medo da morte

Este Sábado, estreia da Júlia na praia. Calhou ser numa praia da zona Oeste, um pouco a norte de Santa Cruz. Entretida a família com a gorducha a testar a areia, o sabor da areia, a consistência da areia etc., resolvi dar um mergulho sozinho para arrefecer. Naturalmente, sendo uma praia daquela zona, estava bandeira amarela numas zonas e vermelhas noutras. Aquela zona caracteriza-se por ter bandeiras vermelhas a sério. Uma bandeira amarela ali é uma bandeira vermelha na maior parte das praias do país, excepto casos como a praia norte na Nazaré ou a Praia Grande em Sintra. Uma pessoa olha para o mar e mesmo não estando este agitado (como era o caso), a praia é uma rampa íngreme em que se esmagam ondas de considerável dimensão num turbilhão permanente. A única hipótese de tomar banho é deixar-se levar para fora, um pouco para lá da rebentação, mas não demais, e para sair da água é preciso descontrair e ir numa onda. Vejo 3 ou 4 heróis a tomar banho juntinho à praia, isto num dia com 50 mil veraneantes a morrer de calor que nem molhavam mais do que os tornozelos, tal é a sabedoria do povo. Entrei depressa e claro, fui rapidamente puxado para fora, andei por ali feito rolha de cortiça a boiar, depois voltava para terra, refazia a brincadeira… estava a ser giro. De repente um dos tipos na água, na casa dos 40 e corpulento, grita “AJUDA-ME!!!!!” com uma voz e uma expressão facial que ainda me causa calafrios. Pensei “é agora pá, é um daqueles momentos” e tudo entrou em camara lenta. O tipo não estava a gozar, na cara lia-se um grande “NÃO QUERO MORRER!” Apesar de saber nadar, sei que tentar tirar um tipo enorme, em pânico, da água, numa zona de rebentação como aquelas é potencialmente chato. Ele pode agarrar-se e não largar mais, arrastando outra pessoa consigo, neste caso eu. No momento em que estico o braço para o agarrar o refluxo de água do mar devolve-nos à praia e ele sai pelo próprio pé, titubeante e assustado. Perguntei se estava bem e ele, meio envergonhado disse que sim e zuca, saiu discretamente da zona da água para o qualquer guarda-sol com a sua família. Aquilo não foi um ajuda-me de alguém que está cansado e a sentir-se puxado. Foi um ajuda-me desesperado e súbito de alguém que perdeu o pé de repente e viu a vida a andar para trás ou, neste caso, para o fundo. Aquele imbecil não sabia nadar. Não sabia nadar sequer. E contava que pudesse tomar banho com água pela cintura naquele mar, apesar de, pela pronta reacção com aquele AJUDA-ME desesperado na fracção de segundos em que se sentiu puxado, também ser nítido que estava consciente de que não queria morrer e tinha medo do mar. Estranho. Saí da água também. Tudo isto durou uns 10 segundos apenas, foi estranho por isso, ver assim chapado numa cara o medo da morte. Deixou-me indisposto.

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5 thoughts on “medo da morte

  1. Há mares e mares. Para se aventurar mar adentro em certos locais , ou se é um excelente nadador e bastante temerário, ou completamente inconsciente.
    A esse, talvez lhe fique o susto para perpétuar futuras investidas no desconhecido, que agora já conhece um pouco.
    A ti, ficará sempre o what if, daqueles dois segundos em que o refluxo das ondas vos empurrou para a rebentação…
    Quantas vezes na prévia mar e praticamente sem ondulação, a corrente te puxa para trás quando te debates para ir para terra? Quantas vezes não tens que boiar, respirar fundo e compassadamente até te acalmares e só depois retomares com a cabeça fresca o exercício de voltar… E nem sempre é fácil.
    XX.

  2. O meu pai diz uma coisa muito acertada. Só morre afogado quem sabe nadar. Esse anormal não sabia nadar, o que faz com que ele seja só … um anormal. Ainda no outro dia vi um assim. Um mar imenso e ele, feliz e contente, na renbentação, de costas para as ondas, com a filha ao colo… não fosse o meu marido a agarrar a miúda e lá se iam os dois.

  3. Maior é o medo quando é com os nossos. Eu sei nadar, os meus filhos também, e foi no Algarve, em Pedras d’El Rei, que apanhámos o maior susto, num mar quase insuspeito. O mais novo, na altura com 10 anos, só gritou: “Mãe, não consigo sair da água!” e lá fui eu. Nem imagino que cara fiz, aí foi medo da morte também, mas não da minha. Ia dominada pela certeza de que o mar não mo levava, ou então levava os dois. Agarrei-o (por um braço? uma mão? o cabelo?) e arrastei-o a nado. Acho que bebemos muita água, mas serviu-nos de lição: não há mar nenhum que seja de confiança.

    1. a minha mãe salvou-me de morrer afogado numa piscina quando devia ser um pouco mais novo do que isso. Lembro-me como se fosse hoje da minha resignação no fundo da piscina e dela, de óculos escuros postos, a mergulhar a pique para me agarrar. Ficou traumatizada! durante umas semanas ou meses ficou com pesadelos.

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