história repete-se

Existem bons indícios de que a subida do nível das águas do mar seja a maior mentira da ciência moderna, mas deixo o debate para os experts. O ponto é que se tornou evidente que as alterações climáticas e subida do nível do mar se tornaram num hype, num fenómeno cavalgado por políticos de craveira científica de José Sócrates ou Al Gore. Não me custa nada acreditar no Mörner quando diz que isso afecta o próprio financiamento às pesquisas que contrariem a tese dominante. Não questiono a possibilidade do aquecimento global provocar degelo de calotes polares e subida do nível do mar, o que questiono é ser aceite como uma verdade quando as críticas que vejo apontadas aos modelos de previsão me parece extremamente válidas e pertinentes, e ser quase impossível argumentar o oposto sem levar logo um rótulo de “mercenário do petróleo” ou algo do género. Há claramente um pensamento politicamente correcto.

Dito isto, temos evidências constantes do fracasso dessa entidade a que podemos dar o nome de “autoridades” e do contágio à consciência colectiva. Da gripe A, ao bug do Y2K, passando pelo colapso financeiro de mercados supostamente sólidos (nos quais as pessoas investiram), o que não falta são erros e pensamentos dominantes irracionais. A humanidade está cheia disto, abrimos um livro de história e estas coisas sucedem-se e fazem-nos pensar, sejam os horrores do holocausto, à ingenuidade da era atómica em que se pensava que teríamos tudo movido a energia nuclear, vemos essas coisas mas talvez, infelizmente, estejamos condenados a só conseguir olhar com distanciação o nosso passado e acharmos que o nosso presente é outra coisa, que nós não somos tão ingénuos como os nossos antepassados.

 

 

os lapsos do subconsciente do mundo novo

Uma das consequências da inserção automática de conteúdos de publicidade no meio do corpo dos jornais online, em nome da eficiência, é a sobreposição de anúncios em notícias dramáticas. Por exemplo, esta notícia da descoberta, por parte da marinha italiana, de 30 mortos por asfixia num barco com 600 imigrantes, com um anúncio Haagen-Daz pelo meio em que se vê uma festa de alta sociedade cheia de requinte. O print screen:

haagen

 

 

escala Torino

Não deixa de me fascinar a escala Torino para categorizar riscos e cataclismos resultantes de colisões com corpos celestes E da mesma escala descrever a ameaça e consequências de forma tão frontal. Deviam fazer uma igual para os resultados das eleições, tipo, nível 8, Seguro é eleito, nível 10, o PCP tem maioria absoluta etc. Alteraram o texto da escala recentemente pois ‘assustava o público’. Não conheço o texto anterior, mas este é suficientemente angustiante. O máximo que já tivemos foi um quatro, reclassificado para zero posteriormente. Acho que deviam mudar ainda mais o texto. Tentar ver as coisas pelo lado positivo. Por exemplo, no nível 5, em vez de «close encounter posing a serious, but still uncertain threat of regional devastation.» mudar para «the perfect chance to take those vacations abroad». E dos níveis 7 para cima, incluir uma frase inspiradora como «time to reflect and meditate upon life’s true meaning» ou ver o copo meio cheio em vez de meio vazio: «very rare event, occurs once every 100000 years and you get to experience it!»

A escala:

No Hazard
(White Zone)
0
The likelihood of a collision is zero, or is so low as to be effectively zero. Also applies to small objects such as meteors and bodies that burn up in the atmosphere as well as infrequent meteorite falls that rarely cause damage.
Normal
(Green Zone)
1
A routine discovery in which a pass near the Earth is predicted that poses no unusual level of danger. Current calculations show the chance of collision is extremely unlikely with no cause for public attention or public concern. New telescopic observations very likely will lead to re-assignment to Level 0.
Meriting Attention by Astronomers
(Yellow Zone)
2
A discovery, which may become routine with expanded searches, of an object making a somewhat close but not highly unusual pass near the Earth. While meriting attention by astronomers, there is no cause for public attention or public concern as an actual collision is very unlikely. New telescopic observations very likely will lead to re-assignment to Level 0.
3
A close encounter, meriting attention by astronomers. Current calculations give a 1% or greater chance of collision capable of localized destruction. Most likely, new telescopic observations will lead to re-assignment to Level 0. Attention by public and by public officials is merited if the encounter is less than a decade away.
4
A close encounter, meriting attention by astronomers. Current calculations give a 1% or greater chance of collision capable of regional devastation. Most likely, new telescopic observations will lead to re-assignment to Level 0. Attention by public and by public officials is merited if the encounter is less than a decade away.
Threatening
(Orange Zone)
5
A close encounter posing a serious, but still uncertain threat of regional devastation. Critical attention by astronomers is needed to determine conclusively whether or not a collision will occur. If the encounter is less than a decade away, governmental contingency planning may be warranted.
6
A close encounter by a large object posing a serious but still uncertain threat of a global catastrophe. Critical attention by astronomers is needed to determine conclusively whether or not a collision will occur. If the encounter is less than three decades away, governmental contingency planning may be warranted.
7
A very close encounter by a large object, which if occurring this century, poses an unprecedented but still uncertain threat of a global catastrophe. For such a threat in this century, international contingency planning is warranted, especially to determine urgently and conclusively whether or not a collision will occur.
Certain Collisions
(Red Zone)
8
A collision is certain, capable of causing localized destruction for an impact over land or possibly a tsunami if close offshore. Such events occur on average between once per 50 years and once per several 1000 years.
9
A collision is certain, capable of causing unprecedented regional devastation for a land impact or the threat of a major tsunami for an ocean impact. Such events occur on average between once per 10,000 years and once per 100,000 years.
10
A collision is certain, capable of causing global climatic catastrophe that may threaten the future of civilization as we know it, whether impacting land or ocean. Such events occur on average once per 100,000 years, or less often.

 

imitações de Paulo Bento e Jorge Jesus

Paulo-Bento

Gosto muito de imitações. Eu estou muito longe de ser um Luís Franco Bastos, mas quem não tem uma ou duas imitações boas? A minha melhor é o Francisco Louçã e a mímica corporal do Cristiano Ronaldo nas entrevistas, aquele toque de cabeça para trás com o encolher de ombros e o olhar para o canto superior direito a fugir do olhar do entrevistador e o sorriso de puto, de boca para o lado, porque teve assomo de orgulho no momento em que o jornalista lhe recordou que marcou mais 4 golos e que desemboca num “não, claro que fico feliz, faço o meu melhor, o importante é equipa, tou aqui é pa’ajudar”

Dito isto, Paulo Bento está cheio de idiossincrasias que tornam muito fáceis as suas caricaturas. A mais óbvia do ponto de vista físico é o olhar esbugalhado como um animal encadeado por faróis e a forma como o lábio superior lhe coloca uma permanente expressão de peixe. Depois é o sotaque espanholado numa dicção meio fanhosa, por ter passado 4 épocas no Oviedo. Sempre achei extraordinário que certos jogadores de futebol portugueses que falaram exclusivamente português até meados dos 20 anos ganhassem um repentino sotaque por umas épocas no país de nuestros hermanos. Outros casos famosos são o de Figo e, em especial Paulo Futre. O espanholamento da fala não se prende só com a entoação meio cantada e sílabas rápidas, mas com detalhes como tratar por “tu” toda gente, incluindo jornalistas de telejornal. Outro aspecto da fala de Paulo Bento, que não sei porquê acho que coincide com o estrabismo de veado encadeado, é o facto de repetir muitas vezes o meio de uma frase: “porque vamos com a certeza de que vamos fazer, vamos fazer, vamos fazer… um bom Mundial” ou “temos de continuar a trabalhar… a trabalhar para a prossecução dos, prossecução dos objectivos”. Mas tudo isto é clássico e temos bons e maus imitadores a captar estes aspectos. Qualquer amador consegue. Ultimamente reparei num detalhe mais subtil: a forma como introduz uma resposta cabal assim tchaaan, precedida de uma interrogativa que ele próprio imaginou. Ainda hoje vi na bola: «Prémio de carreira para jogadores? Nunca o faria.» A maior parte das transcrições de entrevistas não capta isto, mas é engraçado, traduz uma personalidade que tenta estabelecer limites rígidos para a sua conduta e dos outros. No seu dia a dia, estou a imaginá-lo “Dar-lhe uma moeda por ter-me apontado um lugar que eu já tinha visto lá atrás? Não é comigo”.

E a propósito, Jorge Jesus é uma imitação dificílima. Só vi tiros completamente ao lado, mesmo dos grandes Manuel Marques e Luís Franco Bastos. Mas quando digo completamente, é completamente. O problema maior é o “demasiado”. Exageram sempre nos erros de português, na piada do “forno interno” etc. Exagerar já é mau, mas exagerar demais – e isso existe – é ainda pior. Jorge Jesus é muito mais subtil do que parece, apesar de ser uma das imitações mais apetecíveis. Jorge Jesus parece falar mal português mesmo quando fala um português correcto. Por isso as imitações, soam-me a toscas e exageradas, algo que colegas de escritório fariam uns para os outros, e o humor que as sustenta também costuma ser fraco. Dou-vos 5 exemplos, quem tiver paciência.
O pior, por Luís Filipe Borges.
O igualmente pior, César Mourão
O mauzinho, por Eduardo Madeira.
O mau pelo Manuel Marques.
O menos mau, por Luís Franco Bastos, mas abaixo do nível dele noutras.

Jorge Jesus é provavelmente o único treinador de futebol de quem não perco uma só conferência de imprensa ou entrevista. Ele hipnotiza-me. E não é num sentido de gozo, de escárnio. Por exemplo, quase todas as suas respostas à primeira pergunta de qualquer flash interview começam com um som semelhante a “ladrar”. Um “WUAHF” ou um “UAAAF”, uma espécie de “naahh” soprado, como se o entrevistador tivesse falhado completamente a apreciação, seguido de um coçar da face direita com o indicador direito, mais ou menos abaixo do olho direito ou na testa, depois segue-se o sacudir de ombros e muitas vezes o cruzar de braços, e ocasionais lambidelas no lábio inferior e boca aberta num esgar. Não é sempre, mas é quase sempre. Em contextos mais demorados, ele leva o seu tempo a responder. É capaz de olhar para cima, inspirar fundo, reflectir genuinamente e responder um “é verdade. É verdade.” e daí segue-se um raciocínio improvisado. Outro aspecto prende-se com detalhes subtis de organização de ideias. Coisas como “jogámos contra duas grandes equipas” ou “somos livres de sonhar até onde nos deixarem” ou uma frase como “não sofremos zero golos” quando quer dizer exactamente o oposto… Se estivermos atentos, cada entrevista é um concentrado de pequenas pérolas que têm piada porque não são exageradas e porque Jorge Jesus é tudo menos estúpido. As imitações tendem a transformá-lo num pateta e ele não é isso, é apenas alguém cuja expressão oral se assemelha a um comboio a descarrilar com convicção. Também exageram no português, nas calinadas. Um erro de português discreto como “os objectivos do Benfica é sempre ganhar” (exemplo real) é mais Jorge Jesus do que os  inventados “foramos campeões este ano” etc. Há, mesmo assim detalhes que são obrigatórios, o “portantos”, o “chigar”, as “padradas” etc. mas não devem ser carregados, devem fluir naturalmente. Os imitadores parece que isolam estas calinadas nas frases para as colocar bem em evidência para efeito cómico. A pastilha elástica, já agora, nunca o vi a mascar a dita em estúdio, não me parece uma imagem de marca no contexto de uma entrevista.

E deixo com um hino do Luís Franco Bastos a imitar Ronaldo, bem a propósito.

 

 

“Greta viveu um ano sem gastar dinheiro”

Esta notícia deixa-me confuso. Querem saber como seria “a vida em caso de colapso do sistema económico” mas depois a prática alimentam-se das sobras do capitalismo como as baratas do lixo. Aqui são as  boleias para fazer 1700km (boleias dadas por pessoas com carro e emprego), a comunidades de okupas em edifícios que outros construíram etc. E viveu sem luz e água? Como regou a horta urbana? Foi ela que escavou o furo no quintal ou trouxe baldes do regato mais próximo? Nunca entendi este espírito. Entendo e até admiro pessoas que ao rejeitar a sociedade se tornam auto-suficientes, por exemplo, numa quinta ou numa cabana num bosque. Por Deus, eu sinto esse apelo. Como sinto o apelo de fazer a tal viagem de bicicleta ou mesmo a pé / correr.  Mas à boleia? E esmola, já agora, para comer uma bucha? Nada contra, atenção, que as pessoas façam isto, enerva-me é atribuir a um parasitismo destes uma crítica à sociedade de consumo e tudo mais. Neste caso a hipocrisia é multiplicada por mil quando a experiência não passou de uma manobra de marketing temporária para depois lançar um livro alavancado pelos media que vão na conversa e adoram estas novelas e ganhar rios de papel no sistema capitalista. Recordo-me de ter vizinhos idosos no campo que viviam como monges, os gastos reduzidos a quase zero, uma agricultura de subsistência e nem frigorífico tinham. Mas o espírito freak, estas pessoas – quase exclusivamente jovens – que são muito críticos da sociedade e pró-ecológicos e depois estendem a mão a pedir esmola no chiado, fazem umas palhaçadas com umas maracas… acho aquilo tão humilhante. Ser livre é isto, é a hipocrisia de viver de boleias, esmolas e okupações? Não obrigado. Preferia ser empresário e levar capitalistas à falência com o meu super negócio e depois com o dinheiro fundar uma quinta e ter burrinhos que são uma espécie em perigo de extinção e eu gosto muito de burrinhos. E alugar um daqueles carros da polícia de choque, daqueles que tem um canhão de água, encher aquilo de champô e dar banho aos freaks que encontrasse na rua.

burro

uma família antiga

Modern-Familytigtlecard
É uma boa série de comédia e continua certamente a ser, mas eu já não lhe consigo achar piada nenhuma, exceptuando as cenas do Phil Dunphy que são sempre boas. Acho que nunca me aconteceu um “fartanço” desta dimensão em tão pouco tempo. Parece-me tão velha como o Agora Escolha com a Vera Roquete a apresentar o Marés Vivas. Por falar nisso, acho que vi a Vera Roquete no Metro no outro dia. Está muitíssimo bem conservada. Foi um mau exemplo.

o monstrengo

Deu-me uma chapada, no outro dia, a minha filha. Doeu a sério, fiquei a olhar para ela. Foi intencional e tudo. Não lhe levo a mal, ela é o género de pessoa que dá marradas nas grades da cama até lhe doer e começar a chorar muito intrigada com a injustiça do universo. Contudo, espanta-me este acto aleatório de violência cometido sobre mim, o seu pai, e aquele riso, tudo porque lhe estava a fazer cócegas e fusquices e ela não foi de modas: PLAFT na cara do pai, com a mão gorducha bem aberta. Disse-lhe “não se bate no pai!” mas acho que entrou por um ouvido e nem saiu pelo outro, ficou retido na otite que ela tem. Fiz-me de amuado mas ela entretanto interessou-se pelo pato estroboscópico. É um pato de plástico com uma luz colorida no seu interior que começa a piscar quando é posto em contacto com água, é tipo o pináculo da ciência e do progresso.

afinal eram vidros.

Afinal eram vidros, pedaços de vidros incrustados no pneu com camada de kevlar dos marathon schwalbe da birdy. Fantástico. Pelos vistos é típico do verão, há mais pessoas a sair à noite e a partir garrafas nos passeios e menos chuva para limpar os detritos. Um dos pedeaços foi mais afoito e conseguiu rasgar a câmara de ar. O meu pneu estava lacerado de cinco em cinco cms. Já encomendei dois pneus mais resistentes. E eu que desconfiei de não sei quê.

Cr7 esteve mal

Apesar de ser um admirador dele, tenho de admitir que esteve muito mal nas declarações recentes, as do “temos que ser humildes e saber da capacidade que temos. Estaria a mentir se dissesse que somos uma seleção de topo. Ainda por cima, com a quantidade de limitações que temos tido, como os casos de Pepe e de Fábio Coentrão”, prosseguiu o jogador do Real Madrid.

Isto é verdade, em parte (somos mesmo assim superiores em teoria aos EUA e perder por 4-0 com a alemanha não é exactamente proporcional ao valor das equipas) mas não lhe compete a ele dizê-lo, ainda menos sendo capitão da equipa, posição que é, disse-o desde início, um equívoco. É possível que com o tempo e com a idade, se vá tornando numa opção natural, mas como vemos por estas declarações, ainda não o é. É curioso que jogadores como Figo o Rui Costa desde muito cedo poderiam assumir este papel, mas da boca deles não se ouviria uma frase destas. Ronaldo ao dizer isto, ainda para mais num ano em que venceu o prémio de melhor jogador do mundo e conquistou uma champions batendo o recorde de golos, está obvia e claramente a dizer que os seus colegas não são de topo. Está a dizer que as opções alternativas a Pepe e Fábio, dois companheiros do Real, não lhes chegam aos calcanhares. Vindo dele, isto é exactamente um “paciência, não posso fazer milagres, temos jogadores de merda, não posso fazer tudo”. E para cúmulo, ainda falta um jogo.Que haja descompresão e lavar de roupa suja no fim, entendo, mas basta 1% de possibilidade de passar para justificar outra atitude mais pragmática.

futuro

Li um dia que a ficção científica (o género literário) se caracterizava por se explorar uma premissa disruptiva (a expressão usada foi “game changer”), normalmente tecnológica, mas sempre com uma base plausível, evitando o fantástico. Assim, o 2001 do Arthur C. Clarke tem a premissa “e se homem desenvolvesse uma inteligência artifical com consciência de si e medo da morte”, o George Orwell imagina um mundo em que não temos privacidade e tudo é vigiado pelo big brother, no Minority Report de Philip K. Dick a premissa é “e se o homem pudesse prever crimes e prender as pessoas antes delas os cometerem” mas a existência de precogs é justificada por avanços genéticos e investigação na ciência paranormal etc. Não podemos incluir Saramago neste lote de autores das premissas, pois as suas sempre foram declaradamente metafóricas e fantásticas. Ele não explica a cegueira colectiva da humanidade no Ensaio Sobre a Cegueira ou como sucede que a península ibérica comece a flutuar oceano abaixo.

A questão é se essa explicação reduz o leque de potenciais interessados, se fecharia o âmbito da história. Olhando para as prateleiras e para cultura popular actual, penso que é notório que o género fantástico puro tem mais adesão que a ficção científica, seja o Game of Trones, Tolkien voltar à moda, Harry Potter etc. Mesmo a Guerra das Estrelas está mais no campo do fantástico do que de ficção científica: existência de Princesas, Impérios, Rebeldes, sabres laser e cavaleiros jedis que usam a força. Inclusive, passa-se “há muito muito tempo atrás” e não no futuro. Dá a sensação que a ficção científica é um género de nicho, salve excepções como George Orwell ou, no passado, Jules Verne.

E hoje em dia? Hoje a tecnologia é tão complexa que para nós funciona um pouco como magia. Um iPad é pouco mais que uma superfície de vidro com que interagimos com os dedos, com o toque. Como funciona, é um pouco irreal, poderíamos abrir aquilo e só veríamos microchips de silica e cristais de lcd. Antigamente a tecnologia era mais compreensível. Pensemos num moinho de vento, certamente um avanço tecnológico na época. Ou mesmo na locomotiva a vapor. Podíamos olhar para a máquina e entender a sua lógica. Talvez a se tenha perdido a fé e o optimismo no progresso tecnológico. Na jet age dos anos 50, até os automóveis eram feitos com formas reminiscentes de foguetões e de aviões a jacto. Imaginava-se um futuro radioso de carros a jacto, como nos Jetsons, os desenhos animados. Na aurora nuclear imaginava-se que esta tecnologia resolveria todos os problemas, fazendo parte de todos os lares. Hoje associamos o progresso tecnológico a destruição do planeta ou a sofrimento, nosso ou de animais abatidos para alimentação. A humanidade (a elite) carrega um sentimento de culpa e mesmo toda a comunicação nos lembra constantemente isto, até um festival de rock tem uma classificação de pegada de carbono.

Um sinal da perda de foco nesta utopia tecnológica é o facto do homem não ir à lua há mais de 40 anos. Ou das previsões tão próximas, como o 2001 de Arthur C. Clarke ou a série Espaço 1984 terem errado tão grosseiramente no optimismo do progresso da exploração espacial e sofisticação que atingiríamos nesse horizonte próximo. De facto, as tecnologias fundamentais não parecem ainda ter mudado muito. Um motor de combustão é um motor de combustão. Um carro é um carro, um avião continua a ser um avião. Muda a sofisticação, a velocidade, o conforto, mas a essência é a mesma. Não se resolveram os problemas da exploração espacial dos anos 60, continua a ser caríssimo e complexo colocar pessoas no espaço, talvez mais caro do que antes. Compare-se isto com a progressão do digital, em que houve exactamente as expectativas opostas: nunca se imaginou chegar a este estado em que gigas infinitos de informação são acessíveis num estalar de dedos por uma rede mundial a que se pode aceder em qualquer ponto do globo (em breve, com os drones da Google) e uma economia de coisas gratuitas. É um progresso que levanta muitas questões. Discutia com um amigo há tempos se não estávamos a progredir numa economia de ar e de se isso não se nota nos números que demonstram um impacto diluído do digital no aumento da produtividade e numa desaceleração desta nas sociedades ocidentais que, dizia-se, iam estar sempre à frente das orientais e sul americanas porque eram mais produtivas e avançadas e fariam mais com os mesmos recursos. Quer dizer, ter cabeças geniais a pensar em como podemos ver filmes HD num relógio de pulso que os projecta numa parede pode ser interessante, ou ter um iPad tão fininho que dê para picar cebola, mas o que aconteceria se os recursos fossem focados noutro tipo de progresso, por exemplo, a vida nas cidades, a arquitectura: como fazer casas mais seguras, mais confortáveis e mais baratas? Ou curar o cancro? Existe mesmo uma questão de fundo aqui e não mordo o argumento liberal neste ponto, de que o mercado tem sempre razão. Este texto não tem exactamente um objectivo, era só isto, muito obrigado por esta pequena conversa.