tríptico

Estou num quarto de hotel, no porto, com a Júlia. Improvisei uma espécie de tenda na cama de grades, deitando o cobertor por cima, de modo a tentar recriar condições propícias à prática do sono que, em condições normais, já estaria bem avançado por esta hora, com ela no seu quartinho, depois de 2 ou 3 minutinhos de berraria infernal. Vejo a cama a abanar toda, oiço o corpito dela aos trambolhões e cambalhotas, está cada vez mais movimentada e o corpo diz-lhe “anda, mexe-te, tenta por-te em pé ainda hoje, gatinha” o tempo todo. Por vezes é notório o cansaço, o sono, boceja, esfrega os olhos, o nariz, as orelhas (adoro quando ela esfrega uma orelha quando tem sono), choraminga, e tudo isto sempre num permanente corrupio de voltas e reviravoltas.

Uma das coisas que me agrada no Porto é o empedrado das ruas do centro. São merdas em que reparo, eu, desde que ando com carrinho de bebé e desde que corro. Os passeios quase todos com rampas e impecavelmente nivelados. Mesmo o empedrado da estrada, aquela coisa grosseira e bojuda e rugosa que está por toda a baixa lisboeta, mesmo e especialmente as zonas que ainda agora acabaram de fazer (o crime autêntico que é o piso na zona do Cais do Sodré – Praça do Comércio) aqui, é de outro nível: é possível andar com um carrinho de bebé por cima daquilo como se fosse quase liso. As pedras são achatadas, polidas e estão dispostas em padrões precisos, nomeadamente, semi-arcos, quase sem folgas entre calhaus.

Amanhã corro 20km aqui, a subir e descer. Clérigos, Palácio de Cristal, Serralves, Parque da Cidade, toda a ‘marginal’… o meu plano de treinos preconiza perto de 60km a correr esta semana e 80km em média mais lá para a frente eu que corria 40km numa semana intensa.Aquilo que melhor prevê a capacidade de fazer uma corrida é o volume que se corre por semana. Acho isso engraçado. Não há segredo especial ,é só acumular quilómetros e quilómetros. Há muitas nuances, muitos métodos diferentes, mas na essência, é isto, raramente há um tipo que treine o dobro de outro e que não seja muito mais rápido e resistente. O corpo parece que vai sendo cada vez mais eficiente. Não há atalhos. Não é possível explicar ao corpo o indizível, só milhares de passos o explicam e começo a achar que é tudo assim, tudo, o corpo é que ensina a mente e não o contrário e isto aplica-se muito à escrita, especialmente aos que esperam que seja a mente a ditar a escrita e não o corpo sentado na secretária, por hábito, como um maratonista, a debitar texto.

 

 

 

 

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One thought on “tríptico

  1. És bem capaz de ter uma certa razão quando dizes que para correr e correr cada vez mais e melhor, basta treinar. A escrita também se treina, mas não será a posição do corpo inclinado sobre o papel, que traz a criatividade do texto; mas a forma de escrever e compor o texto por força do treino, a técnica, ajuda muito à criatividade. Curioso…

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