2001 – A Space Odissey, livro e o filme explicado

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Terminei ontem o 2001 do Arthur C. Clarke e aproveitei para rever o filme homónimo de Stanley Kubrick em paralelo. Kubrick e Clarke trabalham juntos no argumento / livro e debateram ideias. É curioso ver como o resultado final foi tão díspar. Se o filme de Kubrick é contemplativo, lento, abstracto ao limite (especialmente a soporífera sequência final) e deixa mais perguntas no ar do que respostas, o livro de Clarke é denso, mais explícito, tem cenas, diálogos e explicações que não existem no filme, algumas delas fundamentais para dar densidade ao protagonista. Penso que de todos os filmes de Kubrick, o 2001 foi o que envelheceu pior. Os principais problemas foram o evidente deslumbramento com os efeitos visuais que envelheceram mal e a incapacidade para dar densidade ao protagonista Dave Bowman. Há sequências intermináveis em que é apenas suposto admirarmos a tecnologias das luzes da nave ou flutuar no espaço. São cenas que em 1972 podem ter deixados os expectadores de boca aberta, como nos deixaram as cenas do Jurassic Park ou do Titanic (primeiros exemplos de efeitos digitais credíveis). Mas com o tempo, isso perdeu-se.  O filme continua um clássico, nem que seja pelas curtas e magistrais cenas de diálogo com o HAL. E apesar dos problemas dos efeitos limitados, a fotografia de Kubrick é absurdamente boa e tudo o que envolve cenários da nave espacial não envelheceu mal. Um dos eixos chave do filme é a questão da simetria e das formas geométricas e isso vê-se em vários planos magistrais, de um perfeccionismo extremo.

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Aqui uma curta lista de coisas que faltam para descodificar melhor o filme:

1- A escavação na lua que revela o monólito. Há um sinal electromagnético forte (ficam agarrados aos ouvidos). Isso era uma espécie de alarme alienígena. Deixaram o monólito na lua (os aliens) para quando os humanos se desenvolvessem e chegassem à lua, ao desenterrar o monólito, este avisasse uma base numa lua de Saturno (e não Júpiter, como no filme…)
2- É deixado claro que uma espécie alienígena deixou por todo o universo monólitos como aquele para semear vida, por se sentir só na sua consciência.
3- Depois de toda a tripulação morrer a caminho de Saturno e de Dave Bowman ficar sozinho depois de desligar o HAL, segue-se uma longa sequência ao estilo náufrago. Bowman tem de sobreviver psicologicamente a uma viagem longa e solitária a caminho de uma provável morte. Isto não é explicado no filme, mas com o HAL desligado, é impossível a Bowman entrar em hibernação e sobreviver à viagem de regresso para a Terra. Significa que o seu caminho para Saturno é um bilhete de ida. O controlo na Terra despede-se dele, inclusive. Acho essa imagem bastante poderosa. Bowman ouve música, peças de teatro, operas… não suporta o silêncio. Tem de lutar contra a loucura e disciplinar-se.
4- Chega a Saturno e é aqui que o filme de Kubrick patina completamente. No livro Bowman navega até à lua em órbita de Saturno. Nessa lua há uma oval branca com um monólito gigante no centro. Bowman, convicto de que vai morrer, conclui que pelo menos irá tentar aterrar no topo do monólito e ir ao fim da viagem. Sai no pequeno “pod” e vai relatando em directo (na realidade com um delay de 2 horas para a terra) aquilo que vai vendo. Ao aproximar-se do topo do monólito este abre-se. É um portal. As últimas palavras que a terra ouve são “my god… it’s full of stars” e nunca mais se sabe nada de Bowman. O capítulo chama-se stargate.spaceodissey3
5- Segue-se uma curta sequência psicadélica que no filme não tem qualquer organização. Suponho que Kubrick queria transmitir mundos diferentes a desfilar. No livro, Bowman, no seu pod que está controlado por forças exteriores, viaja para outro ponto do universo completamente distinto e passa por um enorme shipiard de naves espaciais todas diferentes, de diferentes espécies e que parece abandonado. Bowman sente que chegou tarde demais, que já passaram milhões de anos.
6- Depois de mais sequências algo psicadélicas que envolvem estrelas binárias, Bowman vê-se num quarto todo decorado como se fosse um quarto de hotel. Isto é sensivelmente igual ao filme. Sai do pod. Enquanto investiga os móveis, descobre que são apenas adereços. Há um telefone que não funciona. Na cozinha há produtos e marcas conhecidas, mas têm todos a mesma mistela azul conhecida. No fundo Bowman vai parar a um habitat que os alienígenas prepararam para o receber. No quarto há uma televisão e a televisão funciona. Bowman percebe que as emissões datam de há 2 dois anos, quando o monólito da lua foi descoberto. Os alienígenas prepararam aquele quarto para ele apenas com base com o que viam na televisão.

2001 A Space Odyssey movie image
7- Bowman janta e vai dormir. Não envelhece como no filme, nem se vê a si próprio mais velho em planos sucessivos. Não entendo porque Kubrick complicou a sequência final já de si puxadota no livro. Bowman adormece na cama e aqui começa a regressão até ser um bebé. A ideia é que a espécie alienígena evolui de tal forma que já não precisa de corpo material. Primeiro, deixaram o corpo biológico e passaram a viver em máquinas imortais (daí o paralelismo com o HAL) e Clarke refere os avanços na biomedicina (primeiro coração artificial etc.). Depois conseguiram desmaterializar a consciência e navegar por todas as dimensões do universo.
8- Bowman regride até ao seu nascimento e vê desfilar toda a sua existência e emoções. Essas emoções são “registadas” para sempre (como se fizessem o download) e Bowman emerge como uma Star Child. Decide regressar à terra. A cena final não é abstracta, aquela em que se vê o bebé dentro da bolha e o planeta terra. É literal. A última página do livro é confusa, mas percebe-se que esse bebé destrói todas as ogivas nucleares do mundo e que tem poderes absolutos (o livro foi escrito em 72, plena guerra fria), terminando em suspenso, mas deixando a ideia que Bowman será uma espécie de Deus para os humanos que deixou para trás.

Era um romance que poderia e deveria ser adaptado de novo ao cinema. Não tenho nada contra sequências abstractas ou surreais (adoro Lynch) ou contra cinema contemplativo ( Mallick) que nos faz ficar a olhar para imagens com toda a calma do mundo. Mas sinto que o 2001 está partido em 2 partes, os primeiros 2/3 e o último terço que parece feito bastante a correr e que parece desgarrado do resto do filme. Não é à toa que acho aquela sequência final a sequência mais soporífera do cinema. É inacreditável o efeito terapêutico que aquilo tem. Hei de experimentar se a minha filha tiver insónias… De resto, o próprio Clarke recebeu algumas críticas por “explicar demasiado”. Eu não preciso de argumentos lineares, de todo (o Lost Highway é um dos meus filmes preferidos) e consigo apreciar uma obra feita de episódios individuais, sequências, como é o caso do próprio romance de Clarke. Mas o que acho que falha no filme é a perda de empatia para com Bowman. É um filme sobre uma grande questão da Humanidade e parece-me um filme em que a humanidade ficou de fora por de repente Kubrick ter descartado o papel de Bowman para uma espécie de adereço frio. Penso que teria sido mais pungente vermos, como no romance, Bowman a abrir uma cerveja no quarto improvisado pelos aliens, apenas para descobrir com desilusão que continha a mesma mistela azul do resto das embalagens.

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6 thoughts on “2001 – A Space Odissey, livro e o filme explicado

  1. vou guardar este teu resumo 🙂
    Fizeste-me lembrar a primeira vez que vi este filme, que foi no Nimas, a minha mãe fez questão de me levar a mim, irmã e uma amiga. Não nos explicou nada, eu acho que devia ter uns quinze anos e estava na idade da estupidez.

  2. Gostei muito deste texto. Não escreveria a crítica à sequência final com o acinte que usaste, mas creio que o filme falha ao deixar pontas soltas que o deixaram pouco compreensível. Acredito que queriam que os espectadores fossem ler o livro. Muitos foram, assim como foram conhecer as valsas de Strauss ( O Kubrick fez bem em rejeitar o trabalho do Alex North para a banda sonora).

    Onde acho que acertas mais é quando escreves sobre a falta de humanidade e desatenção para com o Dave. Foi opção do realizador que quis fazer um boys movie. Sem exploração dos personagens humanos, o protagonista é o HAL. O resto são boy’s sequences com demorados planos formais centrados na tecnologia. Quase um fetish, mas quem tinha foguetões no quarto de dormir aos 8 anos entende e gosta.

  3. No fundo tudo leva a acreditar que kubrich acabou por ter o mesmo comportamento com a obra escrita que teve com “The Shining”, mais com este último que trata precisamente desse assunto, passe o termo, da obra escrita. Stephen King não teve pejo nenhum em criticar o filme que atrás do efeito de sereia do efeito visual e do suspense e mesmo terror, derrapa saindo completamente do caminho do filme: a relação entre a emersão total do escritor na obra versus a vida em família (é preciso ver que vem escrita no seguimento do sucesso de “Carrie” e num momento em que King usava para trabalhar de uma potente dieta de álcool e drogas que quase o matavam). Posso dizer que detesto “The Shining”, aprecio “2001” mas a única obra de Kubrick que me enche as medidas (género de “O Vermelho e Negro” versão grande cinema) é “Barry Lyndon”, o melhor filme dele sem mais conversas… 🙂

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