Colombo ao Sábado, heart of darkness

Às vezes penso que se pudesse gravar uma mensagem na mente da minha filha seria esta, “pensa por ti própria, sempre, desconfia das multidões”. Podia ser um pouco paradoxal, porque se ela seguisse o meu conselho estaria a pensar por mim em vez de pensar por ela. Mas vamos esquecer esse detalhe. Há mais por onde pegar. Não sei se a minha maneira de ser, fortemente influenciada pela misantropia extrema do meu pai que estava 90% do tempo em espaços públicos a apontar as aberrações do comportamento humana (e tinha razão), é muito favorável à felicidade e ao bem estar. Há dias fui ao cinema pela primeira vez em, penso que, dois anos. É verdade, passei a odiar ir ao cinema. Por acaso, não tem a ver com misantropia, mas sim com não suportar perder 3 ou 4 horas do meu dia (contando com a viagem para lá etc.) para ver um filme menos que muito bom. Mas a ocasião exigia, fui ver o Guardiões da Galáxia no iMAX do Colombo. Se é para ver guaxinins com metralhadoras, então está bem. A sogra (que é a melhor sogra do mundo, sem ironias) ficou a tomar conta dela e fomos para o Colombo num sábado à tarde. Ponto prévio: eu gosto do Colombo, não sou um desses snobes ou esnobes como dizem os brasileiros. Gosto do Colombo num dia de semana à noite por exemplo. Porque há menos gente. Não sei explicar o que se passou. Nem era dia de jogo do Benfica. Talvez fosse dos imigrantes, vi muito a comprar kits de camisolas do Benfica para os filhos semifranceses, eles invariavelmente portugueses e elas francesas com ar de nascidas no Couple Venteux lá do sítio, com direito a tatuagens e tudo. Aquilo estava à pinha. Loucura. E eu comecei com o tradicional ataque de ansiedade sempre que estou perto de muita gente de estratos culturais que me são estranhos e opressivos. Imagino sempre, não sei porquê, que vão começar à porrada ou aos tiros uns com os outros. Ah e tal, tenho preconceitos. Vão-se foder. Enquanto a A. foi ao WC perto dos cinemas, seis ciganos aproximaram-se de uma máquina de dar socos, daquelas em que há uma cena em que se dá um murro e consoante a força aquilo dá um score. Os tipos tinham pouco dinheiro via-se, estavam a juntar trocos entre eles. Fiquei mais descansado, não teriam certamente os 50 euros necessários para comprar um bilhete para o imax (foi a A. que comprou, não sei o preço, mas para mim, um LCD daquele tamanho e 3D alugava-se a esse preço) e por isso não me iam estragar o filme. Resultado, começaram aos empurrões entre eles porque um queria dar o soco e o outro queria que fosse outro. A máquina até andava de lado de cada vez que levava uma pera. Toda gente – reparei que havia famílias de aspecto quase tão normal como eu – olhavam de lado a cada CABUUM de um soco. Brilhante ideia da gestão do Colombo, colocar uma máquina incitadora de testosterona à porta de um playcenter e cinema familiar. Às tantas os rapazes ciganos foram embora. Ok, não andaram à pancada. E realmente estavam só a ser miúdos e a dar socos na máquina onde era suposto dar soc… pronto. Mas o que importa é que eram ciganos a dar socos. Mesmo que seja numa máquina, faz toda a diferença. Enfim. Se calhar tenho de pensar melhor nisto. Entro na sala de cinema, ainda a fazer piadas sobre pretos e cinemas (“o imax do colombo às escuras parece que está sempre vazio, só quando há uma piada no filme é que se vê que está cheio”) e, claro, fiquei sentado ao lado de um pretalhão enorme. Com uma namorada branca, ainda por cima, era desses. A A. fartou-se de rir. O tipo tinha os cotovelos largos. Tive de me encolher todo. Às tantas estou a comer pipocas (já que é o degredo, vamos até ao fim) e ele, juro, olhou para mim de lado e suspirou. Como se EU fosse o tipo de pessoa que  ELE não gostaria de encontrar nos cinemas. Racismo. A namorada dele foi-se embora a meio do filme e só voltou no fim. A minha não. Ahaha. Brancas há muitas, seu palerma. À saída, a minha energia vital estava completamente esgotada. Ainda tentei discutir a semiótica dos efeitos 3D do Guaxinim, mas depressa me vi impelido a fugir do Colombo o mais depressa possível. Os últimos minutos ainda tiveram o seu quê de pesadelo quando a máquina onde eu queria pagar o parque estava avariada e na outra livre estavam pessoas com t-shirts da selecção portuguesa.

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