dia do meu pai

O meu aniversário, dia do pai e dia do aniversário do meu pai, falecido, tudo separado por apenas 3 dias, deixam-me um pouco meditativo. Um das coisas que me comove é ele não ter conhecido a minha filha. Quando estava em delírio, no recobro da ala de neurocirurgia de Santa Maria, menti-lhe, disse que me ia casar (foi há 7 anos) e ter um bebé logo naquele ano, porque ele, no meio daquela névoa, naquelas trevas grotescas e infernais, me perguntou por isso e porque sabia que passados 5 minutos não se recordaria. Mas eu nunca esqueci o ter-lhe dito isso. Porque senti um enorme engasgo cá dentro, da vida ser tão curta, tão frágil, de termos passado tantos anos um pouco à porrada e logo quando eu parecia amadurecer e ele cansar-se um pouco e que a gente se ia entender melhor como duas arestas que se limaram uma à outra, talvez partilhar um passatempo comum, os dois… Talvez a pesca, quem sabe se ele agora teria paciência para me ensinar. Eu agora teria certamente paciência para ficar de olhos fixos na merda da bóia a ver se o peixe picou. Alguns gostos dele acabaram por transbordar para mim, como se eu o quisesse manter perto de mim, imitando-lhe gestos e hábitos, inconscientemente. Aconteceu com a comida. Muitas vezes, sinto que ainda o estou a tentar impressionar. Uma coisa me deixa triste, ele não ter visto a Júlia. Tenho a certeza, mas absoluta, que esta miúda, que é absolutamente linda, risonha e delicada, o ia derreter. Ia domesticar aquele grande urso e operar aqui, entre nós os dois, um elo diferente, como se eu e ele agora fossemos os dois pais e cúmplices. Seria a minha prenda do dia do pai. Hoje quando levava a Júlia no carrier, ao supermercado, e ela adormeceu entre a secção de frescos  e o talho, encostada a mim, de pernitas a baloiçar, senti-me um gigante imortal.

6 thoughts on “dia do meu pai

  1. Os nossos pais serão sempre os nossos heróis. Os dias específicos, as datas festivas começam a esbater-se no caminho do tempo. mas as memórias, essas foram tatuadas as a sangue, o sangue que nos criou e que nós codificámos nos genes que nós próprios criámos. Não te espantes por encontrar na tua filha gestos e trejeitos do teu pai, a hereditariedade é tão complexa e ao mesmo tempo duma simplicidade comovente,
    Feliz primeiro dia do Pai !!
    Beijinhos às lindezas.

  2. Magnífico, Lourenço. A maior parte do que escreveste aqui fui eu também escrevendo ao longo do tempo, lá no meu sítio (e noutros, entretanto apagados). Sentir esta necessidade de passar para os braços de um avô a sua neta é, de alguma maneira, sentirmo-nos o filho, a filha que tem a fórmula para a reconciliação com o mundo, que o mundo é mais vida que morte, ou deveria ser, não sei. Talvez tenha que ser, isso sim.

  3. Lindissimo. Gostei muito. Para o teu pai foste sempre o seu menino – demonstrado à sua maneira – para ti será sempre o teu herói. Tenho a certeza que a Julia iria dominá-lo e ver-se-ia, tenho a certeza, uma mudança das suas atitudes e prepotência. Os avós com os netos têm atitudes que nunca tiveram com os filhos. Penso que muitos sentem a necessidade de reconciliação com a vida que nunca tiveram com os entes mais próximos, o nascimento de um novo ser transforma, como que por magia, o sentir os filhos nos netos. Afinal, tanta coisa mudou! existe uma nova forma de amar e os remédios não são mais os mesmos para os avós, e também para os pais. Será a herança da heredietariedade que tu e a Julia terão de aprender mutuamente a conviver. Desejo-te que todos os dias sejam – feliz dia de um grande pai.

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