já enjoa

O 25 de Abril. Todos os anos o ritual está cada vez mais ridículo. A encenação na AR, o Cavaco de trombas, cheio de desprezo por dentro e formalidade constrangida por fora, os velhotes saudosos, há sempre um capitão desiludido a escrever uma pieguice qualquer partilhada nas redes sociais por jovens indignados (já vou a estes), o inefável Alegre a debitar poesia. Mas tudo isto eu compreendo. O 25 de Abril quando sentido por quem o viveu, é uma coisa que arrepia. É enorme. No funeral do meu pai, ex-companheiros oficiais do exército. Ouviu-se Zeca Afonso. É uma coisa que não se consegue explicar. Eu vejo-o como um dia sentimental, uma enorme aventura. O início da liberdade que se funde na memória de tantos portugueses com a mesma força emocional própria das recordações de juventude, de quando eram jovens e tinham o mundo na mão. Mas o pior é o “ideal de Abril” na boca de jovens em 2014, a bitola utópica, o ideal vintage e retro que, quem mais o defende e apregoa, levou e leva no focinho constantemente nas eleições democráticas e livres, mesmo agora, mesmo num contexto em que o “inimigo” falhou, em que vivemos numa ‘doença do capitalismo’, num contexto de crise, sobre-endividamento, quando ocorrem bailouts a bancos com dinheiro de contribuintes, quando a democracia e a liberdade estão subjugadas ao que os investidores estrangeiros podem pensar de nós, quando um manifesto pelo perdão da dívida (inevitável) é criticado por poder arreliar investidores, quando todo o espaço democrático ficou sufocado por indicadores financeiros, quando nos tornámos um país de serviços e destruímos agricultura e indústria. E este espaço, válido, alternativo, está deserto. Há uma abstenção esmagadora e, nos poucos que votam, a extrema esquerda anda por uns míseros 10%. Como é possível? Eles não se enxergam, nem sequer aceitam, cheios de azia, desprezam os eleitores com frases como “votam sempre nos mesmos, depois não se queixem” ou “para ir para o Marquês festejar futebol vão, mas para lutar contra o FMI ficam em casa”. E lá vão eles com o ’25 de Abril Sempre’ na boca, emocionados. A revolução deles. Em quem íamos votar? Neles? Uns não têm liberdade no próprio partido (PCP) e são o partido comunista mais ortodoxo da europa, outros não se conseguem entender por causa de detalhes obscuros de filiação ideológica (Bloco) e o tachinho lá dentro, apesar de se fazerem modernos. Ambos têm o discurso pontuado por bonecos, símbolos: o grande papão americano, o belezebu fmi, a malvada da merkl. E não se dão um com o outro quando seriam, em teoria, irmãos unidos pelo mesmo propósito. Até nas manifestações se vê isto, não se misturam uns com os outros, como se fossem claques de futebol opostas. E querem falar-nos da “terra da fraternidade”, esta gente que tem medo de inventar algo novo e que faça sentido hoje, amanhã. Para quê votar no passado quando o que preocupa os portugueses é o amanhã? Mas continuem. Continuem a celebrar a institucionalização da revolução.

Anúncios

5 thoughts on “já enjoa

  1. Abril foi dos militares que pretendiam “nem mais um soldado para o ultramar”. A muitos deles, subiu.lhes o poder à cabeça e acabaram tão ditadores como os que os precederam … o COPCON foi inenarrável.. eu sei, por experiência própria. Só vilania, amoralidade e tachos.
    Sem dúvida que houve homens bons e com ideais de democracia e liberdade. O Salgueiro Maia por exemplo, que deu corpo à revolta e morreu na miséria, porque nunca quis poder, só justiça.
    O 25 de Abril é mais um feriado no calendário, porque após 40 anos voltámos ao “estado a que chegámos”…
    Beijos aos 3

  2. Bem, o tom do post, curiosamente, assemelha-se ao objecto de crítica. O escriba indigna-se veementemente contra os indignados, não por estar contra eles mas, quiçá, por não lhe compreender os métodos. Depois comete deslizes: «Uns não têm liberdade no próprio partido (PCP) e são o partido comunista mais ortodoxo da europa, outros não se conseguem entender por causa de detalhes obscuros de filiação ideológica (Bloco) e o tachinho lá dentro, apesar de se fazerem modernos.» Pela parte que me toca (PCP), sou muito bem tratado e, até ver, ninguém me meteu o dedo no nariz. Mas importa sublinhar algo que o post, demasiado intuitivo, ignora: é na esquerda que está a diversidade, a divergência, o debate. Uni-la seria catastrófico, pois resvalaríamos para os falsos consensos que fazem das decisões “irrevogáveis” da direita a chacota de todos nós. O problema, pois, não será a diversidade, pelo menos não tanto quanto a incapacidade de quem, revendo-se nas grandes causas das esquerdas, as que são transversais, não é sequer capaz de levantar o cu do conforto e partir para a luta, seja lá na companhia de quem for. Começarem por votar já não seria mau, aplicarem as suas energias mais na denúncia das políticas de direita e seus males do que na desacreditação das esquerdas seria um segundo passo interessante… O resto viria por acrescento, pois, afinal, o que é preciso as pessoas entenderem, todas, é o que verdadeiramente está em causa: querem um Estado mínimo ou um Estado social? Querem igualdade de oportunidades numa escola pública generalista e num serviço nacional de saúde competente ou preferem meter os filhos em colégios privados, pagando-os “lordemente”, e parir em clínicas privadas, pagando-as “lordemente”. E acham que todos os cidadãos têm direito a ser bem tratados ou não se incomodam com a humilhação dos mais pobres e desfavorecidos? E julgam que os mais pobres o são porque não querem trabalhar para ser ricos ou acreditam que a pobreza não é inata nem congénita? Lutamos para uma sociedade mais justa, onde a corrupção seja devidamente combatida, a riqueza distribuída com equidade, a justiça realmente cega, ou deixamos o futuro dos nossos filhos entregue ao acaso e à selvajaria dos interesses gananciosos dos mercados, da especulação, de banqueiros intocáveis e escritórios de advogados oportunistas? Enfim, dúvidas que me assolam e incomodam mais do que o ideal de Abril na boca dos jovens em 2014.

  3. Só mais uma coisa. Tenho ouvido muito isto: «voltámos ao “estado a que chegámos”». Será que quem diz isto acredita mesmo no que está a dizer? Será que têm noção do que éramos aquando do 25 de Abril? Não é necessário ter vivido em ditadura para perceber o que era a ditadura (os livros, os vídeos, os jornais, documentos imensos ajudam a percebê-lo). Basta, enfim, olhar para a casa em que vivemos e colocar esta questão: quantas pessoas antes do 25 de Abril não tinham uma casa com os confortos mínimos que esta tem? Quantas não sabiam sequer assinar o próprio nome? Quantas nunca tinham visto o mar no seu próprio país? Quantas começaram a trabalhar aos 10 anos sem terem sequer um par de sapatos para calçar? Quantas nunca tiveram um médico? Basta folhear o boletim cultural de Lisboa para entender, enfim, que não voltámos ao estado a que chegámos. O que estamos a viver, neste momento, é um terrível retrocesso, daí a importância de sermos justos nas análises. Porque não é, só para dar um exemplo, chamando Hitler a quem cospe para o chão que fazemos perceber quem foi, de facto, Hitler. Não podemos banalizar o mal se o pretendemos combater. Banalizado, torna-se cómodo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s