marathon runners

Maratonistas nos primeiros jogos olímpicos modernos em Atenas, Grécia, 1896

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marinho pinto revisited

Chamaram-me a atenção (e ainda bem) para esta notícia: O bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, defendeu ontem no Parlamento que a violência doméstica não deveria ser crime público. Este modelo inviabiliza a desistência do processo ainda que a vítima assim o pretenda, argumentou o bastonário, pedindo que se deixe às vítimas o poder de acusar ou não.

Não quero ser o advogado do Diabo (haverá maior diabo do que o bastonário dos advogados?) até porque acho que deve ser crime público, para evitar qualquer forma de coacção sobre a vítima que a leve a retirar queixa. O Marinho também diz na mesma entrevista que «a “violência doméstica é uma chaga nacional”, mas referiu também que aquela que é exercida sobre as mulheres “não é hoje a pior violência doméstica” – essa é praticada em relação às crianças e aos idosos.», enfim. Há aqui muito motivo de sobra para não votar nele.

Quanto ao tema levantado pela Espiga nos comentários deste blogue, «a maior incongruência está relacionada com o facto de, apesar de nunca se lhe ter ouvido uma palavra em defesa da causa ambientalista, ser o cabeça de lista de um partido ecologista, o MPT. Salta à vista que é aproveitamento, tanto de uma parte como da outra. », bem, nem sequer entendo porque não criaram um partido novo como o Livre, até porque a base eleitoral do MPT era residual. Confesso que nunca entendi o MPT como ecologista, mas sim como representativo de um portugal rural e não me chocou o Marinho Pinto ser cabeça de lista deles, mas confesso também que nunca perdi tempo a ler programas eleitorais do MPT.

Isto não invalida, o meu ponto do post anterior, a diabolização do Marinho e Pinto como se fosse equiparável a Beppe Grillos ou Le Pens. O conservadorismo faz parte do ADN de partidos como o CDS e boa parte do PSD. Recordo que a coligação no poder avançou com o referendo sobre a adopção, que há uns anos Paulo Portas apontava canhões às Woman on Waves e que toda a “batalha” no parlamento pela legalização do aborto se travou entre partidos do centro (e mesmo dentro dos partidos, fracturando-os), que o BE tentou abordar o tema do piropo para ser terraplanado por muita cabeça bem pensante que considerou o tema idiota etc. Isto não está em franjas extremas. Portugal também é isto. Estes temas “morais” (termo que para mim designa coisas como pena de morte, tourada, aborto, casamento gay, adoção gay, eutanásia etc.) são relevantes no debate público português, talvez mais do que a ideia sobre o euro e no projecto europeu.

O PCP teve óptimos resultados nestas eleições. O PCP é, no leque de partidos portugueses, excluindo partidos de extrema direita, o que mais assenta o seu discurso no patriotismo, na soberania nacional. Até o CDS/PP perdeu este eixo quando Manuel Monteiro saiu. Está preto no branco nos cartazes, nos “por políticas patrióticas”, na diabolização de alemães, americanos, fmi, banca, fazendo juízos morais, usando livremente termos como “roubo” ou “ladrões”. Estiveram contra o euro, contra o processo de integração europeia, contra a globalização, contra um acordo com as instâncias europeias na crise (nem participaram nele). Posto isto, talvez por nos termos acostumado à sua ortodoxia imutável, estas posições não geram na elite progressista e urbana qualquer condenação de relevo. Desconfio que seja porque do ponto de vista da moralidade, dos tais temas que citei acima, na sociedade portuguesa, o PCP seja progressista e choque de frente com boa parte do conservadorismo moral português (representado pelos Marinho Pintos). Sintomático: quando o PCP se declarou contra a proibição de touradas, foi talvez um dos momentos quando foi mais criticado nos fóruns do facebook.

Marinho e Pinto

Por favor, elucidem-me. O estilo truculento, confere. Mas fora isso, apesar de investigar fazer ‘searches’ no google com termos com “Marinho Pinto declarações polémicas”  e de esgravatar a minha memória que só fixou aquele episódio com a Manuela Moura Guedes (em que ele esteve bem), francamente não encontro nada de especial. A homofobia que lhe é atribuída é por ter dito “um homem a fazer de mãe ou uma mulher a fazer de pai” não são uma família natural”? Eu, presumo que ao contrário do Marinho e Pinto, sou a favor do casamento e da adopção por parte de casais gay, mas isso não significa que me choque que alguém não considere uma família natural no que respeita aos sexos dos pais. E depois? Também não acho que ser vegan seja natural. Nem sequer acho que ser católico é “natural”. Natural para mim é venerar a Lua e o Sol e os deuses esquisitos que um xamã inventa sob influência de sumo de sapos psicadélicos antes de orgias gigantescas que envolvem toda a aldeia. Nem acho a Internet natural eu. Ou foi por ter dito “há pessoas que ocupam cargos de relevo no Estado português que cometem crimes impunemente” ou “há centenas ou milhares de pessoas presas [em Portugal] por terem sido mal defendidas”  ou “uma senhora que furtou um pó de arroz num supermercado foi detida e julgada. Furtar ou desviar centenas de milhões de euros de um banco ainda se vai ver se é crime” ou “pelos vistos, nenhum banco pode ir à falência” etc. etc. ? Admito que existam por aí as tais frases e as ideias chocantes e que eu desconheço (espero que não sejam só estas) mas desconfio que seja tudo uma questão de estilo. Em Portugal ocorre um fenómeno extraordinário: basta alguém romper, ainda que ligeiramente, com a cultura polida no discurso, para imediatamente levar o selo de populista, demagogo, protofascista… Não é preciso ser-se um Marinho e Pinto, já o escrevi a propósito de Medina Carreira que leva com isto desde que me lembro, uma espécie de desconsideração intelectual permanente por parecer um resmungão demagogo. Recordo de há vários anos, bem antes da crise, ele ter dito ao Mário Crespo que qualquer dia vinham os ‘senhores estrangeiros do FMI” tomar conta disto devido ao descalabro das contas públicas. Risos, o pessimista, o populista, o demagogo… Muito bem, cá estamos. Alguns, nas redes sociais, dizem que Marinho e Pinto é o “Beppe Grillo” português. A comparação não é descabida, embora a escala seja diferente: Beppe é um líder, situa-se à esquerda, faz discursos poderosos e é em certa medida um revolucionário. Parece assustador porque quando traçamos paralelos como passado, encontramos óbvias referências como Mussolini, que também não se considerava como parte de “um partido” e que tinha antes “um movimento”, que era “socialista” e protector dos oprimidos e pobres. Mas também existe porque a escala da decadência do sistema político italiano é mais extrema que a nossa. Em comum, exploram ambos o ressentimento. E penso que é uma coisa válida de se explorar. O ressentimento existe. E não toma apenas a forma que o PCP lhe dá ou que a outra extrema esquerda lhe quer dar. Vamos negar a sua expressão democrática e ao mesmo tempo queixar-nos que os portugueses ficam em casa ou votam sempre “nos mesmos”? Ou só dizemos “votam sempre nos mesmos” quando somos trucidados nas eleições?
De resto, tive pena do Livre não eleger um deputado. E agora, após o anúncio de que António Costa se vai candidatar à liderança do PS, uma música para o António José Seguro: