty
Lens #64: The Lens of Projection
Lens #65: The Lens of the Story Machine
Lens #66: The Lens of the Obstacle
Lens #67: The Lens of Simplicity and Transcendence
Lens #68: The Lens of the Hero’s Journey
Lens #69: The Lens of the Weirdest Thing
Lens #70: The Lens of Story

Lens #71: The Lens of Freedom
Lens #72: The Lens of Indirect Control
Lens #73: The Lens of Collusion
Lens #74: The Lens of the World
Lens #75: The Lens of the Avatar
Lens #76: The Lens of Character Function
Lens #77: The Lens of Character Traits
Lens #78: The Lens of the Interpersonal Circumplex
Lens #79: The Lens of the Character Web
Lens #80: The Lens of Status

Lens #81: The Lens of Character Transformation
Lens #82: The Lens of Inner Contradiction
Lens #83: The Lens of The Nameless Quality
Lens #84: The Lens of Friendship
Lens #85: The Lens of Expression
Lens #86: The Lens of Community
Lens #87: The Lens of Griefing
Lens #88: The Lens of Love
Lens #89: The Lens of the Team
Lens #90: The Lens of Documentation

Lens #91: The Lens of Playtesting
Lens #92: The Lens of Technology
Lens #93: The Lens of the Crystal Ball
Lens #94: The Lens of the Client
Lens #95: The Lens of the Pitch
Lens #96: The Lens of Profit
Lens #97: The Lens of Transformation
Lens #98: The Lens of Responsibility
Lens #99: The Lens of the Raven
Lens #100: The Lens of Your Secret Purpose
 

dia do meu pai

O meu aniversário, dia do pai e dia do aniversário do meu pai, falecido, tudo separado por apenas 3 dias, deixam-me um pouco meditativo. Um das coisas que me comove é ele não ter conhecido a minha filha. Quando estava em delírio, no recobro da ala de neurocirurgia de Santa Maria, menti-lhe, disse que me ia casar (foi há 7 anos) e ter um bebé logo naquele ano, porque ele, no meio daquela névoa, naquelas trevas grotescas e infernais, me perguntou por isso e porque sabia que passados 5 minutos não se recordaria. Mas eu nunca esqueci o ter-lhe dito isso. Porque senti um enorme engasgo cá dentro, da vida ser tão curta, tão frágil, de termos passado tantos anos um pouco à porrada e logo quando eu parecia amadurecer e ele cansar-se um pouco e que a gente se ia entender melhor como duas arestas que se limaram uma à outra, talvez partilhar um passatempo comum, os dois… Talvez a pesca, quem sabe se ele agora teria paciência para me ensinar. Eu agora teria certamente paciência para ficar de olhos fixos na merda da bóia a ver se o peixe picou. Alguns gostos dele acabaram por transbordar para mim, como se eu o quisesse manter perto de mim, imitando-lhe gestos e hábitos, inconscientemente. Aconteceu com a comida. Muitas vezes, sinto que ainda o estou a tentar impressionar. Uma coisa me deixa triste, ele não ter visto a Júlia. Tenho a certeza, mas absoluta, que esta miúda, que é absolutamente linda, risonha e delicada, o ia derreter. Ia domesticar aquele grande urso e operar aqui, entre nós os dois, um elo diferente, como se eu e ele agora fossemos os dois pais e cúmplices. Seria a minha prenda do dia do pai. Hoje quando levava a Júlia no carrier, ao supermercado, e ela adormeceu entre a secção de frescos  e o talho, encostada a mim, de pernitas a baloiçar, senti-me um gigante imortal.