a letra vermelha / escarlate / encarnada

O Nathaniel Hawthorne dá-lhe bem. Há muito que não lia um livro de literatura como deve ser, daqueles que conseguem ser grande qualidade técnica, como este A Letra Encarnada de 1850. Ajuda a tradução ser de Fernando Pessoa (!) Nunca se percebeu muito bem porque Fernando Pessoa traduziu isto, visto não haver registo de encomenda de editora, embora se adiantem pistas para este livro em concreto, a sobreposição do tema com aspectos biográficos do Pessoa. Mas está feito, está feito. Este é daqueles poucos livros em que praticamente não acontece nada e se conseguem pintar quadros, mas sem ser aborrecido e pesado. Outra semelhança com Pessoa, o do Livro do Desassossego. Aliás, a introdução que Hawthorne faz ao seu próprio livro não fica muito atrás da prosa existencialista de Bernardo Soares, uma observação psicológica com um certo pendor de auto-flagelação e resignação melancólica, mas com recurso a metáforas e imagens inesperadas e poéticas sem nunca serem forçadas e esse tipo de características do produto literário, em inglês, as ‘specs’. É também o primeiro livro que vejo massacrado no Goodreads, mas que é uma obra prima, no meu entender. Há muito entendido que diz que Hawthorne é a par de Melville o grande escritor americano do século XIX (então e Poe? E Twain? enfim) e apontam este como o seu melhor livro. Coisas como:

“Some attribute had departed from her, the permanence of which had been essential to keep her a woman. Such is frequently the fate, and such the stern development, of the feminine character and person, when the woman has encountered, and lived through, an experience of peculiar severity. If she be all tenderness, she will die. If she survive, the tenderness will either be crushed out of her, or—and the outward semblance is the same—crushed so deeply into her heart that it can never show itself more.” ”

Isto é um pedaço de prosa capaz de humedecer as partes íntimas de qualquer mulher do século XXI especialmente se tivermos em consideração que foi escrito por uma pena, no século XIX, à luz de velas, em Salem. Mas que sei eu. Já é sobejamente conhecida a minha opinião (a minha filha de 8 meses já a conhece) de que Philip Roth é um bom exemplo de uma certa decadência intelectual na viragem do milénio, mais do que os Paulo Coelhos, uma vez que entretenimento popular sempre houve. Agora há mais massas que acedem à leitura e, tal como sucedeu na música (basta pensar na degradação da MTV) o mainstream tornou-se um reflexo da barbárie pela força dos números, quando antes a sua exclusividade económica e cultural reflectia os gostos de uma elite de vanguarda e mais adulta. Se antes se matava o porco e alguém perdia um braço com um foguete artesanal para gáudio da populaça ébria que depressa aplicava um torniquete e ia jogar malha, hoje os seus filhos lêem João Tordo e José Luís Peixoto. O Philip Roth aborrece-me porque não é mau escritor, pelo contrário, é bom, mas porque os críticos e parte do público que tem responsabilidades, o tem numa conta demasiado hiperbolizada. Estou, como repararam, a atiçar o Vareta nos comentários. Kss kss.

entretanto perdi-me. Nem sei porque estou a falar de Roth. Resumindo, nunca estou de acordo com ninguém quando se correm as opiniões todas, mas estou contente e queria dizer que o livro é jeitoso, este d’ A letra encarnada. O mistério é por que motivo Pessoa preferiu o título Letra Encarnada a Letra Escarlate, uma vez que o original é The Scarlet Letter. Aceitam-se opiniões.

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6 thoughts on “a letra vermelha / escarlate / encarnada

  1. Não consigo ter opinião depois de ler “Já é sobejamente conhecida a minha opinião (a minha filha de 8 meses já a conhece) ” – é demasiado enternecedor (viva a leitura em companhia!). Tens de entender que os teus leitores (eu, pelo menos) são demasiado limitados para conseguirem por o cérebro a funcionar depois de ficarem com imagens mentais de fofinhice pai-filha.

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