dead man running

Juro por Deus, fumei um maço durante anos e ouvi menos avisos de “isso é perigoso” ou “isso faz mal à saúde” do que desde que corro maratonas e treino para uma ultra. Até a minha mãe me dá sermões pelo telefone: “uma amiga minha diz que isso depois dá cabo das costas e dos joelhos”. A A. lembrou-me que o Caballo Blanco, ou Mikah True, personagem (real) do Born To Run, morreu basicamente porque ficou com um coração hipertrofiado da corrida constante na Sierra Madre. Não percebo a humanidade. O meu pai tinha um joelho destruído, a minha mãe já não pode descer e subir montes. Nenhum dos dois correu maratonas, foi a passear cães e a fazer horticultura. E no entanto, se me acontecer o mesmo a mim, as pessoas em geral vão-me dizer “ah-ha! Eu sabia que aquelas manhãs passadas a ver tv em vez de ir correr haviam de compensar um dia!”. Nunca estão satisfeitos com nada. Gostam dos meio-termos e eu cá sou de extremos. Por isso, apesar de estar muito bem sem fumar, quero que os meus amigos fumadores continuem a fumar. Se deixarem de fumar, têm de ser ultra-maratonistas que se lixam. Por isso fumem, raios. Ying e Yang. Não há meio termo. Eu só não fumo agora porque seria demasiado estúpido, a sério. Uma pessoa ou é uma coisa ou é outra, não pode ser as duas ao mesmo tempo. Fumar e treinar para uma maratona é quase o mesmo que querer ser político e ter um curso superior numa universidade séria. Dito isto, há japoneses que fumam durante maratonas, acreditam que lhes dá potência. Ou então não estão para se chatear. Acho a imagem muito bonita, um homem a correr uma maratona e a acender um cigarrito a meio, como se estivesse a jogar playstation. É de macho. Um amigo, entusiasta de ginásios e de fitness, fala-me no corpo, nos músculos que eu estou a perder por treinar assim e que devia fazer musculação. Eu não me importo de ficar inestético. Já tenho uma filha e uma namorada que não se vão embora por eu agora ficar tipo chico fininho. Que não é estético, epá, pois. Às vezes parece que estou em quimio. A senhor do café onde vou, no chiado, diz-me sempre que preciso de comer mais um bocadinho de torrada, que estou muito magrinho, mas com ar de pena. Mas eu sinto-me feito de cordas retesadas. Quero experimentar a sensação de ter um corpo com no máximo 11% de massa gorda em vez dos 14 % actuais ou 16.5% de há quase um ano. Seco. Uma espécie de raiz de tronco de árvore, nodoso, uma fibra. Uma corda retesada, daquelas que quando se afinam até dão estalos no braço da guitarra. Depois isto passa-me. A minha agente deve estar apreensiva neste momento, mas não se preocupe, querida Anja, eu volto a escrever. Estou a ler a A Letra Vermelha de Nathaniel Hawthorne e isso explica muita coisa. Se o querido alf (um ultra maratonista em potência) estiver a ler isto, no improvável caso de não ter lido este livro, pois que saiba que vai apreciar muito do mesmo.

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4 thoughts on “dead man running

  1. “querer ser político e ter um curso superior numa universidade séria” ahahahah!
    Então e o ilustre fellow blogger (senhor doutor) Pedro Lomba? só para dar um exemplo que me ocorreu. Ou esse não é bem um político? ou não tirou o curso em “universidade séria”?

      1. deixa lá, não ligues, eu sou um “desse tipo de pessoa” que diz “estas políticas de direita”.
        😉

  2. Sofro o mesmo. Muitos me dizem que ando obcecada com as corridas, que isto me ha-de fazer mal, tantos kms e tanta disciplina em correr, com frio, com chuva, com calor, etc, e’ sempre qualquer coisa de ‘tu agora nao estas bem, tu nao eras assim’. Ate’ ja me disseram que correr faz envelhecer, a meterem-me medo de que vou ficar com rugas (vou ficar ‘a mesma, ora) e de que a oxigenacao em excesso me vai fazer mal e que devia ter mais vida social e menos dedicacao ‘a corrida. Pior, muito pior do que quando fumava. Sobre a forma fisica, ha’ dias pesei-me e a balanca disse-me que tenho under fat, tenho pouca massa gorda. 😀

    Mas isto tudo e’ tao bom que nao ligo nem um pouco ao que dizem (nas minhas costas acredito que dizem qualquer coisa como isto: “Esta’ toda enxuta, a cabra, anda praqui a comer bolas de berlim e doces ‘a nossa frente, nos a fazermos dieta e ela a dar cabo de um pacote de bolachas ‘a nossa frente e ainda tem o desplante de dizer que desfaz isso tudo numa corrida. Grandessisima cabra.”) 😀 😉

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