criança mimada

« McIntosh attributed the syndrome to “the failure of parents to enforce consistent, age-appropriate limits”» – wikipedia, a propósito do síndrome da criança mimada. Deixo aqui a informação para os outros pais e futuros pais. E deixo aqui uns retratos do Kim Jong-un, uma pessoa cujos pais também nunca repreenderam quando berrava e corria pelo McDonalds de Alvalade a tentar roubar as batatas de uma pessoa que lá estivesse sossegada a comer e a tentar ler.

kim_jong_un

trendy folks with yachts

Para me motivar instalei uma aplicação android no smartphone chamada Time to Quit Smoke, igual a tantas outras. Metemos a data em que deixámos, quanto custa um maço, quantos fumamos por dia e ele vai dizendo quanto poupamos e mostrando barrinhas de % etapas de fim do vício. Esta tem o lado errm… especial de… de ter citações que surgem quando passamos certos marcos de dias sem fumar. As citações, em inglês, levam-me a crer que a aplicação original é de origem japonesa, coreana ou indiana, tendo sido depois traduzida para engrish. Exemplos reais:

2 days: Hi! I Am Helium! My atomic number is two! Let’s quit smoking! Two days! Your number is two! My number is two! Two Days! Atomic number! Helium! (2[He])

3 days: On the third day of experiments, samples of my incandescent bulbs glowed brighter not cigarette embers. This analogy as led to the destruction of all samples (Thomas Edison)

14 days: Babe! We have not smoking for two weeks for the health! And all this time, baby, saved the money. Save money? Aha! This sense of freedom is sweet and juicy. I fell in love in health and life. U-oo-oo-oo-oo-y. (trendy folks with yachts)

20 days: there are two things in a girl and they must be beautifull expression of eyes and lips because she makes love with a glance and lips to prove thatshe does notsmoke (Marilyn Monroe)

aquecimento

Cheguei a este texto de Henrique Raposo em que o mesmo desmistifica o aquecimento global e etc. por este texto do DAvid MArçal De Rerum Natura. Antes de mais, quero deixar claro que não sei o que significa De Rerum Natura e não vou fingir que sim. Em segundo lugar, ao contrário de David Marçal, uma pessoa de esquerda e por isso boa pessoa, ao contrário das más pessoas que não são de esquerda ou que festejam futebol, o texto de Henrique Raposo surpreendeu-me, porque eu aprendi a gostar dele. Mas aqui temos um David Marçal que tem razão, o que é sempre preocupante para ordem das coisas. O Henrique Raposo sabe que o “aquecimento global” é uma bandeira de uma esquerda ecologista com que antipatiza por muitos e válidos motivos que partilhamos. E vai daí, zuca de enfrentar o cornos do touro, não importa como. No fim acaba por escrever um texto que não é muito diferente do raciocínio de algumas gentes de aldeia que dizem coisas como “hoje as pessoas vivem menos tempo do que viviam há 50 anos em que a comida era mais saudável”. Enfim. Uma pessoa tem de saber escolher as discussões em que se quer meter. O meu manifesto problema com uma suposta direita liberal (existe isso em Portugal?) prende-se com isto, uma aparente “brutidão” quando reagem ao que são bandeiras de um campo historicamente oposto, por reflexo. Que se discutam medidas, a validade de leis, limites, etc. tudo bem, mas faz sentido que um gajo ser de esquerda ou direita influencie a sua opinião sobre o aquecimento global? É necessário ser assim tão previsível? Haverá um direitas liberal que se mostre sensível ao aquecimento global? Um tipo de esquerda não industrial-sindical que se mostre indiferente às focas?

quanto mais experientes a gente estejamos, mais conhecimento tamos…

…melhor também estamos. Por isso, estou inscrito no DUT – Douro Ultra Trail na distância de 70 quilómetros e 4500m de desnível positivo a percorrer em menos de 16 horas de tempo limite. Não, não foi um acidente, um erro informático, um deslize do botão do rato ou algo do género, foi mesmo uma decisão intencional. Estou apenas repetir o padrão que me levou à maratona.

Também me inscrevi na maratona de madrid poucos dias antes de correr a meia. É um truque para me comprometer com um objectivo que me vai parecer impossível quando cruzar a meta da maratona exausto e a colapsar, como me sucedeu quando completei a meia maratona e amaldiçoei a ideia de me ter inscrito na maratona. Ou seja, antecipo-me ao bom senso e à realidade, antes que esta me meta juízo na cabeça. Reconheço que é aparentemente cedo e que tenho pouca experiência e que daqui até Setembro parece pouco tempo para treinar, mas também ouvi o mesmo quando me inscrevi na maratona e me mediram a febre. É uma questão de experiência. Citando o grande mister:

As pessoas às vezes parguntam-me, e o que é isso, experiência? Experiência é co-nhe-ci-men-to. Conhecimento.

Ora bem, os não-corredores muitas vezes manifestam uma grande falta de experiência nisto da corrida, logo, de conhecimento. É comum um não-corredor ficar impressionado com distâncias, mas tempos de prova são uma coisa mais abstracta. Não sabe que para uma pessoa podia ser muito mais difícil e ambicioso correr os 10km na casa dos 35 minutos do que completar uma maratona a correr com calma em 5 horas ou que o ritmo de uma Meia Maratona é apenas um pouquinho mais rápido que o ritmo de uma Maratona. O não-corredor também fica muito surpreendido ao perceber que não se correm maratonas para treinar maratonas e que o mesmo princípio se aplica numa ultra-maratona. Há mesmo um corredor de ultra-maratonas grego, de elite, o Yiannis Kouros, que muito raramente corre mais de 12km de uma vez e que vence provas de 160 km.

Bom, dito isto, onde é que eu ia… ah. Ah pois. Não me fartei das corridas de 10km, de 21km ou de 42km. E sobretudo, não me quero fartar. A ideia de treinar de novo para uma maratona e tentar bater um tempo, não me é tão apelativa agora. Esta é mais apelativa e sei que gosto mais de correr muito tempo do que pouco tempo (custa-me muito treinar só 30 minutos lentos por exemplo, não dá para ir a lado nenhum, anda-se às voltas ao parque, contam-se os minutos). Vamos ver se aguento a carga. Se aguentar, estamos bem. Se me lesionar, paciência, fico com a certeza que não consigo. A maior dificuldade vai mesmo ser o tempo disponível. O sacrifício não é só meu, é da minha namorada também. Vou ter de acordar de madrugada mais vezes para poder encaixar os treinos. E ser criativo. Vou muitas vezes a andar para o trabalho, são 5km, demoro uma hora. Mesmo a ir buscar a miúda à creche, posso correr 1km, vestido normalmente. Acho piada ao pessoal que passa a vida parado no sofá ou no escritório e só concebe o esforço físico dentro do contexto de um ginásio. Tudo, até pegar num bebé e levantá-lo no ar para cheirar-lhe o rabo a ver se se cagou pode ser um exercício de pilates por exemplo, se repetirmos o gesto algumas vezes para confirmar que não.

o casulo

Visito-o todos os dias. O Júlio de Matos é bonito por fora, os jardins são calmos se omitirmos o detalhe de passar um avião a baixa altitude de cinco em cinco minutos. Não se pode dizer o mesmo do interior dos edifícios dos anos 40. O tempo parece ter parado no pavilhão 21, apesar de alguns detalhes como o sistema de abertura de portas que reconhece a impressão digital dos colaboradores. A porta parece ter duas décadas, está empenada e faltam bocados dos reforços de contraplacado. A campainha a que temos de tocar para chamar um auxiliar que nos abra a porta ecoa de forma estridente e lembra uma escola. O mobiliário minimalista também: cadeiras e uma mesa lascada parecem saídas de uma sala de aula remodelada. Tudo aqui parecem sobras e restos de outros edifícios do estado. Espero pacientemente, foram chamá-lo e depois do almoço costuma ter sono. O auxiliar de bigode cinzento e de bata azul clara é um tipo mal encarado, rude, tanto está ali como podia estar num matadouro. Deixam-me entrar. A porta abre e volta a fechar-se atrás de mim, duas voltas à chave. Vislumbro numa sala de enfermaria dois enfermeiros a organizar tabuleiros de comprimidos, lendo longas listas com receitas.

A figura dele vem diferente todos os dias. A roupa é distribuída num carrinho depois do duche, onde está amontoada num sortido e eles escolhem. Um dia aparece-me de calças de fato de treino xxl e polo vermelho, no outro com calças de flanela pelas canelas e uma camisa azul às riscas estranhamente formal. Interrogo-me como foi ali parar. Conversamos durante duas horas normalmente, sentados numas cadeiras de sala de espera de hospital. Preciso de fazer chichi. A única casa de banho é dentro das zona dos quartos, também ela fechada à chave. Um auxiliar abre-me a porta e fecha-a atrás de mim. São agora duas as portas fechadas à chave. O edifício está disposto em semi-círculo em torno de um pequeno pátio lúgubre com meia dúzia de cadeiras de plástico corroídas e um chapéu de sol verde e ferrugento. Uma paciente, uma preta de roupão e chinelos, apanha o sol que pode na nesga de luz que ainda resta, pois o pátio é estreito e está cercado pelo edifício. A casa de banho dos homens está marcada no corredor com pegadas azuis no chão, a das mulheres com pegadas cor e rosa. Passo pela sala de convívio. Estão a ver televisão. Todos parecem adormecidos, sedados. O meu amigo, perfeitamente consciente disto tudo, brinca comigo: “agora estás cá dentro, também não te deixam sair” e ri-se. Confesso que me senti um pouco nervoso quando a auxiliar que me tinha aberto a porta desapareceu. Finalmente apareceu outro e deixou-me sair.

Já no corredor, e depois de lancharmos iogurte com bolacha maria, pegou no iPad que um familiar lhe trouxe para visita. Queria-me mostrar uma música de que gostava muito. Ficámos sentados no corredor a ouvir.