o casulo

Visito-o todos os dias. O Júlio de Matos é bonito por fora, os jardins são calmos se omitirmos o detalhe de passar um avião a baixa altitude de cinco em cinco minutos. Não se pode dizer o mesmo do interior dos edifícios dos anos 40. O tempo parece ter parado no pavilhão 21, apesar de alguns detalhes como o sistema de abertura de portas que reconhece a impressão digital dos colaboradores. A porta parece ter duas décadas, está empenada e faltam bocados dos reforços de contraplacado. A campainha a que temos de tocar para chamar um auxiliar que nos abra a porta ecoa de forma estridente e lembra uma escola. O mobiliário minimalista também: cadeiras e uma mesa lascada parecem saídas de uma sala de aula remodelada. Tudo aqui parecem sobras e restos de outros edifícios do estado. Espero pacientemente, foram chamá-lo e depois do almoço costuma ter sono. O auxiliar de bigode cinzento e de bata azul clara é um tipo mal encarado, rude, tanto está ali como podia estar num matadouro. Deixam-me entrar. A porta abre e volta a fechar-se atrás de mim, duas voltas à chave. Vislumbro numa sala de enfermaria dois enfermeiros a organizar tabuleiros de comprimidos, lendo longas listas com receitas.

A figura dele vem diferente todos os dias. A roupa é distribuída num carrinho depois do duche, onde está amontoada num sortido e eles escolhem. Um dia aparece-me de calças de fato de treino xxl e polo vermelho, no outro com calças de flanela pelas canelas e uma camisa azul às riscas estranhamente formal. Interrogo-me como foi ali parar. Conversamos durante duas horas normalmente, sentados numas cadeiras de sala de espera de hospital. Preciso de fazer chichi. A única casa de banho é dentro das zona dos quartos, também ela fechada à chave. Um auxiliar abre-me a porta e fecha-a atrás de mim. São agora duas as portas fechadas à chave. O edifício está disposto em semi-círculo em torno de um pequeno pátio lúgubre com meia dúzia de cadeiras de plástico corroídas e um chapéu de sol verde e ferrugento. Uma paciente, uma preta de roupão e chinelos, apanha o sol que pode na nesga de luz que ainda resta, pois o pátio é estreito e está cercado pelo edifício. A casa de banho dos homens está marcada no corredor com pegadas azuis no chão, a das mulheres com pegadas cor e rosa. Passo pela sala de convívio. Estão a ver televisão. Todos parecem adormecidos, sedados. O meu amigo, perfeitamente consciente disto tudo, brinca comigo: “agora estás cá dentro, também não te deixam sair” e ri-se. Confesso que me senti um pouco nervoso quando a auxiliar que me tinha aberto a porta desapareceu. Finalmente apareceu outro e deixou-me sair.

Já no corredor, e depois de lancharmos iogurte com bolacha maria, pegou no iPad que um familiar lhe trouxe para visita. Queria-me mostrar uma música de que gostava muito. Ficámos sentados no corredor a ouvir.

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