o meu instinto

Como o meu conhecimento das coisas em geral é normalmente limitado e genérico, movo a minha opinião sobre economia muito pela arte da intuição e do instinto, essas emanações dos processos de subconsciente que andam cá por dentro enquanto durmo ou jogo consola. E não me safo mal. Avisei a minha mãe da crise em 2007, disse-lhe para comprar títulos de ouro e acertei. Teria sido óptimo se ela tivesse seguido os meus conselhos. Ou se eu tivesse sido um pouco mais assertivo. Bom, já o escrevi antes: chegámos a um momento em que o regresso aos mercados, ou seja, à possibilidade de nos endividarmos, é celebrado como se fosse um sucesso, um objectivo, em detrimento da redução da dívida propriamente dita, privada ou pública e ainda mais em detrimento de conquistas estruturais ou estratégicas, tão difíceis de quantificar. O meu instinto desconfia que isto de precisar de dinheiro emprestado e depois a gente logo vê o que faz quando for preciso pagar as prestações do país, não é bom.

O problema não exclusivo de Portugal. Não quero ser daquelas pessoas que só dizem mal do país e nunca dizem bem. Em Portugal isto foi muito visível para a geração que viveu a transição do escudo para o euro. Se uma família era composta de activos e os pais poupavam para dar aos filhos e assim sucessivamente, hoje o balanço de uma família de classe média terá muitas vezes avultados créditos de longo prazo e é irreal pensar que um casal pode juntar tostões durante uns anos para comprar um T2 num sítio decente. Isto não é dizer mal, sem dúvida que o 2º modelo criou mais conforto e nível de vida, mas talvez precise de um ajuste. Agora para dizer bem: é preciso reforçar que temos excelentes vinhos, somos grandes exportadores de cortiça e a onda da nazaré é enorme, uma das maiores do mundo.

As taxas de juro baixas penalizam a poupança e instigam o crédito, o consumo e opções como a bolsa que está a atingir novos recordes nos EUA e UK, a níveis de 2007. Claros sinais de bolha, uma vez que a economia real pouco ou nada cresceu desde então, diz-me o instinto, pelo contrário, pelo que não existe um motivo real para tanto entusiasmo, mas sim um fluxo de capital para um sítio aparentemente mais rentável, até alguém se lembrar de mexer nas taxas de juro e chegar à bolha com um alfinete.

Parece pois condição necessária ao funcionamento eficaz da economia que exista um fornecimento de dinheiro a custo baixo, uma existência de crédito permanente. Diz-me o meu subconsciente que o sistema financeiro é uma espécie de lubrificante para um motor envelhecido e pouco competitivo e que um dia gripa.

É preciso cash today para garantir as conquistas do amanhã ou então, caso europeu, é preciso cash now para garantir as conquistas de ontem. É bom ver que há pessoas cujos instintos lhes dizem que é possível existir verdadeira democracia e soberania quando um país não consegue criar os recursos suficientes para ser aquele país.  É preciso fé no futuro do país para achar que empréstimos de milhares de milhões vão ser fáceis de pagar na próxima década quando agora não temos dinheiro para pagar ao Fernando Tordo para ele poder cantar feliz na gaiola de Portugal. Eu não consigo ser tão optimista. Invejo-os e acho que a humanidade precisa de pessoas assim, optimistas e visionárias.

O meu instinto diz-me que a actual crise ficou abaixo das expectativas. Esperava mais, está desiludido, um pouco como quando vejo corridas de F1 com chuva e não há desastres. O meu instinto desconfia que uma crise do euro se possa resolver apenas porque se atirou dinheiro para cima dela ou se disse que se ia atirar dinheiro para cima dela. Aquilo dos Eurobonds para o Seguro poder manter a RTP, também me parece arriscado. Acordo em sobressalto com o facto do investimento estratégico da reserva federal americana se focar em toner para impressoras de dinheiro.

As minhas capacidades de medium espírita, dizem-me que está inerente à humanidade atrasar as más notícias. Somos mortais e com sorte tudo continua bem até continuar bem, depois logo se vê. Se eu errar na minha previsão de fim do euro (que ainda mantenho, fielmente, desde 2008) então ainda bem. Não estava à espera era de um ameaço de III Guerra Mundial agora, diz que isso também faz mal às bolsas. Mas não se preocupem e durmam bem. Recomendo um queijinho da serra. Temos queijos e vinhos que são uma maravilha. E o queijo e os vinhos são coisas que, quando são bem feitas, demoram tempo a curar ou fermentar. Não dá para fazer queijo a crédito, isso seria chegar ao pé de uma ovelha a pastar e gritar-lhe “dá-me queijo já”. Elas dão leite. O leite depois é que dá queijo. E o vinho a martelo dá ressaca. Pensem nisto.

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