Sintra

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É difícil escrever sobre a Serra de Sintra sem despejar lugares comuns, mas como acho que a originalidade nunca deve ser forçada, não me importo. Estive perto de cinco horas sozinho a correr e a andar na Serra de Sintra, para fazer 30km. Para me orientar, tinha o relógio gps e segui um trilho que um experiente corredor fez. Fui seguindo o trilho à risca e sem isso não teria tirado tanto partido, pois a Serra de Sintra encerra muitos segredos, passagens secretas por trilhos a ligar caminhos, lagos no meio dos bosques, pedras que parecem templos, árvores com séculos, cobertas de musgo, que rangem e murmuram com o vento, conventos, santuários… É fácil perceber que Sintra atraia os místicos, os românticos, os botânicos, os satânicos… Quando ficamos encerrados num bosque, quase sem ver o céu, num trilho com a largura de uma pessoa, com os passos a pisar folhas e ramos com cuidado, os sentidos aguçam-se: a madeira estala, ouve-se um pássaro, um lagarto debaixo de folhagem seca, uma rajada sacode as copas das árvores e estamos sós, como um coelho perseguido encosta abaixo. Às vezes vemos sombras a moverem-se, pelo canto do olho. O trilho mandou-me saltar por cima de pelo menos quatro muros de pedra, como um assaltante. Vi-me em plena Mata do Convento dos Capuchos, depois de saltar um muro, ali, rodeado de velhos carvalhos. A mata pareceu-me estranha, antiga, carregada de fantasmas. Depois li que foi uma mata protegida pelos franciscanos do convento que a consideravam sagrada, enquanto à volta, a Serra sofreu vários incêndios e foi plantada ou pensada pelos românticos do século XIX (e pela indústria da pasta de papel na face sudoeste, no século XX, com os tenebrosos eucaliptos). Está explicado. Sintra muda, uma corrida aqui é tudo menos aborrecida. A cada novo monte ou curva, uma nova paisagem. O lado do mar, gelado e ventoso, o lado noroeste, húmido e escuro. Mesmo as nuvens cinzentas num dia azul que deslizavam a toda a velocidade direito a mim, pareciam esfumar-se ao passar para o lado sul! Cinco horas podem demorar uma eternidade a passar quando se está em esforço, mas nem dei pelo tempo, de tão absorvido e focado que estava em tudo. Esta corrida (e todas as que farei daqui até setembro) faz parte do plano de treinos para Douro Ultra Trail de 80km. Terminei estes 30km muito cansado, mas pelo menos confiante que do lado psicológico, tenho uma ajuda importante: a natureza distrai-me de mim próprio e de eventuais dores. O autor do livro de treino de ultras que leio (relentless forward progression, do Bryon Powell) diz que o que distingue um ultramaratonista de outro tipo de atletas não é proeza e capacidade física, ser masoquista, mais corajoso ou qualquer outra qualidade deste género (talvez teimoso seja importante, sim). Basta pensar em mim, que corro há menos de 1 ano e sou completamente mediano. É sobretudo uma sensibilidade diferente. Uma sensibilidade que fica encantada e em transe quando está neste tipo de coisas. Eu sinto-a, em grande parte porque cresci no campo num tempo sem consolas e internet e fui educado assim pela minha mãe e pelo meu pai que eram apaixonados da natureza. Recordo-me de acompanhar o meu pai em caçadas no alentejo, a vermos o sol nascer, a comer uma sandes ao pé do velho peugeot 504, à sombra de um sobreiro, os cães a arfar de cansaço e satisfação. Os tempos são outros, politicamente correctos e eu não caço a não ser com os olhos, mas o espírito é o mesmo, desde tempos imemoriais. Tenho a certeza de que isto que experimento não é nada mais do que os genes dos nossos antepassados a acordar da hibernação urbana.

 

E depois dos bosques cerrados, desembocar nisto, na Peninha!

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8 thoughts on “Sintra

  1. Estavas bem lançado para uma coisa competente e anódina mas lá deixaste cair uma granada: “Tenho a certeza de que isto que experimento não é nada mais do que os genes dos nossos antepassados a acordar da hibernação urbana.” Tens? De quais antepassados? Mais a mais, justificar opções com a narrativa da genética é uma coisa muito bonita: “Sabe, eu gosto mesmo é de me masturbar, e é genético porque já o Neanderthal…”.

    Quase parece que, num texto em que descreves uma experiência (quase) solitária, te dá ali uma travadinha final em que precisas de te agarrar a uma espécie de “safety in numbers”. Começas contigo, vais aos teus pais e depois à ‘legião’ de antepassados que, supões tu (e quem o prova?), galgaria quilómetros em passo estugado. E nem falo já desse remoque (mais um) sobre o politicamente correcto e a caça (ou vens tu dizer-me que os teus – recuso o ‘nossos’ – antepassados que terão corrido alegremente pelos campos se dedicavam à caça por prazer e desfastio?).

    Ainda mais que a tua (e bem o sabes), a minha família esteve literalmente enraízada no campo durante gerações – devo daí concluir que, pelo facto de não correr, foi o meu avô sapateiro que me roubou esse gene?…

    Vá, vai lá subir outra serra e vem cá abaixo contar mas com juízinho.

    1. Lê o Born to Run 🙂 há muitos estudos recentes e cada vez mais provas que apontam para que os nossos antepassados fossem um povo corredor e que até caçavam as presas levando-as à exaustão. Há algumas tribos africanas como os Massai que ainda apanhavam antílopes assim, ecolhiam um e perseguiam-no numa maratona de 4, 5 horas. Oh, foi só uma frase no fim, rais partam.

  2. Não te ponhas a anhar, rapaz. 🙂 Podes “estar convicto” de que andas para aí ‘deslargado a correr’ porque te está ‘na massa do sangue’, numa transmissão contínua desde o primeiro hominídeo via Massai e os meio-fundistas africanos, passando pelo Francisco Lázaro, até pulsar com veemência nas nobres veias dos Bray. Mas não podes “ter a certeza”. O que achei estranho foi isso: o quereres ter a certeza de que corres por determinação genética, isso no fim de um texto em que descrevias o prazer que sentiste. E já sabes que me pelo por uma boa extrapolaçãozinha… Vá, rais partam, escreve.

  3. Em frente ao Palácio de Monserrate, no mês passado, comecei a subir por ali acima a fazer a rodagem possível ás botas novas. Levava alguns apêndices comigo. O apêndice mais novo estava a fazer a rodagem possível para o trekking de Monfrague, (que se fez no fds passado).

    Só ao fim de alguns quilómetros me apercebi que ainda estava em Portugal. A Serra é muito mais que os travesseiros da Periquita, ou Seteais,e eu, confesso, não conhecia.

    1. A Serra é de facto misteriosa e vasta… e de Lisboa temos muitas à disposição. A Arrábida é outro mundo, ainda tenho de explorar aquilo 🙂 há provas / eventos de trekking? As ultra maratonas cruzam muito com o trekking, por exemplo, já ecomendei pela net uns bastões black diamond carbon alpine cork para treinar em serra e são usados por pessoal que faz trekking. PAra a ultra que vou fazer são considerados muito úteis e acredito. Nas subidas anda-se, pelo menos, quem quer acabar, e são subidas íngremes. Nesta corrida de sintra andei em todas as subidas, por isso foram 5 horas para quase 30km. Só se corre a descer e plano e é devagar.

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