sem posição

A sério, não quero ser repetitivo, mas a minha filha eleva o conceito de “não ter posição” para dormir à vigésima potência. Estou aqui a tentar escrever algo de interessante e só oiço o raio de cama de grades a ranger com os trambolhões constantes, as reviravoltas, os suspiros, os grunhidos de esforço, os soluços de choro por não se conseguir pôr de pé quando quer.  Ela não entende ainda o conceito de “parar e ficar quieta para dormir”. Antes não se sabia mexer, portanto, era indiferente, como a deixava era como ficava. Agora sabe meter-se de gatas, esticar-se toda, elevar-se apoiada em algo e chora de frustração. É  como se o corpo dela tivesse vontade própria e ela, cheia de sono, só quisesse paz. Olha para mim implorante, entre duas manobras de circo e soluços de choro enervado. A nova posição de dormir é quase sempre a mesma, numa espécie de reza para Meca, rabo para cima, pés juntos, braços conforme calha, cara enfiada no colchão ou de lado, a capturar o momento em que a bateria chegou aos 0% e o cérebro dela desligou os sistemas locomotores. É um rico espectáculo e diz muito sobre a teimosia dos nossos genes.

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