música, corrida, ruído mental

Sobre correr com música ou não, desde que comecei a correr há menos de um ano, dependia muito da música, especialmente em treinos mais curtos e chatos, nos mesmos circuitos do costume. Fazia playlists para cada tipo de corrida e treino. Às vezes chovia e eu não tinha o iPod impermeável, por isso ia sem música e estranhava. Um dia perdi o meu iPod shuffle e, enquanto esperava que aparecesse algures no bolso de um casaco ou por magia após uma arrumação da empregada, comecei a correr sem música. Para me distrair, comecei a correr por sítios diferentes na cidade e, em pouco tempo, nos arredores da cidade, sempre a explorar. Como resultado, em poucos meses vi-me a treinar para a maratona e depois para a ultra de trail. Também sei que não levaria música para algo de duração superior a 90 minutos. Impensável numa maratona e num trail então, em que se está na natureza, não me parece plausível apagar o som de fundo natural com música electrónica ou rock acelerada durante horas e horas a fio (nem as baterias o permitem). Portanto, parte do treino também envolvia a resposta à questão: como não me aborrecer de morte, sem música. Penso que já o escrevi por aqui, mas uma das coisas referidas por Taisen Deshimaru, o monge que ajudou a divulgar o zen budista na europa, que mais me fez sentido, prende-se com o ruído mental na civilização ocidental. A necessidade de, constantemente, nunca estarmos no momento presente, sempre acompanhados de informação extra, de ruído. Por exemplo, a necessidade de ver televisão enquanto comemos, como se a comida e os seus sabores não fossem suficientes. A pulsão para pensar em problemas no trabalho quando se passeia o cão, em vez de passear o cão e observar a rua e as coisas. Todo o stress é em parte resultante deste deslocar do agora para o futuro ou para o passado. E a música, quando se corre, em parte, é mais para silenciar os próprios pensamentos, visto que o corpo já está entretido a fazer algo. O aborrecimento ou ansiedade de se correr sem música, o “isto nunca mais acaba”, começa no ponto em que pensamos no que vamos fazer depois de correr. Eu tenho sentido muitas dificuldades nos treinos actuais durante a semana. São mais longos do que costumavam ser, mas tenho menos tempo disponível. Nem saindo de casa às 7:00 consigo ter a mente descansada, estou em ansiedade, com coisas para fazer, com tempo que poderia ser aplicado nessas coisas. O resultado são treinos algo sofridos, mas em que parte do próprio treino é tentar esquecer essas coisas e contrariar o impulso de voltar para casa antes de terminar o tempo estipulado. A música seria uma ajuda, mas o objectivo do treino também pode ser mental, nomeadamente, para resistir ao impulso de desistir num mau momento durante uma prova.

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4 thoughts on “música, corrida, ruído mental

  1. Ao contrário de ti, a minha playlist para as corridas era sempre a mesma. Comecei a aperceber-me de que isso não estava a funcionar quando de vez em quando ouvia essas músicas fora dos treinos e começava-me a dar vontade de galopar ou a sentir esforço quando não havia nenhum. Nos últimos treinos experimentei correr sem música e senti exatamente o que descreves, senti-me presente e atenta ou que estava a fazer. O cérebro tem sempre com que se ocupar, corra-se na cidade ou na floresta. A necessidade de ouvir música durante a corrida para ocupar o cérebro é uma necessidade artificial.

  2. A preocupação em parar o turbilhão de pensamentos é também premente nos exercícios espirituais inacianos. Se forem feitos em silêncio, e no escuro, tornam-se bastante eficazes.

  3. Se há altura em que a música me faz falta é durante as provas, precisamente para me ajudar a não sentir tão pressionada pelo efeito competição (comigo própria, mas competição). Quanto aos treinos, às vezes sabe bem ouvir a natureza, outras vezes só precisamos mesmo de entrar em transe total, e a música certa pode contribuir para isso.

  4. Isto, no fundo, é como cantava a Dina: “há sempre música entre nós”…

    Vareta, coleccionador de citações rançosas desde 1976

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