apologia do cão

Estou terminar o Tarahumaras do Artaud que viveu entre essa tribo de índios mexicanos. Há pouco tempo li o Born To Run do Cristopher McDougall que também tem os Tarahumaras num plano central. É quase como se os dois falassem de realidades distintas. Entre um e outro passou muito tempo, Artaud terá vivido entre os índios no final dos anos 30 e McDougall visitou-os em 2000 e qualquer coisa, no entanto, ambos descrevem uma tribo neolítica que parou no tempo e que vive numa região intocada pela civilização, pelo que o progresso não explicará as diferentes abordagens, pelo menos, o progresso dos tarahumaras. Não vi numa única passagem Artaud mencionar o facto dos Tarahumaras se fartarem de correr centenas de quilómetros entre aldeias e serem conhecidos como “o povo corredor”. As corridas descritas (e documentadas) no Born To Run e em documentários filmados, são uma tradição muito antiga, pelo que existiriam no tempo do Artaud.
O Born To Run é essencialmente um best seller consciente e simples. Capta o espírito da época, a viragem dos americanos para os great outdoors e a corrida que ocorre ciclicamente sempre que há uma crise económica (o livro começa com este reparo, não sei se bem sustentado). Os escritos dispersos de Artaud, compilados neste livro editado pela Relógio D’Água, são ensaios filosóficos, antropolígicos, prosa poética, diário íntimo. Nem todos se pautam pela confusão mental (o Artaud não batia bem, é sabido, desde puto que andava internado em hospícios e era uma pessoa dada a achaques). Todos os seus textos, dos os malucos que tentam transmitir uma revelação indizível pela linguagem e conceitos ocidentais pela força de imagens abstractas e os outros mais racionais, são muito bons e são literários, algo que os do Born to Run evidentemente não são nem aspiram a ser. Não se compara o nível de profundidade com que Artaud tenta mergulhar na psyche e nos mistérios dos índios Tarahumara. O que acho interessante é que nem uma só vez refere a corrida, a proeza atlética de índios que, semi-descalços, faziam centenas de quilómetros na acidentada e hostil sierra madre. Artaud vive fascinado pela compreensão, pelo espírito, procura perceber os segredos Tarahumaras, crenças pagãs em estado puro, um tesouro atropológico em estado puro, mas também não o analisa com olhos científicos, procura vivê-lo ele mesmo, experienciá-lo.
Há comportamentos comuns que são interpretados de forma totalmente distinta por McDougall e Artaud, onde um vê timidez o outro vê uma segurança tão absoluta que nem se dão ao trabalho de ser sociáveis.

McDougall encontra um elemento comum: a corrida. O livro retrara uma corrida entre os índios e alguns corredores americanos (Scott Jurek por exemplo). Nem por isso deixa de fazer um retrato demolidor da sociedade ocidental, da ganância dos fabricantes de ténis, do cinismo em explorar mediaticamente os tarahumaras em corridas americanas, na razão que os índios têm em não confiar no homem branco etc. Aqui as perspectivas tocam-se, como praticamente todos os relatos com o Bom Selvagem de Rousseau em pano de fundo. Ambos elogiam a sociedade sem posses, a partilha total, a ausência de dinheiro. A crítica de McDougall está ferida de uma certa hipocrisia, uma vez que ninguém deve ter ganho mais dinheiro com os tarahumaras do que ele próprio, ao falar sobre eles. Mas McDougall relata uma corrida conjunta, uma actividade que é partilhada por atletas de elite. Para mim, esse aspecto diz-me mais do que densas especulações místicas que procuram ver padrões no 3 reis magos e em formas geométricas recorrentes por todo o globo e que, essas sim, são um sintoma de doença: o procurar atingir algo pelo pensamento e pela iluminação, como se descobríssemos uma chave mágica que nos permitisse passar de um estado para outro, num salto de fé sustentado. Os monges budistas incluem na sua meditação um aspecto físico, seja nas poses, na respiração, na repetição de mantras, nos rituais que envolvem essa meditação, nos jejuns, nas longas caminhadas e até, no caso dos monges maratonistas japoneses, maratonas diárias. Li recentemente o Tao e o poema / texto não tem uma lógica verdadeiramente ocidental, consiste em imagens fortes e fragmentos de pensamentos não desenvolvidos. Vejo a verdadeira religião assim, nos peregrinos, nas rezas repetidas, no manuseio do rosário, na obediência formal a rituais.
Antes, tal como Artaud, eu próprio pensava que uma fé aceite sem conflito, uma fé que não implicasse o derrubar de muros lógicos e uma revelação que nos fizesse passar do ponto Ateu para o ponto Crente, não teria qualquer valor, era apenas algo ritualístico e mecânico, uma herança cultural como ser do Benfica ou do Sporting ou não ligar a futebol. De há uns bons para cá e depois de começar a correr, deixei de pensar assim. Convenci-me, naturalmente e sem esforço, que tudo o que esteja acima do nível de apreciação do cão (que um cão entendesse e apreciasse ou sentisse) é uma camada superficial, exclusivamente humana, não desnecessária por princípio, mas que nunca será uma ferramenta para atingir o que quer que seja de profundo, coisas como a compreensão da felicidade ou o seu oposto, a crueldade e a bondade,  o medo, a alegria, a companhia, a brincadeira, a curiosidade, a lealdade, a paixão e devoção, a saudade, o hábito, a boa comida, a paz, a ameaça etc. E o desvio começa nas perguntas que se fazem, mais do que nas respostas e na forma das obter. O desvio começa nos “porquês?” que não têm resposta. Um cão sente, mas não procura explicar o sentimento ou atribuir-lhe um significado. O famoso cão japonês Hachikō esperou o seu dono falecido todos os dias na estação de comboio, durante 9 anos até morrer, sendo a sua lealdade venerada no japão.
Hachiko_funeral

De fora, poderemos considerar irracional e mesmo estúpida  a lealdade cega quando tudo indicaria que o dono não voltaria mais. Indiferente à linguagem, nenhum humano vivo poderia explicar a Hachikō que o dono já não voltaria. E assim nasce uma fé que, para o cão, não tem nada de sobrenatural, está no plano terreno e ritual. Artaud, munido de todo o seu arsenal intelectual potenciado por uma dose de loucura fervilhante, está mais longe de ser um Tarahumara do que um escritor americano de best sellers que se apaixonou pela corrida. Os apontamentos de Artaud parecem arranhões e tentativas desesperadas de arrombamento de uma porta que não conseguirá abrir para correr no espaço livre como faz um cão quando é solto depois de estar num cativeiro forçado. E ambos  (qualquer escriba) estão mais longe do americano que gosta muito de correr como Scott Jurek que é parco de palavras e que partilha e entende o ditado índio tarahumara: “quando corres na terra e com a terra, podes correr para sempre”.

.scott-jurek1

(decidi postar este nos meus Diários de corrida por isso as minhas desculpas a quem segue os dois)

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3 thoughts on “apologia do cão

  1. Provavelmente o Artaud vivia no seu cativeiro particular, e nunca conseguiu alcançar aquela dose necessária de libertação empírica que ala os Tarahumara e os depreende dos novelos da civilização.

  2. Um bocadinho frágil. A suspensão do porquê dava pano para mangas: se eu te mandar um bufardo no focinho não é necessária qualquer razão, certo? Quanto às bases que tens para afirmar que o Artaud “está mais longe de ser um Tarahumara do que um escritor americano de best sellers” – parecem-me nenhumas. Conheces algum Tarahumara? Quem te garante que eles, como o Artuad, não vão febris de pensamento poético a tentar combater o racionalismo enquanto correm centenas de quilómetros?
    O texto saiu-te um bocadinho misantrópico: viva o animal que corre, abaixo a ‘camada superficial’ da humanidade…

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