pffff mortais

Não entendo, já começo a ouvir bocas que tenho de ir ao ginásio ou que pareço doente… o que há de errado com o físico de corredor de longa distância? Aqui o Scott Jurek, um dos maiores ultra-maratonistas de sempre, ao lado de uma fã embevecida numa conferência. Vão-me dizer que o físico deste gajo não vos inspira mil vezes mais respeito que aquelas fotos do Cristiano Ronaldo de cuecas em pose de estátua grega?
Scott

Lindo, não é? Aqueles óculos e polo são apenas um disfarce de um super-homem que, quando se despe para correr, deslumbra com o seu físico possante… ladies, tenham calma:

scott2

Eu acho isto erótico, quase, e sou um homem. De qualquer forma, é-me indiferente se pareço cada vez mais um doente oncológico que gasta uma fortuna em solário ou a versão masculina de uma top-model anorética cocainómana e fotoshopada. A minha vaidade é saber que consigo ir a correr daqui de Lisboa até Torres Vedras se por acaso houver necessidade disso, como após uma tempestade solar que destrua satélites ou uma invasão de zombies ou uma maioria absoluta de António José Seguro. Mesmo que as minhas camisas L pareçam XXL agora, e as minhas calças levis quase que precisem de suspensórios, elas escondem um emaranhado de fibras musculares retesadas, esticadas como as cordas de uma guitarra sobre uma estrutura óssea reforçada e afinadas por tensões e nervos bem lubrificados e flexíveis. Acho que é possível treinar para 10k, uma meia e até uma maratona sem objectivos de tempo sendo perfeitamente razoável e relaxado, como quem pratica um passatempo agradável. Mas para uma prova tipo o DUT 80k com 4500metros de subida, relembro isto até decorarem, é mais complicado dar a volta à questão. É preciso ser um sacana de um obsessivo num nível anormal para padrões civilizados. Vou meter mais ou menos 80km nas pernas por semana e isso faz uma pessoa ficar diferente, não apenas com um físico muito mais agradável e sedutor, mas diferente do ponto de vista mental. Bem os vi, na largada para a ultra de Sesimbra que tinha “apenas” 50K. Todos eles tinham um aspecto de quem passou tempo demais nos trilhos: as peles curtidas pelos elementos, as mãos a sondar e ajustar o equipamento testado e familiar, cada um com as suas manias e preferências, a passada inaudível, a euforia latente misturada com apreensão serena e um imenso desprezo por limites, uma aversão ao “não consegues”.
Se não me lesionar, vou ficar uma cabra montesa daqui a uns meses e  vocês, meros mortais que ofegam de subir as escadas do metro do chiado, também me contemplarão na largada e pensarão “foda-se, que grande maluco”. Vou passar por terrinhas lá no Douro, no Marão,e velhinhas, sentadas em bancos de granito marmorado, vão comentar umas com as outras: “ai Jesus, foda-se, que grande maluco” quando eu passar pelo meio das suas galinhas assustadas naquelas aldeias de xisto com pontes romanas construídas sobre dolménes neolíticos com pinturas rupestres que lá são tipo tão banais como os grafitos do bairro alto. As famosas porquinhas montanhesas do Marão, vão fizer “oinc oinc, oinc! “ quando eu percorrer os pomares de vinha das serras e o falcão perneirino sobrevoar-me-á! O lince malhado do Marão será o meu guia e de noite serei acompanhado por cardumes de pirilampos mágicos. Mas para além da natureza e os seus animais e o Portugal interior não terem mais segredos para mim, a grande transformação será sobretudo mental. Aquilo que antes era território de aventuras ao domingo cedo, começa agora a ser encaixado às 7 da manhã de uma terça feira de semana de trabalho. Corri pela avenida das forças armadas acima para Monsanto, passando uma fila gigantesca de trânsito stressado e poluente, subi ao topo, até à prisão, sempre metido na mata. Pouco passava das 8:00 e já eu, mãos na ilharga, contemplava a Lisboa em ebulição laboral, a fumegar com vocês, as formiguinhas, a caminho do escritório, nos carrinhos em fila no eixo norte sul qual centopeia metálica. Inspirei antes de mergulhar encosta abaixo, como se estivesse à tona da água e fosse em apneia até ao abismo da rotina. Um inesperado pomar de cardos enormes, por onde tive o azar de desaguar destrambolhado de um trilho estreito pelo meio de arbustos, lembrou-me que, afinal, sou mortal e que meros espinhos, quase invisíveis ao olhar míope e enevoado de suor, podem infligir dor considerável se acumulados em grande número na epiderme. E aprendi que não é boa ideia correr a olhar para os pés e com as mãos esticadas para a frente nas passagens estreitas pelo meio de arbustos por forma a evitar o possível contacto com a porcaria daqueles fios das teias de aranha. Mas sobrevivi e estou mais forte.

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