inveja

Ao ver um documentário sobre a censura no fascismo, sinto inveja daqueles homens e mulheres que dele foram vítimas mas que viveram a época: escritores, poetas, jornalistas, políticos, advogados. Eram miúdos naquele tempo, universitários, idealistas, inconformados. Que tomates que eles tiveram. Tinham um mundo a preto e branco, ideais e inimigos evidentes porque eram os inimigos que lhes iam bater à porta, aparecer no trabalho, na redação, porque vivam num paíshipócrita e bafiento e tinham noção de que existia um mundo exterior e um país que precisava de ser salvo. Hoje, as elites não são reprimidas, hoje em dia ganham bem ou emigram, dizem o que lhes apetece (excepto na Madeira?), não é uma prioridade preocuparem-se com a questão política ativa. Hoje é tudo forçado. A escritora Alexandra Lucas Coelho, por exemplo, fez um discurso muito crítico a este governo quando recebeu um prémio, um discurso emotivo, lamechas, as artes que não têm dinheiro, o povo, o país que sofre, o governo que mata a cultura etc. e o secretário de estado que lá estava disse que o que ela fez foi primário e ela contou isto numa crónica como se tivesse sido espancada no Tarrafal. Mas não foi, os livros continuam aí, ela continua aí e conseguiu um belo golpe publicitário, mesmo que (acredito sinceramente) não fosse essa a sua intenção. Hoje em dia é preciso forçar muito a barra para ser um mártir, para simular o que viveram aos nossos pais no pré-25. Há como que uma histeria. Uma pessoa que ganhe um salário jeitoso tem algum motivo de indignação especial quando pode ter blogues, twitters, comentários de jornais e não levar uma pide em cima? É irrelevante. Até o Pacheco Pereira, que viveu e sofreu a censura, tem escrito as críticas mais violentas a este governo em particular. Alguém o cala ou ameaça, mata e cobre de cal? As elites em Portugal não têm qualquer incentivo a intervir ou a formar novos partidos. Mesmo os do passado, assistem de longe, não se metem, opinam, têm negócios ou colunas de opinião. Os partidos esvaziaram-se das elites e não tiveram sucessores, os Relvas daninhas cresceram, floresceram.

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