momento

Ontem encontrei-me com a minha agente Anja na Feira do Livro. Foi bom reencontrá-la, mesmo numa noite em que Lisboa estava em estado de sítio devido ao Santo António. Eu gosto muito do popular e das sardinhas e do bairrismo e vivi colado a Alfama uns bons 4 ou 5 anos, mas dá-se o caso de ser precisamente a noite de Santo António a menos representativa do espírito da coisa, devido à enchente surreal e perigosa de forasteiros e garimpeiros com negócios improvisados. Felizmente, o Santo António distribui pessoas pela cidade como um sistema linfático distribui eczema numa reacção alérgica: é só do pescoço para baixo ou da cintura para cima ou, como quem diz, pelas zonas típicas. No jantar deu para fazer um pequeno balanço. Já não pensava em mim enquanto escritor há praticamente um ano. Não que me tivesse esquecido, pelo contrário, até me deu alguma angústia. A corrida (como calculam, a Anja apanhou uma valente seca) preencheu toda a minha necessidade de escape e é um pouco a antítese da escrita. A escrita é uma coisa algo mórbida. É a morte, a não-vida. Se estamos a escrever, não estamos a viver. Tendo uma hora livre, prefiro ir correr e ver o sol a nascer de Monsanto, ou prefiro passá-la encafuado à frente do PC, o mesmo tipo de PC perante o qual vou passar 8 horas do meu dia quando chegar ao escritório? Mas talvez – e esta conclusão germinava em mim há algum tempo – a questão se possa resolver arejando o processo de escrita e abordando outros temas, abandonando a primeira pessoa, encarando a escrita como um ofício e não como arte. Montar pacientemente um puzzle, um castelo, uma intriga. Se eu gosto genuinamente de ler fantástico, ficção científica ou terror, se tenho 800 mil influências de cultura popular como videojogos, bd, tv… então porque é que é o meu subconsciente me vê como um autor do género, como dizer… artista? Poeta? Um Kafka, Pessoa, Bukowski, Becket, Knut Hamsun? E se eu fosse mais um Stephen King ou um George R R Martin, mesmo que mais modesto e limitado? Os meus primeiros contos e esboços de romances eram fantástico / terror. O género pessoal e intimista em que autor e voz narrativa se fundem para criar uma persona derivou em parte dos blogues, de escrever em blogues e de desenvolver-me aí. Por outro lado, foi alguma identificação com um certo tipo de escritor como quando um músico jovem tem por ídolo o Kurt Cobain e não propriamente um pacato Paul McCartney. É uma coisa pueril até. Não foi coincidência a cabeça ter-se-me esvaziado pouco depois de saber que ia ser pai e ainda mais depois de ser pai. Não admira que a Anja tenha encontrado outra pessoa, com dez quilos a menos, mais de 1000km corridos e com fotos de bebé no telemóvel. O processo de escrita mórbido em que se esgravata e esgravata a cela irrespirável de ar estagnado do próprio ser (eu, eu, eu, eu!), mesmo que o resultado possa ser irónico e resplandecente, cansou-me, mesmo que eu não tivesse desistido conscientemente. É como se estivéssemos a arder e a escrever com o fumo de nós próprios, a sublimar-nos. E eu penso: e se eu conseguisse escrever como corro? Isto é, e se eu fosse construindo uma coisa, voltada para fora, de sentidos alerta, receptivo, um ritual em que só tivesse de estar atento e aparecer lá à mesma hora xis vezes por semana, sem pensar na meta? Uma postura mais de artífice, obreiro, uma pessoa que conta uma história, mas em que é um intermediário e não parte dela.Talvez assim pudesse encarar a rotina da escrita como uma viagem para fora e não como um colapso para dentro.

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3 thoughts on “momento

  1. Há vários escritores que passam por processos semelhantes: comparava um (nem vou dizer qual é para não te sentires ofendido) ao Dominguez: muito drible, muita finta curta, técnica a rodos, mas não passava disso. Depois começou a usar a técnica em prole da história, a usá-la apenas se estritamente necessário.

    Um bom exemplo para ti podia ser o McCarthy: o homem é um obreiro, não um lírico, mas o génio nunca deixa de brilhar.

  2. Claro que podes sempre optar pela ‘escrita como ofício’, virada para fora como um umbigo mal cozido. Resta saber se daí resulta alguma coisa que valha a pena ler.

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