crítica literária: a canção de embalar dos animais

animais

A Canção de Embalar dos Animais  (edicare 2012) de Madeleine Deny, ilustrações de Amandine Laprun e sons de Morgane Raoux, podia ser um clássico instantâneo. O argumento, enganadoramente simples, escondendo a complexidade subjacente ao propósito a que, de forma audaz, mas subreptícia, se propõe (adormecer bebés) pode resumir-se em quase tantas linhas quantas as do texto escrito propriamente dito, exigindo ao crítico alguma contenção. Os animais têm crias que ouvem música para dormir. A coruja, símbolo da sapiência, adverte que é hora de dormir. O papá Texugo toca o xilofone para adormecer os texuguinhos. A mãe castor dedilha a harpa. A mãe rato, menos dotada para as artes performativas, faz tocar uma caixinha de música, girando uma manivela. Num salto lógico próprio do surrealismo, a última das cinco páginas deste colosso introduz uma árvore dos sons onde os pais animais se encontram reunidos numa espécie de orquestra improvisada. Sorriem, unidos, talvez, pela tarefa exigente e por vezes ingrata, algumas vezes impossível, de adormecer crias quando estas parecem recusar, cada vez mais, os imperativos do sono, entrando no loop que pode ser caracterizado por “birra descomunal”. Os autores do livro, transpondo e subvertendo as regras literárias do género, incluem no livro um interface sonoro que pode ser activado por contacto digital. O leitor, carregando nas teclas que representam os diversos instrumentos, faz soar curtos clipes sonoros com samples das performances dos referidos animais. O destinatário, normalmente um bebé que não domina ainda a linguagem e o manuseamento de tecnologias interactivas, mergulha na ilusão completa de que são efectivamene os animais a executar as peças musicais que ouve. Este truque ilusório exige a participação activa do adormecedor de serviço, embora, em boa verdade, se deva admitir que não é tarefa complicada pressionar os botões de samples musicais de forma aleatória, o que é frequentemente o caso quando este se encontra esgotado ou num estado de contrariedade geral derivado ao bebé recusar o sono. No cômputo geral, trata-se de uma obra agradável, mas que deixa algumas dúvidas. As personagens são pouco desenvolvidas e ficam questões por responder. Por que motivo toca xilofone, o texugo? A mãe rato tem muitas crias e ainda tem de girar a manivela da caixa de música. Não há pai rato?

One thought on “crítica literária: a canção de embalar dos animais

  1. Desconheço a obra mas parece-me particularmente grave que a coruja, aparentemente, não toque instrumentos. É uma forma de dsicriminação – o especiismo, privilegiando os maíferos que têm patinhas e tocam instrumentos e relegando as aves (e todos os outros ovivíparos, suponho) para um papel secundário e amusical. A confirmar-se, proponho que a obra seja banida do currículo dos berçários.

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