imagine

Os argumentos de Bruno de Carvalho de que o Sporting deveria estar na liderança do campeonato ainda não me convenceram totalmente e espero que isso não aconteça, pois caso o Benfica fosse campeão “matemático”, nem com 10 pontos de avanço eu celebraria, pois sabia ser uma vitória falseada. Muito menos a recordação do que aconteceu no último derby. Nos últimos 9 ou 10 derbys. Mas seria positivo para a cidade de Lisboa ter benfiquistas e sportinguistas no fim da época a celebrar, cada um, a conquista do seu campeonato, à sua maneira, no marquês e podermos ser todos amigos.

o kaihōgyō de cada um

School of Neon Fusiliers

The Kaihōgyō (回峰行?) (circling the mountain) is a set of the ascetic spiritual trainings for which the Buddhist “marathon monks” (a term coined by John Stevens) of Mt. Hiei are known. These monks are from the Tendai school of Buddhism, a denomination brought to Japan by the monk Saichō in 806 from China.

Their quest is to serve Buddha through many duties but they are best known for their great spiritual effort and perseverance in ascetic practices. In particular a form of asceticism whereby the monks meditate on Fudo Myoo, chant his mantra and circumambulate a sacred mountain for many days in a row. The school is based north of Kyoto, at Mt. Hiei, which overlooks the ancient capital city.

The ultimate achievement is the completion of the 1,000-day challenge, which would rank among the most demanding physical and mental challenges in the world. Only 46 men have completed the 1,000-day challenge since 1885.

Year 1 Year 2 Year 3 Year 4 Year 5 Year 6 Year 7
30 (40) km per day for 100 days. 30 (40) km per day for 100 days. 30 (40) km per day for 100 days. 30 (40) km per day for 200 days. 30 (40) km per day for 200 days. 60 km per day for 100 days. 84 km per day for 100 days, followed by 30 (40) km per day for 100 days.

Quando comecei a correr, em Junho de 2013, conseguia fazer 5km, no limite e nunca tinha corrido na vida. Menos de um ano, 1000kms depois, e se nada de anormal acontecer, terminarei a minha primeira maratona de 42km. Depois disso, penso que vou treinar para uma ultra maratona e dedicar-me mais ao trail (corrida em trilhos de montanha). Não tenho qualquer espécie de talento inato e estou longe de ser um bom atleta. Não é preciso ser um atleta excepcional para correr mais longe e mais tempo. Seria bem mais exigente (e provavelmente impossível) eu pretender fazer os 10km em menos de 35 minutos (e o recorde mundial é 27). Ao contrário do que se pensa, há milhares de pessoas razoavelmente comuns – do ponto de vista físico, inato – que correm longas distâncias, evidentemente, após treino e terem completado maratonas e vários ciclos de treino. A questão é porquê? Para quê? Sou quase sempre encarado com incredulidade quando refiro este objectivo de longo prazo, mesmo por outros corredores que se focam em baixar os recordes pessoais nos 10k e 21k e para quem mesmo a ideia de correr uma maratona é um suplício desnecessário devido ao tempo que demora. E isto vindo de atletas que correm 5 vezes por semana, com totais que chegam aos 50-60km semanais facilmente. Para as pessoas que não correm então, isto assemelha-se, como alguém já me disse, a uma forma elaborada de suicídio.

Quando comecei a correr, lidava com esse problema: a sensação de não querer estar ali, de querer que aquilo acabasse. Podia ter isto mesmo em treinos de 30 minutos. A primeira vez que corri 1 hora de seguida num treino lento nem queria acreditar no quanto me custaram os últimos 5 minutos. O mesmo na hora e meia, uma eternidade. Por isso pensei ser impossível correr mais tempo. Mas descobri duas coisas. Com os tempos a aumentar, especialmente depois das 2 horas de seguida e agora nas 3-4 horas, tornou-se claro  que à medida que a dor e o cansaço aumentam, à medida que as endorfinas jorram nas veias, a existência do nosso corpo torna-se cada vez mais presente. E o universo que nos rodeia também: uma subida, o vento fresco, uma chuvada, o sol por entre as nuvens, lama, rochas, asfalto negro, fios de electricidade, um prédio, o sabor da água na sede, os ramos de uma árvore a contra luz ou o mantra do som dos passos. A pouco e pouco os circuitos mentais, tão ruidosos e omnipresentes, começam a desligar-se e focar-se nestas coisas.  Em certos momentos há uma euforia existencial difícil de explicar e que só experimentei muito superficialmente ainda.

Era impossível suportar as minhas corridas de 3 horas e meia se estivesse sempre a pensar “não quero estar aqui” ou com a cabeça noutro lado. Paralelamente, comecei a prender-me menos aos circuitos, a dar voltas nos mesmos sítios, especialmente nestas corridas longas. As distâncias maiores permitiram-me ir à descoberta de coisas e pensar em trails na natureza, o que também ajuda ainda mais, pois correr na natureza é um regresso a qualquer coisa inscrita nos genes de caçador colector. Uma janela de aventura real, sem ser pronto a consumir, virtual ou fácil. O meu kaihōgyō é este, são só umas horas por semana, mas fazem-me bem.

E para vocês, qual é o vosso kaihogyo?

sabemos que vivemos numa economia de entretenimento digital quando…

epá, também detesto títulos assim. Ficaram curiosos com as reticências, foi?

bom, acabei de ganhar quase 200 euros no paypal por vender 2.5 milhões de moedas virtuais do Fifa 14 na PS3. É um pouco complicado explicar a mecânica disto a pessoas da literatura, como são os meus leitores, mas trata-se de um jogo de futebol on-line em que se compram carteiras de “cromos” virtuais para formar equipas. Jogadores como o Messi ou o Ronaldo são muito raros e muito bons e valem muito, 1.5 milhões e 2.5 milhões respectivamente, o William Carvalho vale 600 moedas. Estão a perceber a economia da coisa. Há uma mercado de transferências real, em tempo real, em que os users compram e vendem cartas / jogadores e outros items. Naturalmente e numa manobra ilegal comprei um bot (18 euros) que programava para fazer o trading para mim durante a noite e o dia, quase 24h por dia a esquadrinhar o mercado, a comprar barato (de madrugada os leilões são menos concorridos) e a vender caro (entre as 18h e 21h GMT). Não é fácil, é preciso estudar os horários, perceber as tendências, o crash de 4ª feira quando há carteirinhas com jogadores novos que levam a uma inundação do mercado, o crash do natal quando centenas de milhares de miúdos recebem dinheiro dos pais para comprar carteirinhas e a FIFA anuncia a equipa do ano levando a uma corrida desenfreada pela lotaria de lhes calhar um jogador hiper-raro versão Team of The Year com as estatísticas no máximo (é preciso liquidez disponível para comprar no crash). Resultado, fiz 2.5 milhões em alguns meses. O jogo em si enervou-me. Cheguei à 1ª divisão, a elite, depois vim por aí abaixo. Enerva-me a falta de realismo, os cruzamentos são OP (over powered), marca-se muito golo de canto e a cruzar e a estratégia da pressão alta e agressividade a 100% é OP também.

O curioso é que há profissionais disto, que fazem trading com várias contas, e sites, não oficiais, que compram e vendem moedas. A EA Sports, apesar de tentar banir este tipo de práctica, é culpada por criar este sistema hiper-capitalista em que sem dinheiro, não há equipa de jeito e avistar um Ronaldo por exemplo, é uma raridade. Posso dizer que em 4 meses a jogar Fifa muito regularmente, não vi uma só equipa com o Ronaldo, de tão raro que é. Ou seja, criaram um mercado com bens demasiado raros e com preços exorbitantes e que levam a uma “febre” de lotaria. A EA Sports ganha infinitamente mais da venda de carterinhas virtuais de jogadores do que com o jogo FIFA 14 propriamente dito. Eu saí do barco a tempo, porque daqui por uns meses, com o FIFA 15, as minhas moedas iriam valer zero. Quem me dera na vida real eu ser tão wall street wolf como na playstation!

pronto, agora escrevi imenso, deixo aqui mais uma música do morgan delt que queria dedicar a todos os adeptos do sporting, ente eles, o meu amigo Vareta que também é o Sporting.

o que são os amigos

Um dos meus melhores amigos, o Nuno, quando recebeu o link para o youtube do Barbarian Kings do Morgan Delt (que pus ali no post abaixo) por e-mail disse-me assim, o Nuno: “este som… é qualquer coisa de extraordinário”. É assim que se vêem os amigos. É meu amigo desde 1989 por causa destas e de outras coisas do género

De resto, ah, um artista de jeito é um que tem lá a cabeça dele e depois nós estranhamos e depois vamos entrando a pouco e pouco no esquema, um bocado como os Mr Bungle ou a chubi (nome de código para a minha filha) quando entra no balde / banheira e primeiro faz  a careta do “fosgass pai isto está-me a queimar os refegos” para logo evoluir para um “aahhhh isto é que é vida…” e relaxe da pequena massa corporal refegosa da chubi no meio da espuma hipo alergénética testada em guaxinins fofos. É assim. É isto, a arte. Vocês… vocês são é de superfície. É a camada, a crosta, o esmalte. Se o embrulho não é adocicado, qual cápsula sacarósica de medicamento amargo, cospem. Impacientes, sempre.

Não tenho aliados.

As portas fecham-se. Estou quase a fazer 37 anos e em crise dos 40 desde os 16.

reis bárbaros

morgan-delt1

It never went any further with the bands you were in?

Nah, just you know jam with some friends. Maybe play a party or two and then get into an argument about something dumb and break up. I’m not so great about working with other people.I’m kind of a control freak. I like working alone. I pretty much just stay in my studio all the time and don’t go out much. I’m kind of a hermit that way.

Do you believe in god?

No.

Morgan Delt – Barbarian Kings

o meu instinto

Como o meu conhecimento das coisas em geral é normalmente limitado e genérico, movo a minha opinião sobre economia muito pela arte da intuição e do instinto, essas emanações dos processos de subconsciente que andam cá por dentro enquanto durmo ou jogo consola. E não me safo mal. Avisei a minha mãe da crise em 2007, disse-lhe para comprar títulos de ouro e acertei. Teria sido óptimo se ela tivesse seguido os meus conselhos. Ou se eu tivesse sido um pouco mais assertivo. Bom, já o escrevi antes: chegámos a um momento em que o regresso aos mercados, ou seja, à possibilidade de nos endividarmos, é celebrado como se fosse um sucesso, um objectivo, em detrimento da redução da dívida propriamente dita, privada ou pública e ainda mais em detrimento de conquistas estruturais ou estratégicas, tão difíceis de quantificar. O meu instinto desconfia que isto de precisar de dinheiro emprestado e depois a gente logo vê o que faz quando for preciso pagar as prestações do país, não é bom.

O problema não exclusivo de Portugal. Não quero ser daquelas pessoas que só dizem mal do país e nunca dizem bem. Em Portugal isto foi muito visível para a geração que viveu a transição do escudo para o euro. Se uma família era composta de activos e os pais poupavam para dar aos filhos e assim sucessivamente, hoje o balanço de uma família de classe média terá muitas vezes avultados créditos de longo prazo e é irreal pensar que um casal pode juntar tostões durante uns anos para comprar um T2 num sítio decente. Isto não é dizer mal, sem dúvida que o 2º modelo criou mais conforto e nível de vida, mas talvez precise de um ajuste. Agora para dizer bem: é preciso reforçar que temos excelentes vinhos, somos grandes exportadores de cortiça e a onda da nazaré é enorme, uma das maiores do mundo.

As taxas de juro baixas penalizam a poupança e instigam o crédito, o consumo e opções como a bolsa que está a atingir novos recordes nos EUA e UK, a níveis de 2007. Claros sinais de bolha, uma vez que a economia real pouco ou nada cresceu desde então, diz-me o instinto, pelo contrário, pelo que não existe um motivo real para tanto entusiasmo, mas sim um fluxo de capital para um sítio aparentemente mais rentável, até alguém se lembrar de mexer nas taxas de juro e chegar à bolha com um alfinete.

Parece pois condição necessária ao funcionamento eficaz da economia que exista um fornecimento de dinheiro a custo baixo, uma existência de crédito permanente. Diz-me o meu subconsciente que o sistema financeiro é uma espécie de lubrificante para um motor envelhecido e pouco competitivo e que um dia gripa.

É preciso cash today para garantir as conquistas do amanhã ou então, caso europeu, é preciso cash now para garantir as conquistas de ontem. É bom ver que há pessoas cujos instintos lhes dizem que é possível existir verdadeira democracia e soberania quando um país não consegue criar os recursos suficientes para ser aquele país.  É preciso fé no futuro do país para achar que empréstimos de milhares de milhões vão ser fáceis de pagar na próxima década quando agora não temos dinheiro para pagar ao Fernando Tordo para ele poder cantar feliz na gaiola de Portugal. Eu não consigo ser tão optimista. Invejo-os e acho que a humanidade precisa de pessoas assim, optimistas e visionárias.

O meu instinto diz-me que a actual crise ficou abaixo das expectativas. Esperava mais, está desiludido, um pouco como quando vejo corridas de F1 com chuva e não há desastres. O meu instinto desconfia que uma crise do euro se possa resolver apenas porque se atirou dinheiro para cima dela ou se disse que se ia atirar dinheiro para cima dela. Aquilo dos Eurobonds para o Seguro poder manter a RTP, também me parece arriscado. Acordo em sobressalto com o facto do investimento estratégico da reserva federal americana se focar em toner para impressoras de dinheiro.

As minhas capacidades de medium espírita, dizem-me que está inerente à humanidade atrasar as más notícias. Somos mortais e com sorte tudo continua bem até continuar bem, depois logo se vê. Se eu errar na minha previsão de fim do euro (que ainda mantenho, fielmente, desde 2008) então ainda bem. Não estava à espera era de um ameaço de III Guerra Mundial agora, diz que isso também faz mal às bolsas. Mas não se preocupem e durmam bem. Recomendo um queijinho da serra. Temos queijos e vinhos que são uma maravilha. E o queijo e os vinhos são coisas que, quando são bem feitas, demoram tempo a curar ou fermentar. Não dá para fazer queijo a crédito, isso seria chegar ao pé de uma ovelha a pastar e gritar-lhe “dá-me queijo já”. Elas dão leite. O leite depois é que dá queijo. E o vinho a martelo dá ressaca. Pensem nisto.

lambechop

Pelos vistos relançaram o Nixon (2000) dos Lambchop. Os Lambchop fazem parte de um meu passado com que convivo como se tivesse feito parte de uma lista do Miguel Relvas numa juventude social democrata aos 20 anos. Os Lambchop estão para mim como os The National estarão para a geração nascida nos anos 80 quando esta crescer e ganhar juízo. E naquela altura eu gastava dinheiro em discos e tudo. O amor era caro e demonstrava-se com euros. Ainda hoje os Lambchop gozam de elevado estatuto crítico. O editor senior da slate escreve:

Lambchop has been called “arguably the most consistently brilliant and unique American group to emerge during the 1990s.” Their music combines “classic country, R&B, and musique concrète with the heavily conceptual impulses of modern art,” and they have just put out their 11th studio album (to go along with compilations, EPs, and live recordings).

Não sei que drogas fumou, mas desconfio que nesta tal revista Slate há um gerador aleatório de resumos de bandas que foram a mais consistentemente brilhante e única dos anos [inserir época]. Em boa verdade, eles não são “maus”, se o objectivo for legalizar a eutanásia. Mesmo assim, existem algumas faixas boas, como a Grumpus do Nixon ou esta, que era e ainda é a minha preferida, a The Man Who Love Beer, até porque gosto bastante de cerveja, mais do que de música.