o Porto

Queria já amanhã dar uma corrida pelo Porto, ver tudo de uma vez. Para mim correr é como abraçar a terra que se pisa. Eu vi Lisboa de outra maneira que nunca tinha visto e agora queria ver o Porto assim mas as dores nos… A JÚLIA ADORMECEU!!!! desculpem, porra, mas há 2 horas que ela está às cambalhotas no berço e agora assentou numa posição lateral com as pernas encarpadas e a cabeça enfiada entre os dois braços amarrados a um cobertor enrodilhado… :’) bom, onde é que eu ia? who cares… aquelas pernocas! Acho que vou fazer o mesmo.

nascidos para correr

Gostei muito do “Nascidos para Correr” de Christopher McDougall e consigo perceber porque, para além de ser um best seller mundial há vários anos, teve um impacto cultural fortíssimo, sendo em parte culpado pela moda da corrida ter explodido. A minha namorada, que não morre de amores pela corrida, pegou nele por acaso, leu algumas páginas e não o largou mais. O livro, baseado numa história real, traça o perfil dos índios mexicanos Tarahumara, um povo semi-neolitico que vive escondido e isolado na mortífera e misteriosa Sierra Madre e que faz corridas de centenas de quilómetros, aparentando ter poderes sobrenaturais. Todos correm, crianças, mulheres, velhos, homens… Passam a vida a correr. Os Tarahumara são tímidos, calmos e felizes. Na véspera das corridas apanham bebedeiras descomunais com uma cerveja caseira e no espaço de poucas horas cometem todas as loucuras possíveis. No outro dia acordam e são eles outra vez, tímidos e educados e culpam a cerveja pelos actos da noite passada que são assim esquecidos e relativizados. São o povo mais pacífico do mundo. Não têm dinheiro, trocam cerveja e ajudas mútuas, favores. São tão tímidos que quando se quer visitar um Tarahumara, não se bate à porta da cabana, devemos deixar-nos ficar sentados longe dela, mas à vista, assim como quem não quer a coisa, a olhar para o lado e se eles tiverem vontade de nos receber, então chamam-nos para dentro. Caçam animais pelo simples cansaço, podem perseguir um veado até ele desmaiar de exaustão. Pelo meio, aparecem alguns dos melhores ultra-maratonistas como Scott Jurek e as respectivas epopeias. Aqui Scott com o Arnulfo, o melhor corredor Tarahumara.
Scott-with-Tarahumara

 

ok

estava aqui a tentar escrever uma coisa épica quando ouvi “chap chap chap chap…. chap chap chap…. chap chap chap chap”… agora está a bater palminhas e a olhar para mim. detecto ironia.

uau, consigo mexer-me

Ver a Júlia a adormecer nesta fase dos 8 meses é um pouco como assistir a um combate com um polvo invisível até à exaustão de ambos. Calhou estar agora num hotel, a tomar conta dela, enquanto a mãe tem um espetáculo em cena aqui no Porto e por isso estamos na mesma sala. Em casa costumo deixá-la no quarto sossegada e fecho a porta. Aqui estamos no mesmo quarto e assisto a esta luta greco-romana enquanto escrevo isto. No espaço de poucos dias, apareceram-lhe os dentes, começou a gatinhar, a balbuciar sem parar… Isto mete-lhe a cabeça em curto-circuito. Tantas novas possibilidades! É frequente ela adormecer esticada numa vénia como uma muçulmana a rezar virada para Meca, os braçinhos esticados em direção ao coelho do chapéu, um registo, um instantâneo do último momento acordada antes da bateria chegar aos 0%.

madrid que bien resistes

Faço desde já um aviso prévio: este texto contém linguagem grosseira e abusiva. Agora que captei a vossa atenção, quero anunciar que fiz a puta da maratona em 3 horas, 58 minutos e 26 segundos. E que o meu pensamento recorrente nos últimos 10km foi um grande e enorme DESISTE a escorrer vermelho sangue, gritado pelo meu corpo todo, por todas as suas moléculas e átomos. À minha volta eles caíam que nem tordos. Os últimos 8 km foram uma longa subida da qual só recordo ténis e asfalto, pois evitava olhar em frente e ver aquela merda que NUNCA mais acabava. Quando passei a meta, cambaleei, deram-me uma medalha que me pesou uma tonelada no pescoço, um saquinho com merdas para comer e beber, agarrei 2 garrafas de água e comecei a cambalear em direção a sombras que não havia. Por todo lado, pessoal esticado no chão, com esgares de dor. Eu vim no “pelotão das 4 horas”, vinha rodeado de pessoas que meteram na cabeça bater as 4. Há um pelotão das 3:30, 3:00, 4:30 etc. Desistir de tentar chegar ao jardim, não conseguia andar mais, umas dores absurdas nos pés, nos tornozelos, nas canelas, da merda do impacto das intermináveis descidas a pique. Fiquei no chão entre 2 caixotes do lixo e 4 corredores zombie, ao pé de um gradeamento onde familiares e amigos dos corredores, do outro lado, aguardavam pelos seus. Não conseguia abrir a tampa da garrafa de água. Uma mão ajudou-me, deu-me uma palmada no ombro. Bebi a garrafa. Depois uma de isotónica. Depois, bebi a outra. Tentei comer, não conseguia. Deitei-me de costas e vi as folhas dos plátanos contra o céu azul e chorei um bocadinho. Depois levantei-me e fui a andar e passado um bocado chorei mais uma vez, mas tudo bem, tinha os óculos escuros de correr próprios para isso. Estendi-me na relva. Levantei-me outra vez, estava com frio, apesar do sol glorioso. Corri mais de 42km em menos de 4 horas, mas demorei quase uma hora a conseguir fazer os 2.2km a andar até ao hotel. O parque, lindo, cheio de sol e pessoas. Chorei mais um bocadinho. Nos últimos 5km sei que uma coisa qualquer se partiu na minha cabeça e já nem sabia quem é que eu era. Estava muito feliz. Vi crianças e chorei mais um bocadito, lembrei-me da minha filha. Ena pá, um maratonista fica lamechas. O desafio era muito grande, mas duas coisas correram mal e surpreenderam-me pela negativa. A primeira foi começar a perceber que o meu relógio estava a ser optimista demais nos quilómetros que registava. Eu passava pela marca dos 7km e ele mostrava-me 7km e 200 metros. Eu ia atrás das duas lebres oficiais das 4 horas que tinham uns enormes balões azuis a dizer “4 HORAS” e, apesar do meu relógio dizer que supostamente eu já ia 1 ou 2 minutos à frente do ritmo alvo para as 4 horas, sempre a 5:20-5:30 por km, abaixo dos 5:41 alvo, eu continuava a ver os cabrões dos balões azuis a afastar-se no horizonte. Impossível. Ou eles iam depressa demais (e cheguei a chamá-los de filhos da puta irresponsáveis várias vezes na minha cabeça) ou então eu não ia tão depressa como pensava. Ao quilómetro 10 convenci-me do erro do meu gps. Tinha de seguir os balões azuis e mais nada. Eu sabia que eles tinham partido na meta e eu tinha passado pela mesma 1 minuto e pouco depois e só a partir daí contava o meu tempo de chip. Ou seja, sabia que se estivesse encostado a eles, mesmo que 30 metros atrás, eu batia as 4 horas por um minuto pelo menos. Mas aqui entra o problema número 2. As puta madre das subidas desta puta madre coño de cidade. Foram 400 metros de elevação total, para se ter uma ideia, são 100 metros a mais que Monsanto. É o mesmo que ir do rio tejo ao saldanha umas 3x e tal. Aqui não se batem recordes do mundo. Quem pensa “ah, mas depois das subidas podes descer mais rápido”. Era bom, se não fosse o facto das descidas se fazerem rápido serem antecedidas de subidas onde o nosso ritmo cardíaco ameaça disparar se tentarmos seguir um filho da puta de balão azul com 4 horas marcado e se na descida não quisermos recuperar da subida anterior até levarmos com a próxima logo a seguir. Tentei mentalizar-me que tinha corrido muito em subida, que os meus treinos envolveram várias vezes a Calçada de Carriche, Monsanto, subir e descer até ao rio, se eu tivesse treinado 100% em plano e à beira do Tejo, estava fodido logo no plano psicológico aos 20km. Assim foi só aos 30km. Eu tinha dito para comigo que podia desistir de tentar as 4 horas se visse que não dava e relaxar o ritmo e ser uma pessoa feliz. O problema é que não dava e quanto mais próximo da meta, mais eu percebi que não dava para abrandar. Abrandar seria desistir logo ali. Seria impossível, já não tinha retorno se cedesse nem que fosse 1 só um bocadinho ao bom senso, o bom senso tomaria conta de mim e eu saía da pista. Tentei pensar no que disse o Murakami, que uma vez a correr imaginou que era um robot e que ele não tinha sentimentos, era uma máquina e conseguiu superar a dor. Tentei um pouco, não consegui e com isto decidi nunca comprar um livro do Murakami e ainda o chamei de filho de puta e até foi alto e bom som. O espanhol ao meu lado pensou que eu estava a criticar o percurso, a subida e disse algo como joder, puta madre também para eu me sentir bem. Então como consegui? Bem ajudou ter um gajo vestido de vaca ao meu lado uns 10km. Não foi uma alucinação, ele ia com um fato completo de vaca, incluindo cabeça e cornos. Uma aposta perdida? Nunca o saberei. O certo se ele não morreu de golpe de calor, até ia bem e se ele ia bem vestido de vaca, quem sou eu para me queixar? Também vi um punk vestido com um spandex de padrão chita. Mas esse ficou para trás. Penso que foi pelo apoio do público. Epá, eu nunca vi nada assim. Foi uma loucura o tempo praticamente todo, público a aplaudir, a gritar, a incentivar, por vezes tínhamos de passar em zonas com estrada mais estreita e as pessoas comprimiam-se para nos gritar “campeones!” e “sois muy guapos chicos!” e “falta poco, estay quase”, se bem que para o fim este “falta pouco” começou a ser retribuído pela minha mente com um “falta pouco o caralho”. Também havia bandas rock de xis em xis km a tocar rock bem alto até ao km 25 em que se lembraram de meter uns paneleiros com violencelo e gitarrinhas a tocar baladas e eu estive para lhes atirar com um pacote de gel energético. O malta ali queria era rock, foda-se. Depois voltou ao rock normal, mas começou a fazer demasiado calor e as bandas foram-se embora porque é sabido que o pessoal do rock se transforma em cinza se apanhar sol. Por falar em gel, durante a prova comi os meus 8 geis, mais 2 da organização, um deles com sabor a vómito: era salgado e ácido. Pensei ” se vomitar fico mais leve!” e comi-o, mas não vomitei. Copos de powerade, bananas… de acordo com o relógio e o monitor cardíaco, perdi 4200 calorias. Também perdi sal. Fiquei com a cara branca de sal seco e não era o único. Ao tomar banho o sal dissolveu-se e escorreu-se-me até às virilhas onde me avisou que estas estavam extremamente assadas. Uma pessoa pensa que o sofrimento acaba na meta, mas não. E por falar em meta, quando ainda faltava 1km eu pensei que aquela meta era a última e não, não era. Como imaginam, foi uma situação difícil de gerir. Depois vi outra e pensei que fosse essa. Mas não, não era. Os cabrões dos espanhóis meteram umas 4 ou 5 metas no último km, suponho que cada uma a simbolizar 200m e a cada uma eu pensava “FODASSE ESTA MERDA NUNCA MAIS ACABA ARRRRGHGHHHHH!” Foi estranho, a certa altura tenho a certeza que entrei num transe maluco. Se no início tive aquele stress com o relógio e as lebres dos balões das 4 horas, depressa entrei em modo prazer e a coisa estava mesmo a correr bem até quase aos 30km, senti-me eufórico, feliz, Madrid que bien resistes, linda, as pessoas simpáticas aos gritos, crianças a darem hi-5 aos corredores, crianças que eu ignorei até os 30km mas que depois dali para frente até retribuí ou um ou outro hi-5 porque fiquei supersticioso e achei que me podiam dar bom karma. Óbvio que se soubesse o que sei hoje, não me tinha inscrito nisto, nem na ultra de setembro. A bem dizer, acho que nunca mais corria maratonas. Eu não recomendo a ninguém a não ser que seja por prazer, para terminar num ritmo confortável. Mas quando ia para casa, a arrastar-me ,com a minha medalha, em direção ao hotel, passei pelo percurso e vi pessoas que ainda tentavam completar a maratona. Algumas a andar, subidas acima, alguns idosos, algumas mulheres… já não havia quase ninguém a apoiar, já se tinham passado mais de 5 horas. E eu claro, tive vontade de chorar, eles não desistiam.

inveja

Ao ver um documentário sobre a censura no fascismo, sinto inveja daqueles homens e mulheres que dele foram vítimas mas que viveram a época: escritores, poetas, jornalistas, políticos, advogados. Eram miúdos naquele tempo, universitários, idealistas, inconformados. Que tomates que eles tiveram. Tinham um mundo a preto e branco, ideais e inimigos evidentes porque eram os inimigos que lhes iam bater à porta, aparecer no trabalho, na redação, porque vivam num paíshipócrita e bafiento e tinham noção de que existia um mundo exterior e um país que precisava de ser salvo. Hoje, as elites não são reprimidas, hoje em dia ganham bem ou emigram, dizem o que lhes apetece (excepto na Madeira?), não é uma prioridade preocuparem-se com a questão política ativa. Hoje é tudo forçado. A escritora Alexandra Lucas Coelho, por exemplo, fez um discurso muito crítico a este governo quando recebeu um prémio, um discurso emotivo, lamechas, as artes que não têm dinheiro, o povo, o país que sofre, o governo que mata a cultura etc. e o secretário de estado que lá estava disse que o que ela fez foi primário e ela contou isto numa crónica como se tivesse sido espancada no Tarrafal. Mas não foi, os livros continuam aí, ela continua aí e conseguiu um belo golpe publicitário, mesmo que (acredito sinceramente) não fosse essa a sua intenção. Hoje em dia é preciso forçar muito a barra para ser um mártir, para simular o que viveram aos nossos pais no pré-25. Há como que uma histeria. Uma pessoa que ganhe um salário jeitoso tem algum motivo de indignação especial quando pode ter blogues, twitters, comentários de jornais e não levar uma pide em cima? É irrelevante. Até o Pacheco Pereira, que viveu e sofreu a censura, tem escrito as críticas mais violentas a este governo em particular. Alguém o cala ou ameaça, mata e cobre de cal? As elites em Portugal não têm qualquer incentivo a intervir ou a formar novos partidos. Mesmo os do passado, assistem de longe, não se metem, opinam, têm negócios ou colunas de opinião. Os partidos esvaziaram-se das elites e não tiveram sucessores, os Relvas daninhas cresceram, floresceram.

já enjoa

O 25 de Abril. Todos os anos o ritual está cada vez mais ridículo. A encenação na AR, o Cavaco de trombas, cheio de desprezo por dentro e formalidade constrangida por fora, os velhotes saudosos, há sempre um capitão desiludido a escrever uma pieguice qualquer partilhada nas redes sociais por jovens indignados (já vou a estes), o inefável Alegre a debitar poesia. Mas tudo isto eu compreendo. O 25 de Abril quando sentido por quem o viveu, é uma coisa que arrepia. É enorme. No funeral do meu pai, ex-companheiros oficiais do exército. Ouviu-se Zeca Afonso. É uma coisa que não se consegue explicar. Eu vejo-o como um dia sentimental, uma enorme aventura. O início da liberdade que se funde na memória de tantos portugueses com a mesma força emocional própria das recordações de juventude, de quando eram jovens e tinham o mundo na mão. Mas o pior é o “ideal de Abril” na boca de jovens em 2014, a bitola utópica, o ideal vintage e retro que, quem mais o defende e apregoa, levou e leva no focinho constantemente nas eleições democráticas e livres, mesmo agora, mesmo num contexto em que o “inimigo” falhou, em que vivemos numa ‘doença do capitalismo’, num contexto de crise, sobre-endividamento, quando ocorrem bailouts a bancos com dinheiro de contribuintes, quando a democracia e a liberdade estão subjugadas ao que os investidores estrangeiros podem pensar de nós, quando um manifesto pelo perdão da dívida (inevitável) é criticado por poder arreliar investidores, quando todo o espaço democrático ficou sufocado por indicadores financeiros, quando nos tornámos um país de serviços e destruímos agricultura e indústria. E este espaço, válido, alternativo, está deserto. Há uma abstenção esmagadora e, nos poucos que votam, a extrema esquerda anda por uns míseros 10%. Como é possível? Eles não se enxergam, nem sequer aceitam, cheios de azia, desprezam os eleitores com frases como “votam sempre nos mesmos, depois não se queixem” ou “para ir para o Marquês festejar futebol vão, mas para lutar contra o FMI ficam em casa”. E lá vão eles com o ’25 de Abril Sempre’ na boca, emocionados. A revolução deles. Em quem íamos votar? Neles? Uns não têm liberdade no próprio partido (PCP) e são o partido comunista mais ortodoxo da europa, outros não se conseguem entender por causa de detalhes obscuros de filiação ideológica (Bloco) e o tachinho lá dentro, apesar de se fazerem modernos. Ambos têm o discurso pontuado por bonecos, símbolos: o grande papão americano, o belezebu fmi, a malvada da merkl. E não se dão um com o outro quando seriam, em teoria, irmãos unidos pelo mesmo propósito. Até nas manifestações se vê isto, não se misturam uns com os outros, como se fossem claques de futebol opostas. E querem falar-nos da “terra da fraternidade”, esta gente que tem medo de inventar algo novo e que faça sentido hoje, amanhã. Para quê votar no passado quando o que preocupa os portugueses é o amanhã? Mas continuem. Continuem a celebrar a institucionalização da revolução.