misoginia qb

Já escrevi em tempos um texto a propósito do quanto desprezava o “espírito de caserna”, aquele comportamento meio símio (pior do que símio) dos homens quando se juntam todos e encenam as macacadas de macho que vão do comentar quão feia e gorda é fulana tal, ao piropo, a mentiras primárias sobre as próprias conquistas, a exibição do corpo (sempre achei um bocado paneleiro a cena de andarem de pila à mostra nos chuveiros e a dar com as toalhas no cu uns dos outros, mas ok), à divisão em tudo – rapazes para um lado, raparigas para o outro etc. – a coisas mais extremas como assédio. Não se confunda isto com ser homem, bronco e básico, coisa que muito aprecio e me relaxa. Por exemplo, eu diluo-me na perfeição no balcão de uma tasca a comentar bola, comer tremoços e beber minis, sempre o fiz desde que vim viver para Lisboa, porque em parte significa a minha emancipação, poder beber, fumar, diluir-me no anonimato. Não, o espírito de caserna é pior, os rapazes quando estão juntos, os homens em geral, podem transformar-se nuns monstros Esse fenómeno sempre me passou ao lado, nunca o senti, fiz muita merda, mas sempre sozinho. Nunca me deu para aquele estado excitado em que ficam os tipos quando apanham uma piela e começam a “fazer merda” numa espécie de competição. E isto chega a extremos desde cedo. Estava ainda na escola primária quando vi colegas, putos da 3ª e 4ª classe, agarrarem numa menina e despi-la, no recreio. Muitos participaram. De facto, creio que tudo partiu de um só, um que contamina os outros com o seu estatuto de força. Eu fiquei à distância, a sentir-me enjoado e talvez essa experiência entre as outras do género, mesmo pelo facto de ter um pai autoritário e forte e uma mãe que era o oposto, tenham criado em mim esta tendência na adolescência: um romantismo exagerado, uma ausência de agressividade que acabava por redundar numa timidez e que me tornava extremamente ineficaz no campo amoroso, isto, apesar de ter muitas amigas e ter admiradoras. Recebia uma tonelada de cartas no dia de s.valentim, pelo menos 5 ou 6, de anónimas, ou seja, miúdas tão atrofiadas como eu, de modo que assim ficávamos, cada um no seu canto, para sempre, enquanto que os pragmáticos curtiam na pista do Túnel. Consigo contar mesmo várias situações em que eu poderia ter beijado uma rapariga e a minha timidez excessiva me confinou a uma existência de sonho. Ouvi que se aproveitavam de mim (era bom aluno), coisas como “elas fazem de ti o que querem”. Até o meu pai um dia me veio relatar que um professor lhe disse isto, quando eu me tinha limitado a ajudar amigas minhas a entender um exercício… Não era normal, no meio. Mas em várias ocasiões senti na pele o egoísmo da mulher bonita, a mulher que aprecia atenção e companhia, sem que isso implique que esteja interessada e essas experiências, ou outras, como os jogos e, muito especialmente o admirarem, consciente ou inconscientemente, a força e o estatuto alfa do homem, mesmo um básico, mau, superficial, me fizeram a mim também perder parte da inocência e da idealização em prol do pragmatismo, eficácia e da minha sanidade mental. O que não significa que não tenha perdido o pé bem depois disso e que a minha actual namorada e mãe da minha filha não me tenha reduzido a um adolescente nos primeiros 4 ou 5 encontros até eu conseguir fazer as substituições certas ao intervalo e reforçar o ataque, acalmando a equipa e metendo ordem no meio campo. O que não mudou foi meu asco ao espírito de caserna, apenas se lhe juntou um maior tédio gerado pelos clichés femininos, aqueles que estão nas capas das revistas cor de rosa e, pior, nos blogues cor de rosa, onde até ganham vida e interactividade, em vez de serem só uma capa num quiosque.

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3 thoughts on “misoginia qb

  1. Tu e as granadas, rapaz… Num texto em que vilipendias o ‘espírito macho’, sai-te como arma de ataque “sempre achei um bocado paneleiro”… Espero que percebas a incongruência.

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