aquecimento

Cheguei a este texto de Henrique Raposo em que o mesmo desmistifica o aquecimento global e etc. por este texto do DAvid MArçal De Rerum Natura. Antes de mais, quero deixar claro que não sei o que significa De Rerum Natura e não vou fingir que sim. Em segundo lugar, ao contrário de David Marçal, uma pessoa de esquerda e por isso boa pessoa, ao contrário das más pessoas que não são de esquerda ou que festejam futebol, o texto de Henrique Raposo surpreendeu-me, porque eu aprendi a gostar dele. Mas aqui temos um David Marçal que tem razão, o que é sempre preocupante para ordem das coisas. O Henrique Raposo sabe que o “aquecimento global” é uma bandeira de uma esquerda ecologista com que antipatiza por muitos e válidos motivos que partilhamos. E vai daí, zuca de enfrentar o cornos do touro, não importa como. No fim acaba por escrever um texto que não é muito diferente do raciocínio de algumas gentes de aldeia que dizem coisas como “hoje as pessoas vivem menos tempo do que viviam há 50 anos em que a comida era mais saudável”. Enfim. Uma pessoa tem de saber escolher as discussões em que se quer meter. O meu manifesto problema com uma suposta direita liberal (existe isso em Portugal?) prende-se com isto, uma aparente “brutidão” quando reagem ao que são bandeiras de um campo historicamente oposto, por reflexo. Que se discutam medidas, a validade de leis, limites, etc. tudo bem, mas faz sentido que um gajo ser de esquerda ou direita influencie a sua opinião sobre o aquecimento global? É necessário ser assim tão previsível? Haverá um direitas liberal que se mostre sensível ao aquecimento global? Um tipo de esquerda não industrial-sindical que se mostre indiferente às focas?

quanto mais experientes a gente estejamos, mais conhecimento tamos…

…melhor também estamos. Por isso, estou inscrito no DUT – Douro Ultra Trail na distância de 70 quilómetros e 4500m de desnível positivo a percorrer em menos de 16 horas de tempo limite. Não, não foi um acidente, um erro informático, um deslize do botão do rato ou algo do género, foi mesmo uma decisão intencional. Estou apenas repetir o padrão que me levou à maratona.

Também me inscrevi na maratona de madrid poucos dias antes de correr a meia. É um truque para me comprometer com um objectivo que me vai parecer impossível quando cruzar a meta da maratona exausto e a colapsar, como me sucedeu quando completei a meia maratona e amaldiçoei a ideia de me ter inscrito na maratona. Ou seja, antecipo-me ao bom senso e à realidade, antes que esta me meta juízo na cabeça. Reconheço que é aparentemente cedo e que tenho pouca experiência e que daqui até Setembro parece pouco tempo para treinar, mas também ouvi o mesmo quando me inscrevi na maratona e me mediram a febre. É uma questão de experiência. Citando o grande mister:

As pessoas às vezes parguntam-me, e o que é isso, experiência? Experiência é co-nhe-ci-men-to. Conhecimento.

Ora bem, os não-corredores muitas vezes manifestam uma grande falta de experiência nisto da corrida, logo, de conhecimento. É comum um não-corredor ficar impressionado com distâncias, mas tempos de prova são uma coisa mais abstracta. Não sabe que para uma pessoa podia ser muito mais difícil e ambicioso correr os 10km na casa dos 35 minutos do que completar uma maratona a correr com calma em 5 horas ou que o ritmo de uma Meia Maratona é apenas um pouquinho mais rápido que o ritmo de uma Maratona. O não-corredor também fica muito surpreendido ao perceber que não se correm maratonas para treinar maratonas e que o mesmo princípio se aplica numa ultra-maratona. Há mesmo um corredor de ultra-maratonas grego, de elite, o Yiannis Kouros, que muito raramente corre mais de 12km de uma vez e que vence provas de 160 km.

Bom, dito isto, onde é que eu ia… ah. Ah pois. Não me fartei das corridas de 10km, de 21km ou de 42km. E sobretudo, não me quero fartar. A ideia de treinar de novo para uma maratona e tentar bater um tempo, não me é tão apelativa agora. Esta é mais apelativa e sei que gosto mais de correr muito tempo do que pouco tempo (custa-me muito treinar só 30 minutos lentos por exemplo, não dá para ir a lado nenhum, anda-se às voltas ao parque, contam-se os minutos). Vamos ver se aguento a carga. Se aguentar, estamos bem. Se me lesionar, paciência, fico com a certeza que não consigo. A maior dificuldade vai mesmo ser o tempo disponível. O sacrifício não é só meu, é da minha namorada também. Vou ter de acordar de madrugada mais vezes para poder encaixar os treinos. E ser criativo. Vou muitas vezes a andar para o trabalho, são 5km, demoro uma hora. Mesmo a ir buscar a miúda à creche, posso correr 1km, vestido normalmente. Acho piada ao pessoal que passa a vida parado no sofá ou no escritório e só concebe o esforço físico dentro do contexto de um ginásio. Tudo, até pegar num bebé e levantá-lo no ar para cheirar-lhe o rabo a ver se se cagou pode ser um exercício de pilates por exemplo, se repetirmos o gesto algumas vezes para confirmar que não.

o casulo

Visito-o todos os dias. O Júlio de Matos é bonito por fora, os jardins são calmos se omitirmos o detalhe de passar um avião a baixa altitude de cinco em cinco minutos. Não se pode dizer o mesmo do interior dos edifícios dos anos 40. O tempo parece ter parado no pavilhão 21, apesar de alguns detalhes como o sistema de abertura de portas que reconhece a impressão digital dos colaboradores. A porta parece ter duas décadas, está empenada e faltam bocados dos reforços de contraplacado. A campainha a que temos de tocar para chamar um auxiliar que nos abra a porta ecoa de forma estridente e lembra uma escola. O mobiliário minimalista também: cadeiras e uma mesa lascada parecem saídas de uma sala de aula remodelada. Tudo aqui parecem sobras e restos de outros edifícios do estado. Espero pacientemente, foram chamá-lo e depois do almoço costuma ter sono. O auxiliar de bigode cinzento e de bata azul clara é um tipo mal encarado, rude, tanto está ali como podia estar num matadouro. Deixam-me entrar. A porta abre e volta a fechar-se atrás de mim, duas voltas à chave. Vislumbro numa sala de enfermaria dois enfermeiros a organizar tabuleiros de comprimidos, lendo longas listas com receitas.

A figura dele vem diferente todos os dias. A roupa é distribuída num carrinho depois do duche, onde está amontoada num sortido e eles escolhem. Um dia aparece-me de calças de fato de treino xxl e polo vermelho, no outro com calças de flanela pelas canelas e uma camisa azul às riscas estranhamente formal. Interrogo-me como foi ali parar. Conversamos durante duas horas normalmente, sentados numas cadeiras de sala de espera de hospital. Preciso de fazer chichi. A única casa de banho é dentro das zona dos quartos, também ela fechada à chave. Um auxiliar abre-me a porta e fecha-a atrás de mim. São agora duas as portas fechadas à chave. O edifício está disposto em semi-círculo em torno de um pequeno pátio lúgubre com meia dúzia de cadeiras de plástico corroídas e um chapéu de sol verde e ferrugento. Uma paciente, uma preta de roupão e chinelos, apanha o sol que pode na nesga de luz que ainda resta, pois o pátio é estreito e está cercado pelo edifício. A casa de banho dos homens está marcada no corredor com pegadas azuis no chão, a das mulheres com pegadas cor e rosa. Passo pela sala de convívio. Estão a ver televisão. Todos parecem adormecidos, sedados. O meu amigo, perfeitamente consciente disto tudo, brinca comigo: “agora estás cá dentro, também não te deixam sair” e ri-se. Confesso que me senti um pouco nervoso quando a auxiliar que me tinha aberto a porta desapareceu. Finalmente apareceu outro e deixou-me sair.

Já no corredor, e depois de lancharmos iogurte com bolacha maria, pegou no iPad que um familiar lhe trouxe para visita. Queria-me mostrar uma música de que gostava muito. Ficámos sentados no corredor a ouvir.

noé

Não me apanham a ver.

You can’t help but feel a little bad for Aronofsky – Paramount wanted him to make a $150-million movie because they think that’s the only kind of movie they can make money on these days, and he would prefer to make movies as opposed to not make movies, so here he is surrounded by more money than he knows what to do with, making a movie that feels more and more like “Transformers” or “Waterworld” than it does a depiction of a central story in the Judeo-Christian faith. Aronofsky uses many of his standby visual motifs here – repetition and quick cuts, hallucinatory visions – but his version of creation itself, late in the film, feels like a bored science teacher pressing fast-forward on a nature documentary shot by Terrence Malick. W.H. Auden cautioned against those who “read the Bible for its prose,” but after “Noah,” perhaps the better warning is to look out for those people who read the Bible for its potentially profitable widescreen IMAX action scenes.  aqui

estratégia para a maratona

Hoje de manhã, ainda de noite, bati o meu recorde dos 5K (22:58) por mais de um minuto. Continuo sem ter a certeza sobre como abordar a maratona de Madrid, dia 27 de Abril. Gostava de fazer abaixo das 4 horas, mas parece difícil. A julgar pelos meus treinos, o realista seriam 4 horas e 15, talvez 4 horas e 20, mas todos os race predictors bons – e que nunca me falharam antes – dizem que eu consigo correr a maratona abaixo das 4 horas. Considerando o meu tempo dos 5K de hoje um deles diz:
10K
47:53
Half Marathon
1:45:39
Marathon
3:40:17

Considerando uma estimativa conservadora do tempo que eu conseguia na meia maratona (1 hora e 50)
Marathon
3:49:21

Estes ‘previsores’ bateram sempre certo comigo até agora, mesmo que as suas previsões chocassem com o que eu adivinhava pelos treinos em distâncias parecidas por parecerem sempre demasiado optimistas. Isto põ em evidência o factor mental do dia da corrida, de como a envolvência, a adrenalina, a motivação extra, nos leva a um estado impossível de recriar em treino, um estado muito mais tolerante a sofrimento.  Contudo, estes previsores partem do princípio que uma pessoa está confortável com a distância. Na maratona entra uma variável nova – a distância muito longa. Tão longa que nunca a corri em treino (o máximo foram 35.5km). O meu limite nos treinos longos tem sido quase sempre energético e não de acumulação de ácido láctico, ou seja, não aguento mais porque fico cada vez mais fraco, embora a respiração ou coração se mantenham normais. É como se tivesse uma quebra de tensão. Contudo,  treinei long runs lentos sempre em jejum matinal e apenas com 1 abastecimento a meio, para forçar esse limite, esvaziar-me de energia, estimular o meu metabolismo a usar a gordura e a ter maiores reservas de glicogénio. Na Maratona conto comer um bom pequeno almoço 2 a 3 horas antes e quanto a gel de energia, vou levar uns 8 ou 10, dependendo do que servem nos abastecimentos. Portanto, levo a artilharia toda.

O meu plano, para já, será correr ao ritmo necessário para as 4 horas desde o início (5:40 min /km) e aguentar assim até… até dar. Caso comece a patinar e nem mesmo o gel energético me mantenha à tona, o objectivo é não ficar desanimado e conseguir corrigir o ritmo para algo mais lento, mas que me permita apreciar e terminar a corrida de forma feliz, de bracinhos no ar, satisfeito por ter completado a distância. Um dos aspectos negativos de ir “no limite”, nos tais 5:40 ou menos, é que no fim a minha recordação da corrida, especialmente das últimas 2 horas, será um borrão de dor indistinto.

a mudança

Um bebé não evolui de modo contínuo e imperceptível, como o ponteiro das horas de um relógio, mas sim com saltos discretos bem visíveis. Um dia adormece sem nunca ter feito uma coisa, no outro dia acorda a fazer essa coisa como se tivesse sido reprogramado durante a noite com um novo firmware versão 1.24 que lhe dá a instrução de fazer aquilo sem parar. O “aquilo” pode ser dizer uma palavra nova, virar-se, rir-se às gargalhadas, contemplar as próprias mãos ou deitar a língua de fora. Cada coisa nova é um brinquedo novo. A Júlia agora mexe-se. Vira-se, gatinha, rasteja, volta-se, reviravolta-se. É frequente encontrá-la a chorar nas posições mais inusitadas, acrobáticas, e contorcionistas, a meio da noite. Os pés de fora da cama de grades, por cima dos cobertores, no topo da cama com a cabeça para baixo, a 90º para a direita, a 90º para a esquerda, embrulhada no edredon, abraçada ao coelho do chapéu, no fundo da cama enrolada sobre si mesma, embrulhada como crepe chinés no cobertor, com os dois braços de fora das grades e uma perna para cima a fazer uma tenda com o lençol, tudo é possível. Ela mexe-se, agora. Há uma semana não fazia isto. Aqui há dias, pela primeira vez, senti uma coisa nova: um abraço. Uma consciência de “eu”. A cabeça dela encostou-se-me aqui ao peito, quando a segurava ao colo. Não como os recém-nascidos para quem é instintivo p,rocurar esse conforto e, aliás, nem seguram bem a cabeça sem encosto, mas sim como algo intencional. Ela encostou, bracinhos à volta do pescoço e relaxou. Ouvi a respiração dela (estava a deitá-la) a ficar progressivamente mais ritmada, lenta e profunda. O cheirinho do seu cabelo, por onde passava os dedos, a fazer-lhe festinhas.

Foi fixe.

tumble in the wind

jackson1

Frank’s self-titled album, recorded with occasional second guitar from Paul Simon and Al Stewart, came out on Columbia but barely sold.
(…)
Jackson Frank was a lot more highly thought of on the scene than Paul Simon was. But Paul Simon rose to fame and prominence and Jackson Frank just dropped into oblivion.
(…)
Frank had married Elaine Sedgwick, a former model, and they had a son and a daughter. After the boy died of cystic fibrosis and the marriage failed, Frank went into a deep depression and was hospitalised.

(…)
Frank had left Woodstock for New York, in search of Paul Simon, who Frank believed owned his publishing and had suppressed his songs; he ended up living on the streets for years. There was one final indignation – some kids with an air rifle took a potshot at the homeless Frank and blinded him in one eye – before a happy ending of sorts, when Frank was tracked down by a fan called Jim Abbott.
(…)
Abbott phoned Frank, and then organized a temporary placement for him at a senior citizens’ home in Woodstock. Abbott was stunned by what he saw when he traveled to New York to visit Frank.
(…)
“When I went down I hadn’t seen a picture of him, except for his album cover. Then, he was thin and young. When I went to see him, there was this heavy guy hobbling down the street, and I thought, ‘That can’t possibly be him’…I just stopped and said ‘Jackson?’ and it was him. My impression was, ‘Oh my God’, it was almost like the elephant man or something. He was so unkempt, disheveled.” A further side effect of the fire was a thyroid malfunction causing him to put on weight. “He had nothing. It was really sad. We went and had lunch and went back to his room. It almost made me cry, because here was a fifty-year-old man, and all he had to his name was a beat-up old suitcase and a broken pair of glasses. I guess his caseworker had given him a $10 guitar, but it wouldn’t stay in tune. It was one of those hot summer days. He tried to play Blues Run The Game for me, but his voice was pretty much shot.”

Frank died of pneumonia and cardiac arrest in Great Barrington, Massachusetts on March 3, 1999, at the age of 56.

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Isabel Monteiro

Quando Manuel Forjaz faleceu, tomei conhecimento da sua existência devido a diversos posts de homenagem no facebook, uma vez que nunca tinha visto o programa de televisão que mantinha. Ao que parece, era um empresário de sucesso e um orador inspirador e era nessa qualidade que tinha um programa de televisão. Viveu uma vida em pleno. Como o próprio disse aqui: «Nunca precisei de fazer uma lista das coisas que gostava de fazer antes de morrer, porque já as tinha feito todas. Quis dar uma volta ao mundo, dei. Quis dar uma volta à Europa, dei. Quis um Ferrari, saltar das pontes, de aviões, ir ao fundo do oceano Pacífico. Tudo o que era para fazer, fiz. No fim, quando era para fazer a lista, não restava nada.»

A morte é dramática, conheço de perto o quão difícil é perder alguém para o cancro, mas também conheço de perto o deixar empresas falidas para trás, reabrir novas, deixando um rasto de trabalhadores sem salários. Pode ser apenas um detalhe na carreira da Manuel Forjaz, uma nota de rodapé, mas é bom perceber de onde vem (nem que seja uma pequena parte) o dinheiro que permitiu a Manuel Forjaz viver a vida em pleno.

A minha namorada (e mãe da minha filha) vive uma situação parecida. Ela e centenas de colaboradores de uma empresa de dobragens “falida”, a Dialectus,  com cerca de 250 mil euros de salários nunca pagos, dirigida pela senhora Isabel Monteiro, também empresária da Ideias & Letras.  Rumores dizem que o filho abriu  outra empresa no mesmo ramo, a Digimedia. Foram feitas promessas aos trabalhadores e estes, procurando ajudar a salvar a empresa e tentar receber o dinheiro mais tarde, trabalharam sem receber, meses a fio. A senhora Isabel Monteiro, pelo menos nas aparências, vive uma vida materialmente bastante confortável.

Pensava, na minha ingenuidade, que este tipo de coisas era próprio das empresas do vale do ave nos anos 80 em que se abriam e fechavam empresas, com um rasto de dívidas a trabalhadores. Os telejornais mostravam as reportagens ciclicamente, os trabalhadores, normalmente mulheres, à porta de uma fábrica que um belo dia, de repente, tinha a porta fechada para nunca mais abrir. Também não faltavam Ferraris na região.

Julgaria que os danos de reputação, em 2014, tornassem impossível a prática deste tipo de actividade, especialmente em sectores tão sofisticados como os media, mesmo que devidamente enquadradas e legais. As sociedades podem ter responsabilidade limitada. Uma empresa pode ser declarada insolvente e nunca pagar créditos que deixou, nomeadamente, aos “prestadores de serviços” que são trabalhadores a recibos. Um empresário pode colocar empresas e bens em nome de familiares e geri-los ou usufruir deles ele próprio o que, não sendo ético, tem eventualmente sustentação legal, desde que se tenha bons advogados e contabilistas.

O que me parece pouco justificável é o arrastar da situação: os meses e meses sem pagar salários, jogando com as expectativas dos próprios colaboradores que, se aguentarem mais um pouco, recebem. Negócios que correm mal, é legítimo. Dívidas, por pagar, é legítimo em caso de insolvências. Mas qualquer gestor sabe, olhando para as contas, que aquela empresa está condenada, irá falir e os trabalhadores não vão receber o dinheiro, pelo menos, no limite, nos meses que antecedem a falência. São trabalhadores com sonhos de vida mais modestos que sabem que se saírem, se forem hostis, se forem os primeiros a dar o passo de ruptura, podem não receber nada da grande quantia que têm para receber, uma quantia que se foi acumulando e da qual recebem umas prestações de vez em quando para gestão das suas expectativas.

A primeira dificuldade que alguém deveria ter depois de fazer isto uma vez, deixando trabalhadores e fornecedores sem receber, seria em recrutar novos trabalhadores, obter novos créditos e confiança e sobreviver à péssima reputação. Pelo caso de Manuel Forjaz, dá para ver que não foi assim. Pelo caso de Isabel Monteiro, também. Uma nota destas, numa figura pública ou conhecida num meio complexo, seria impensável noutro país, noutra sociedade, muito mais exigente com os critérios éticos e de transparência. Qualquer empresário com visibilidade pagaria do próprio bolso, se fosse preciso, salários em atraso, seria uma despesa mínima comparada com o custo do dano de reputação de uma reportagem como aquela da SIC ou de uma manifestação como a dos trabalhadores da Dialectus. Pelos vistos, ainda vivemos no Vale do Ave e nos anos 80 em muitas coisas. Asseguro que a dívida de milhares de euros à minha namorada não a vai impedir de cumprir os seus sonhos de vida, mas podiam ajudar-nos a pagar contas, creche, o arranjo do carro, quem sabe, umas férias e tudo.

 

*udpate: Fonte do sindicato afirmou hoje à Lusa que esta é a quarta empresa de Isabel Monteiro, na área da tradução e dobragem, que abre falência e que há processos judiciais referentes a empresas antigas pendentes há pelo menos dez anos.

Estamos conversados.
*mudei o título do post, é o mais relevante