marinho pinto revisited

Chamaram-me a atenção (e ainda bem) para esta notícia: O bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, defendeu ontem no Parlamento que a violência doméstica não deveria ser crime público. Este modelo inviabiliza a desistência do processo ainda que a vítima assim o pretenda, argumentou o bastonário, pedindo que se deixe às vítimas o poder de acusar ou não.

Não quero ser o advogado do Diabo (haverá maior diabo do que o bastonário dos advogados?) até porque acho que deve ser crime público, para evitar qualquer forma de coacção sobre a vítima que a leve a retirar queixa. O Marinho também diz na mesma entrevista que «a “violência doméstica é uma chaga nacional”, mas referiu também que aquela que é exercida sobre as mulheres “não é hoje a pior violência doméstica” – essa é praticada em relação às crianças e aos idosos.», enfim. Há aqui muito motivo de sobra para não votar nele.

Quanto ao tema levantado pela Espiga nos comentários deste blogue, «a maior incongruência está relacionada com o facto de, apesar de nunca se lhe ter ouvido uma palavra em defesa da causa ambientalista, ser o cabeça de lista de um partido ecologista, o MPT. Salta à vista que é aproveitamento, tanto de uma parte como da outra. », bem, nem sequer entendo porque não criaram um partido novo como o Livre, até porque a base eleitoral do MPT era residual. Confesso que nunca entendi o MPT como ecologista, mas sim como representativo de um portugal rural e não me chocou o Marinho Pinto ser cabeça de lista deles, mas confesso também que nunca perdi tempo a ler programas eleitorais do MPT.

Isto não invalida, o meu ponto do post anterior, a diabolização do Marinho e Pinto como se fosse equiparável a Beppe Grillos ou Le Pens. O conservadorismo faz parte do ADN de partidos como o CDS e boa parte do PSD. Recordo que a coligação no poder avançou com o referendo sobre a adopção, que há uns anos Paulo Portas apontava canhões às Woman on Waves e que toda a “batalha” no parlamento pela legalização do aborto se travou entre partidos do centro (e mesmo dentro dos partidos, fracturando-os), que o BE tentou abordar o tema do piropo para ser terraplanado por muita cabeça bem pensante que considerou o tema idiota etc. Isto não está em franjas extremas. Portugal também é isto. Estes temas “morais” (termo que para mim designa coisas como pena de morte, tourada, aborto, casamento gay, adoção gay, eutanásia etc.) são relevantes no debate público português, talvez mais do que a ideia sobre o euro e no projecto europeu.

O PCP teve óptimos resultados nestas eleições. O PCP é, no leque de partidos portugueses, excluindo partidos de extrema direita, o que mais assenta o seu discurso no patriotismo, na soberania nacional. Até o CDS/PP perdeu este eixo quando Manuel Monteiro saiu. Está preto no branco nos cartazes, nos “por políticas patrióticas”, na diabolização de alemães, americanos, fmi, banca, fazendo juízos morais, usando livremente termos como “roubo” ou “ladrões”. Estiveram contra o euro, contra o processo de integração europeia, contra a globalização, contra um acordo com as instâncias europeias na crise (nem participaram nele). Posto isto, talvez por nos termos acostumado à sua ortodoxia imutável, estas posições não geram na elite progressista e urbana qualquer condenação de relevo. Desconfio que seja porque do ponto de vista da moralidade, dos tais temas que citei acima, na sociedade portuguesa, o PCP seja progressista e choque de frente com boa parte do conservadorismo moral português (representado pelos Marinho Pintos). Sintomático: quando o PCP se declarou contra a proibição de touradas, foi talvez um dos momentos quando foi mais criticado nos fóruns do facebook.

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5 thoughts on “marinho pinto revisited

  1. Agora peço eu para ser elucidado. Quem é que comparou MeP a Le Pen? Isso é absurdo. O primeiro é só oportunista. O último, tal como a extrema-direita em ascensão no PE, tem uma agenda própria. Uma agenda medonha, daí a preocupação com tanta adesão por parte dos eleitores. É sinal de que algo vai mal. MeP, em Portugal, não é sinal de nada que as autárquicas ou o fenómeno Fernando Nobre ou mesmo, para recuarmos mais, o fenómeno Manuel Sérgio (o deputado dos reformados), entre outros exemplos mais ou menos locais não tivessem já anunciado. Quanto ao último parágrafo, há muita coisa misturada. É verdade que o patriotismo está na génese do PCP, mas não deve ser confundido, espero, com os nacionalismos fascistas da extrema-direita (que são xenófobos e racistas). Defender a saída do euro é uma opção política, que até me parece algo impopular (pelo menos não é populista). Sugiro a leitura do livro do João Ferreira do Amaral sobre o tema, assim como o que está no programa do PCP sobre a Europa. A ortodoxia do PCP, muito apregoada, faz-me sorrir por duas razões: primeiro, porque é apresentada como negativa ao mesmo tempo que nos queixamos da incoerência dos políticos e dos partidos (sinceramente, não vejo onde está o mal em ser-se fiel a uma ideologia e a um programa quando o julgamos mais justo); depois, porque é esquecida quando convém (não fecharam os comunistas os olhos quando votaram em Soares em detrimento de Freitas do Amaral? – este é só um exemplo de como a ortodoxia tem muitas faces). Estive hoje a ler um livro curioso (embora mal escrito) de Edmundo Pedro (ex-comunista), prefaciado por Mário Soares (ex-comunista), sobre Francisco de Paula Oliveira, mítico militante comunista que acabou no México a viver uma vida culturalmente impressionante sob o heterónimo de Antonio Rodríguez. Foi lá parar depois de ter sido “excomungado” pela dita ortodoxia. Apesar dos ressentimentos óbvios, do ajuste de contas, das afirmações carentes de fundamentação e de muita suposição e de muitos ses, vale a pena ler um livro como este para perceber a dinâmica interna de partidos como o PCP, em tempos apelidado pelos maoístas de proto-fascista, odiado pelos desiludidos do estalinismo que lá andaram encantadíssimos da vida, inimigo público número um do fascismo e da extrema-direita. O livro chama-se “Pavel – Um Homem não se Apaga”, e se há coisa que, até talvez inadvertidamente, fica clara no final é que a ortodoxia, em política, assume muita mutações (veja-se a própria história da URSS). A única coisa que resiste é a força do ideal, assim se creia nele.

    1. Henrique, não quis tomar o todo pelas partes, algumas pessoas, pronto, metem no mesmo cesto o fenómeno marinho pinto e le pen. Não, o nacionalismo do PCP não o confundo com isso e realcei que o PCP é progressista na sociedade portuguesa, na moral e nos costumes, na emancipação da mulher etc., eu termino o post a dizer que é necessário existir esse contra-poder ou que o “ressentimento” existe e é válido e que os partidos do centro (PS, CDS, PSD) têm sempre a postura do “bom aluno” e nunca a do negociador, do verdadeiro defensor dos interesses do seu país. Logo no início da crise disse que a possível saída voluntária de Portugal do Euro colocaria uma pressão desproporcional ao nosso tamanho sobre a UE e a Alemanha numa negociação e que era necessário que os nossos credores (banca alemã, francesa etc.) tivessem consciência de que havia um limite e de que se estavam a negociar condições e não uma capitulação que foi o caso. O que me aborrece no PCP é a sua relativa ineficácia prática, pois tal com o PCP, fui contra o essencial nesta crise: o bailout a bancos, mas nunca poderia votar num partido que pura e simplesmente não tem uma alternativa viável e que, historicamente, já provou ser um desastre vezes que me bastaram. Acredito que a salvação da esquerda europeia está no fenómeno italiano e em políticos como Matteo Renzi. Uma coisa são princípios, ideologias, outra são soluções para problemas que mudam.

  2. Eu se me dão licença eu vinha só dizer cof cof eu quer dizer bem eu vinha a dizer que isto é tudo uma grande pantomina porque o Shô Bray quer efectivamente ser advogado do diabo. Não é de hoje nem de ontem. Diz-se em Torres Vedras que já em novo ele havia noites em que ele se vestia de toga sem nada por debaixo e se saracoteava rua abaixo rua acima a dizer que era o advogado do diabo.

  3. «O que me aborrece no PCP é a sua relativa ineficácia prática, pois tal com o PCP, fui contra o essencial nesta crise: o bailout a bancos, mas nunca poderia votar num partido que pura e simplesmente não tem uma alternativa viável e que, historicamente, já provou ser um desastre vezes que me bastaram. Acredito que a salvação da esquerda europeia está no fenómeno italiano e em políticos como Matteo Renzi. Uma coisa são princípios, ideologias, outra são soluções para problemas que mudam.»

    A que te referes quando aludes a uma “ineficácia prática” de um partido que nunca foi poder?

    Quando dizes que o PCP já provou ser um desastre estás a pensar no PCP ou no comunismo de uma forma geral?

    Era importante que esclarecesses para que eu pudesse partilhar a minha perspectiva, eventualmente discordando. Já agora, repara que “provas de desastre” todas as ideologias têm no seu currículo. Há uma tendência para associar o comunismo a experiências negativas, reconhecidas pelos próprios líderes comunistas muito mais rapidamente do que por vezes se observa noutros domínios. Podemos discutir modelos, tendências, teorias, etc.,na base da história internacional ou indo aqui e acolá buscar exemplos conforme as conveniências. Se ficarmos pelo caso português, a verdade é que o exemplo desastroso não vem do comunismo nem dos seus representantes nacionais. Vem de uma desgraçada História onde elites medíocres, porque gananciosas, avarentas, egoístas, desprovidas de qualquer sentido solidário e consciência humanista, sempre se estiveram nas tintas para a maioria da população (as pessoas mais pobres e desprotegidas, óleo de uma maquinaria onde a força do trabalho serve para tornar mais ricos os que já são ricos e manter na cepa torta os que nela nascem). A oligarquia que há muito nos governa, que eu saiba, não tem a sua origem no comunismo. Ou tem? Ao contrário do que afirmas, eu acho que quem precisa de salvação é a Europa, que ao voltar as costas aos cidadãos, preferindo curvar-se ao interesse financeiro a tomar medidas sérias no sentido de garantir às populações aquilo pelo que garante ter nascido, abriu as portas à extrema-direita. Aos olhos das pessoas, esta União Europeia é uma farsa (as declarações recentes do ex-assessor de Durão Barroso são claras). Portanto, é a Europa que precisa de se salvar. A esquerda só precisa de ser esquerda, ou seja, manter e reforçar junto das populações a sua constante preocupação com o bem-estar comum. Basta olhar para a arrumação dos deputados eleitos pelos diferentes partidos no PE para perceber onde está a esquerda. Não é no PS (de resto, nunca foi). Portanto, para mim, o caminho é este: «promover uma Europa de paz e de cooperação baseada em Estados livres».

  4. temos muito que discutir numa próxima caldeirada por Peniche, caraças, eu concordo com grande parte do que dizes e penso que há aqui arestas que seriam mais facilmente limáveis com estômagos reconfortados.

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