a aurora do terror II

Acordei, noite cerrada e, convencido que o despertador iria tocar dentro de poucos minutos (tinha-o marcado para as 5:30 da manhã), saí da cama, equipei-me com o equipamento e víveres deixados de véspera preparado para o treino de trail em Sintra, incluindo um pacote de TUCs de bacon, pois ando a experimentar as variedades e a avaliar ver qual o impacto na performance. Queria começar no raiar da aurora para chegar a casa cedo, visto que estes treinos longos em serra duram umas 4-5 horas. Mas não tão cedo. Quando me lembrei de olhar para o relógio, ainda eram 4 da manhã. Só me apercebi disso já todo equipado e desperto do café fumegante. Pensei em voltar para a cama, mas já que estava equipado e sabia que o sol se iria levantar às 6:20 e que pelas 5:40 o céu já começaria a ganhar uma tonalidade mais luminosa, resolvi partir. O início de percurso seria perto da barragem do Rio da Mula, já dentro da serra, no fim de uma estrada. Se estivesse muito escuro ficaria dentro do carro à espera de alguma luz. A viagem de carro fez-se em 30 minutos. Aquela hora, quatro e tal da manhã de Sábado, Lisboa e os seus acessos são atravessados por taxis furiosos ou carros com condutores embriagados, com música techno aos gritos. Rápida sucessão de paisagens da cidade para Sintra, 2ª Circular, Lisboa cheia de luzes, IC19, subúrbios ainda a dormir, depois os parques industriais, fim do ic19, e finalmente chegamos a Sintra. Vira-se a sul e metemos à direita por uma estrada que sobe, já no meio da floresta. Com os máximos ligados, 2 luzes brancas no meio da estrada. São olhos. Travo a fundo. Um grande cão negro corre para a berma. Quase o atropelava. No sentido oposto vem outro carro. Estranho-o como ele me deve estranhar a mim, afinal de contas, quem vai para uma serra antes das 5 da manhã? O carro passa. Não vi outro carro o percurso todo até à barragem do rio da mula e os meus faróis são a única luz num raio de quilómetros. O gps diz-me que estou a menos de 100 metros do ponto “A”, a partida. Estaciono numa berma. A escuridão é completa. Desligo os faróis e as luzes do carro. Quero que a minha vista se habitue ao escuro. Ou então, quero ser completamente invisível ali, para não atrair nada de demoníaco.
A imagem do altar que vi no último treino, a meio de uma encosta no bosque escuro, não me sai da cabeça: em cima de uma pedra, uma taça com uma vela quase toda queimada e caracoletas enormes a flutuar num líquido viscoso. Primeiro pensei tratar-se de uma ‘armadilha de caracóis’, mas depois estranhei terem colocado aquilo ali num sítio tão inacessível e depois, por que raio uma coisa daquelas tão estranha? Existe isso de armadilha de caracóis sequer? Relembro um comentário de um amigo meu no meu facebook, a dizer-me que já viu galinhas mortas num pentagrama ou algo do género e também relembro reportagens sobre rituais satânicos na serra de Sintra. A Quinta da Regaleira… Deixo-me ficar no carro e amaldiçoo os filmes todos de terror que vi. O silêncio é de pano negro espesso, estamos longe da estrada principal e quase não há vento. Os meus olhos vão-se habituando ao escuro. Começo a pensar se não seria melhor fazer-me ao caminho e sair do carro. Consigo ver o suficiente para dar com caminhos largos de saibro branco. O problema é se o gps me manda meter por um trilho estreito no meio do bosque. Detesto aranhas, logo para começar. E não tenho lanterna comigo, está na lista de coisas a comprar. Ganho coragem e saio do carro. As luzes do interior do carro acendem. Sou visível em todo o vale. As encostas têm olhos? Equipo-me. Está um frio de rachar e estou de calções. Não há sinais do sol. Ajusto os bastões de trekking nos 125cm cada um. Meto o boné, sempre me protegerá de um eventual choque com uma teia. As luzes do carro apagam e está totalmente escuro de novo. Escuto com atenção. Nada. Começo a andar para o ponto A, a menos de 100 metros. Olho para o relógio GPS com a retro-iluminação azul e sigo o trilho. Tenho de carregar no botão de 10 em 10 segundos pois a luz apaga-se, sei que posso fazer o lock da luz, mas tenho medo de não conseguir desligá-la e da bateria se esgotar. Chego ao caminho. Parece suficientemente largo. Começo a correr, a mochila pesada dos dois litros de água que levo comigo. A situação é toda ela um pouco surreal. Tudo porque acordei cedo demais. Tento ver as coisas pelo lado positivo, estou a viver uma aventura, digo para comigo, estou a sair da normalidade, a viver uma experiência surreal e nesse momento dou um salto de 2 metros para o lado com o susto. Um pássaro faz-se ouvir na mata, penso que seja uma coruja, mas mais parece um lobo gago a uivar. Continua, estridente, como se estivesse a alertar toda a serra para a minha presença. Sigo caminho. Estou a ir rápido de mais e mais tenho luz para ver onde ponho os pés, mas só quero chegar à parte mais alta onde a vegetação não é tão densa e onde haverá mais luz. O céu já tem uma tonalidade azul negro, o sol vem aí. Então o trilho desemboca num vale num escuro cheio de fetos, arbustos e ramos. Há uma árvore caída no meio. Nem quero acreditar que o tipo que fez upload do trilho foi por ali adentro. Aquilo não é um caminho, é mato cerrado e parece a boca da floresta a querer engolir-me. Volto um pouco para trás, para uma clareira e penso ficar ali mesmo à espera que venha luz. Devo estar a orientar-me mal. Calibro a bússola do relógio, confirma-se, ele quer mesmo que eu vá em frente por ali adentro. Estou a ficar gelado. Decido a avançar. Não vejo umas silvas e fico com um lanho do joelho até quase à anca, mas a adrenalina é tanta que não sinto nada. Com os bastões esticados para a frente vou abrindo caminho contra eventuais teias de aranha. Sou obrigado a andar de cócoras para passar num túnel de vegetação e sinto algo a agarrar-me a cabeça, ramos secos arrancam-me o boné. Lanço-me para a frente, agarrando o boné com a mão e desemboco no sopé de uma rampa de mato espesso. É impossível continuar. Começo a pensar que o trilho se tornou impraticável, que entretanto a vegetação cresceu, mas não posso voltar para atrás. A coruja ri-se na floresta. E teria de passar pelo túnel de novo. Olho para o fim da rampa e percebo um muro de pedras coberto de hera e silvas. Significa que há um caminho do outro lado. Subo por ali acima, indiferente às silvas, aos fetos que vou desbastando com os bastões, os pés a afundar-se num manto de folhas secas e musgo. Trepo o pequeno muro e estou num caminho largo de novo. Que sensação de alívio. Subo a montanha em passo acelerado com a luz a aumentar gradualmente. Começa a deixar de ser claustrofóbico. Cerca de 40 minutos depois, tiro esta foto, já a chegar à pedra amarela, um dos marcos mais altos. E agora compreendo por que motivo os antigos veneravam o sol e não davam por adquirido o seu nascer regular, mas sim algo sujeito à vontade e capricho de deuses!

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Tudo não passou de um jogo de sombras, de coisas na imaginação, mas experimentem estar absolutamente sós num bosque destes à noite (aqui com luz) e vão ver-se regredir a um estado não muito diferente dos nossos antepassados que viam demónios, lobisomens e bruxas…

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música, corrida, ruído mental

Sobre correr com música ou não, desde que comecei a correr há menos de um ano, dependia muito da música, especialmente em treinos mais curtos e chatos, nos mesmos circuitos do costume. Fazia playlists para cada tipo de corrida e treino. Às vezes chovia e eu não tinha o iPod impermeável, por isso ia sem música e estranhava. Um dia perdi o meu iPod shuffle e, enquanto esperava que aparecesse algures no bolso de um casaco ou por magia após uma arrumação da empregada, comecei a correr sem música. Para me distrair, comecei a correr por sítios diferentes na cidade e, em pouco tempo, nos arredores da cidade, sempre a explorar. Como resultado, em poucos meses vi-me a treinar para a maratona e depois para a ultra de trail. Também sei que não levaria música para algo de duração superior a 90 minutos. Impensável numa maratona e num trail então, em que se está na natureza, não me parece plausível apagar o som de fundo natural com música electrónica ou rock acelerada durante horas e horas a fio (nem as baterias o permitem). Portanto, parte do treino também envolvia a resposta à questão: como não me aborrecer de morte, sem música. Penso que já o escrevi por aqui, mas uma das coisas referidas por Taisen Deshimaru, o monge que ajudou a divulgar o zen budista na europa, que mais me fez sentido, prende-se com o ruído mental na civilização ocidental. A necessidade de, constantemente, nunca estarmos no momento presente, sempre acompanhados de informação extra, de ruído. Por exemplo, a necessidade de ver televisão enquanto comemos, como se a comida e os seus sabores não fossem suficientes. A pulsão para pensar em problemas no trabalho quando se passeia o cão, em vez de passear o cão e observar a rua e as coisas. Todo o stress é em parte resultante deste deslocar do agora para o futuro ou para o passado. E a música, quando se corre, em parte, é mais para silenciar os próprios pensamentos, visto que o corpo já está entretido a fazer algo. O aborrecimento ou ansiedade de se correr sem música, o “isto nunca mais acaba”, começa no ponto em que pensamos no que vamos fazer depois de correr. Eu tenho sentido muitas dificuldades nos treinos actuais durante a semana. São mais longos do que costumavam ser, mas tenho menos tempo disponível. Nem saindo de casa às 7:00 consigo ter a mente descansada, estou em ansiedade, com coisas para fazer, com tempo que poderia ser aplicado nessas coisas. O resultado são treinos algo sofridos, mas em que parte do próprio treino é tentar esquecer essas coisas e contrariar o impulso de voltar para casa antes de terminar o tempo estipulado. A música seria uma ajuda, mas o objectivo do treino também pode ser mental, nomeadamente, para resistir ao impulso de desistir num mau momento durante uma prova.

em directo

prefiro encaixar aqui depois do anterior uma série de ideias de forma espontânea num exercício criativo em directo enquanto não começa o game of thrones com avanço suficiente para ver depois a saltar a publicidade. Isto podia ser uma janela
de chat
que eu
escrevia tudo em directo
lol
Assim é uma ilusão, podia escrever tudo de seguida como o Hitchcock a filmar A Corda (era a Corda? foi mesmo tudo de seguida?) que vocês não acreditavam. Porque a espécie humana tem esse instinto: não acreditar. Desconfiar. E quando desconfia de todos, como escreve o NAthaniel Hawthorne, tem dificuldades em destrinçar verdadeiras ameaças. Hoje os meus pés desincharam um bocado. Acordei muito cedo para apanhar a minhoca, mas não o suficiente e fui correr um bocado stressado pela falta de tempo para fazer os 13km estipulados por mim próprio. Estava frio eu fui surpreendido por essa circunstância pois não tinha vestes para me proteger. Descobri que não gosto de correr de boné a não ser que esteja mesmo muito sol e luz A pala tapa-me a vista para cima. É positivo, em certos caminhos ladeados por árvores, como sucede em parques que tenham árvores, especialmente os antigos que costumam ter um coreto ou uma esplanada de cadeiras de ferro verde com assentos de madeira, e não é apenas o jardim da Estrela, há muitos, estou-me a lembrar do Choupal, em Torres Vedras, é essencial, dizia, aquele sentimento de movimento de treveling cinematográfico contínuo e flutuante debaixo da abóboda verde e dourada das folhas, picotada de luz, que desce em focos desenhados na poluição atmosférica de uma cidade decente. Isto só se consegue quando a corrida atinge a mesma facilidade que se tem a pedalar uma bicicleta num planisfério plano, mas sem a velocidade da bicicleta, é mais um flutuar. Hoje não senti isso por causa do chapéu, mas também devido ao frio, ao que acresce o stress de ter pouco tempo e saber que me tinha de despachar para chegar a horas a sítios onde os pássaros ficam lá fora e em vez de chapéu é um tecto e paredes. Agora vou meter os pés para cima, a ver se ficam normais.

cada cavadela

Os Stone Roses eram muito bons naquele sentido compacto dos Beatles, cada cavadela, uma minhoca. Isto, no sentido de sermos alguém ou alguma coisa que valorize muito minhocas. Como um pescador que precisa delas para isco ou um pássaro com fome, especialmente o que não é madrugador e chega lá e não há minhoca. Os pássaros não são bem uma coisa. E depois eles tinham muitas ideias na mesma música. Os Stone Roses, não os pássaros. O guitarrista, o John Squire, um pintor como os treinadores de futebol.

pés de elefante

Em virtude de ter corrido 75kms no total da semana passada, especialmente 2 corridas longas no fim de semana, e terem sido corridas quase sempre lentas (muitas horas a correr..) hoje os meus pés, tornozelos e canelas incharam como nunca tinha visto. Até os dedos dos pés estão compactados uns contra os outros. A minha perna parece um cilindro do joelho para baixo, onde tem um estrangulamento por causa do topo de meias algo apertadas. Hoje de manhã quase não conseguia entrar nos sapatos. Investiguei e agora percebo muito de pés inchados. O principal factor terá sido desidratação e perda de electrólitos. Tudo porque depois de fazer 33km com desnível no Sábado, achei que era boa ideia no Domingo ir a correr de minha casa até ao Colombo para ir buscar a minha Yammi, o robot de cozinha tipo bimby dos pobres, que estava a arranjar no Continente (pela 2ª vez, mas e avariar mais uma 3ª, contem com publicidade negativa nas redes sociais). E então fui com a Júlia, a empurrá-la no carrinho, perto da hora de almoço, num dia de sol a pino. São 6km para lá e outros 6km para cá com o acrescento de uma Yammi de 5 quilos. Durante todo o percurso preocupei-me em manter a Júlia à sombra e acelerei o passo para evitar que ela aquecesse no carrinho. Ela gostou bastante da exploração e foi giro, com o único senão da cidade de Lisboa definitivamente ter zonas que são inacessíveis a pessoas com mobilidade reduzida ou carrinhos de bebé. Safam-se os percursos que possam ter ciclo-vias. Quanto às minhas patorras, só espero que isto passe esta noite, tenho outros 75km a fazer esta semana que não se fazem sozinhos.

ok, pronto, vou contar aqui também

A Júlia (que tem quase 9 meses) disse ontem as primeiras duas palavras mais complexas.
A primeira palavra que a Júlia disse, para além de “mamah mamah” aos 7 meses e um eventual “papah.. papah” de vez em quando foi: Benfica :’) Mais concretamente, CARREEEEGA BENFICA! Eu sei, eu também ainda não acredito e estou um pouco em choque. Sou zero fanático. Já nem pago quotas de sócio porque nunca tenho tempo de ver jogos. A época passada, antes dela nascer, sofri muito mais e com os desaires este ano fiquei mais de pé atrás. De resto, como o Benfica cilindrou todas as competições menos a final da Liga Europa, a época processou-se de forma bem regular. Estava em casa com um amigo que nao me deixa mentir, a ver o jogo da taça, com ela ao colo, sem grande stress – convenhamos, foi um jogo molengão e chato – a conversar, e ela de repente: BEN FI CA. Eu e o meu amigo ficámos de olhos esbugalhados. Que raio?! ouviste o mesmo que eu? E ela de novo, a rir-se: BENFICA! Fui a correr buscar o telemóvel. Mas sempre que a filmava ela ficava interessada no telemóvel e não dizia “Benfica” de forma tão clara. Sempre que parava de filmar, frustrado, ela “BENFICA” Mesmo assim ainda filmei uns quantos “Benficas” com uma dicção menos perfeita. Note-se: eu não andei a fazer lavagem cerebral à miúda! Aliás, ela reage mal a isso. QUando uma vez disse “papah!” eu comecei a tentar que ela dissesse papá a toda a hora e esquece. Ela não faz as coisas quando lhe pedem, tipo macaquinho de circo e é teimosa, como duas pessoas que eu cá sei.

Deixo aqui o clip de 8 segundos do momento algo que captei, o sentido CARREEEGA BENFICA! :’)