dominicus athleta

O Dominicus Athleta é uma espécie de hominídeo, normalmente do sexo masculino, que se desloca a correr ou de bicicleta de btt ao domingo. Pode ser visto em grandes concentrações na zona de Belém – Docas e na reserva do Parque das Nações, sempre aos domingos de manhã, se o tempo não estiver nem muito frio, nem muito chuvoso, nem muito quente, nem muito ventoso. Apesar de preferir climas amenos, esta espécie investe fortemente em equipamento de protecção sofisticado para desempenhar os seus rituais desportivos, pois parece que apanha resfriados com facilidade. Assim, é comum vermos dominicus athletas com gorros, luvas, casacos em gore-tex, bodys de licra, impermeáveis fluorescentes, protecções no pescoço, mascaras de ski e outros abafos, mesmo com temperaturas na ordem dos 18º.  Um apetrecho essencial é o iPhone na bolsinha de plástico no braço, pois o dominicus athleta gosta de ir a ouvir música que confira uma atmosfera épica ao acto de correr cinco quilómetros a fazer slalom por entre turistas ou ao arriscado btt no empedrado do parque das nações.  Alguns depilam as pernas para aumentar o aerodinamismo. Outros escolhem com cuidado um tipo de equipamento com um corte que permita a exibição de tatuagens tribais nos gémeos ou no antebraço. O importante é deslocar-se depressa nestas pequenas faixas da beira rio, com uma passada de canguru elástico ideal para fazer um triplo salto e assim ultrapassar outros corredores, especialmente do sexo feminino, que se arrastem por ali. De referir que equipamentos como o gorro ou o blusão de gore-tex funcionam como termostatos, pois avisam o dominicus athleta que está a entrar em sobre-aquecimento e nunca o deixam exagerar.

cowboys

Toda a situação da Ucrânia parecia relativamente normal  dentro da anormalidade da situação de ter neonazis à mistura com jovens estudantes de bom aspecto a fazer videos I am Ukraine à porrada com polícias de governos pró-putin enfim. O normal, naquelas bandas. Tudo normal, até à deposição de Youkanovitch antes das eleições. Quando os ministros dos negócios estrangeiros da Alemanha e França chegaram a um compromisso para eleições antecipadas, parecia tudo encaminhado, com tensão, mas dentro de um percurso possível para ambas as partes. Youkanovitch, um corrupto da pior espécie, saía de cena. O novo governo tentava conciliação de partes e a negociação era entre os ucranianos. No espaço de 24 horas correu um salto lógico que me escapou. Pensei que a culpa tivesse sido da minha pouca atenção aos media, que algo tivesse acontecido num espaço de 24 horas, algo de muito relevante (descobriam fotos satélites de armas químicas por exemplo), que justificasse que a oposição rejeitasse o acordo e fizesse um golpe de estado antes das eleições.

Os EUA levaram a deles adiante e a EU, como de costume, assobiou para o lado. Se a conversa telefónica da Assistant Secretary of State Victoria Nuland com o Geoffrey Pyatt, o embaixador americano na Ucrânia vai parar ao youtube e a Nuland diz “fuck the EU” porque a União Europeia não parecia tão entusiasmada em criar um conflito aberto com a Rússia, bom, isto dá algumas luzes sobre o nível de ponderação por aqueles lados. Não entendo como os EUA alguma vez sonharam que a Ucrânia poderia ser um país estrangeiro à Rússia e mesmo hostil, é o mesmo que o Benfica tentar fazer um centro de estágio em Vila Nova de Gaia e esperar que os atletas possam ter sossego.

Enfim. Às vezes penso que podiam abrir uma vaga para mim, como conselheiro do Obama. Ele é porreiro. Eu gosto de jazz, de basket, de rap, a gente dava-se bem. Não entendo como depois do desastre Iraque, e depois de um historial extenso de governos fantoches e líderes depostos, uma coisa destas continua a ser possível.

Se ao menos pudesse detectar uma sombra de calculismo e eficácia, uma relação de custo benefício entre actos e resultados, podia acusá-los de serem cínicos, frios e imperialistas… mas eficazes. Chego a pensar que o Truman, quando largou a bomba atómica em Hiroshima e Nagazaki, não fez uma jogada de mestre em termos geopolíticos e que garante, ainda hoje, que não haja conflitos nucleares em larga escala, mas que o fez porque achou mesmo que era o correcto do ponto de vista moral. Não. Exceptuando a indústria do armamento, o ramo militar, ou outros lobbies que me estejam a escapar agora (seguradoras de acidentes em viagem?),não consigo entender qualquer espécie de benefício geoestratégico nisto. Não consigo entender como num momento em que têm graves problemas orçamentais e ainda se estão a tentar desenvencilhar do Iraque e Afeganistão, depois de enterrar boa parte do PIB e desgaste político, procuraram agora abrir outra frente, logo contra a Rússia e contra o touro bravo Putin que anda de cavalo em tronco nu e toma banho em sangue de veado. Pelas amostras na Geórgia ou Chechénia ou como é capaz de maltratar aquela gira das Pussy Riot, parece-me que  não é própriamente um tipo sensível.

Às vezes tenho medo que o problema seja mais grave. Eles podem estar genuinamente convencidos da própria retórica. Isto é, quando juram pela bíblia, em vez daquilo ser uma encenação, acreditam mesmo na bíblia, o que é muito pior, não sei se me faço explicar.

morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

Não vou à bola com boa parte da cultura brasileira, é um preconceito enraizado que vem do que cá importamos de lá, as novelas, o pimba, as novelas, o bicho, as iurds, o dirceu, as evangélicas, o espalhafato, o popularucho, a sociedade de extremos de riqueza e pobreza, etc. Mas admito que é um preconceito e que me foi encasquetado em casa, onde havia uma brasileirofobia muito por culpa das novelas que dominavam o primetime nos anos 80 e do que nos rodeava. E da minha mãe ser de esquerda intelectual. Mas esta música,  vénia, vénia

post da corrida de domingo

Este domingo corri 30.5km. Campo Grande, Telheiras, Benfica, Monsanto, Miraflores, Algés, Alcântara, Alvito, Amoreiras, Pq Eduardo VII, jardim da Gulbenkian, Campo Grande. Foi muito bonito, só tive pena de não conseguir correr os 500 metros que me faltavam para chegar a casa. Gostava de poder dizer que na Maratona de Madrid o apoio do público e o contexto me vão dar uma força extra para fazer mais 11 ou 12km e chegar aos 42, mas tendo em conta os meus tempos, quando eu chegar aos 30km, já os espanhóis foram comer tapas e já há varredores a limpar o lixo nas ruas e a arrumar barreiras. Sobrará apenas um incentivo, o mais poderoso de todos: salvar a face.