violência

Quem quer ver o racismo bem vivo por cá, é só ler os comentários às notícias sobre os motins nos EUA na sequência da morte de Michael Brown e dos motins. Os EUA têm tido sucessivos casos filmados de violência policial brutal, muita dela com contornos racistas. A polícia nos EUA comporta-se em muitos casos como numa distopia fascista em que o cidadão é sujeito a procedimentos cegos e violentos by the book. Os videos estão aí, o contexto é este, desde o sem-abrigo desarmado abatido porque não meteu as mãos para cima, ao negro asmático que separou uma luta e foi depois sufocado pelos polícias que o prendiam apesar de deixar escapar vários “I can’t breathe”, aos polícias que chacinam o cão de um negro que eles prenderam e espancaram só porque se recusou a baixar o telemóvel com que os fotografava em mais um abuso de força, enfim, desde Rodney King e do video, a lista documentada é longa e mórbida e os resultados semelhantes.

Mudei a minha visão dos motins e da violência em protestos. Não pensava assim nos riots de LA ou quando em França explodiram os protestos das periferias de Paris. Na altura condenei e achei que se tratava de vândalos, de crise de valores e merdas dessas, pais ausentes e por aí fora. Talvez fosse mais yuppie na época. Era certamente menos maduro. Mudei de opinião. Drasticamente, só porque acrescento outra variável, que é meter-me no lugar daquelas pessoas, naquele contexto. O que eu faria? Todos estes casos parecem nascer de violência policial. Todos. Há sempre uma centelha deste tipo que incendeia tudo, às vezes é mesmo uma decisão judicial, como a infame decisão que ilibou os polícias no caso de Rodney King.

O que acontece quando a polícia, o braço armado da suposta democracia, o braço da lei e da justiça no quotidiano em que eu vivo, me elege como inimigo, desconfia de mim, assume que eu sou perigoso, desonesto e age com violência sobre mim? Qual é a minha confiança na sociedade? O que me resta quando aqueles que me deviam proteger e que têm as armas e a força, me desumanizam e tratam como “o outro”? Quando vejo um igual, um amigo, ser morto ou espancado? Quando sinto que o sistema de justiça, os tribunais, metem mais facilmente na cadeia e por mais tempo um de nós por roubar uma televisão do que um político ou gestor que roube milhões?

Nos riots de Londres já tinha mudado de opinião. À minha volta só ouvia condenações à violência, mas a verdade é que a condenação vem do sofá do conforto, da distância, do “problema é do outro”. A criatura branca tem sempre horror à ameaça de subversão, de revolução, de perturbação da ordem em que está instalado. Não consigo pensar em melhor arquétipo deste modo de pensar que as regras e regulamentos dos polícias americanos e da forma como lidam com os civis, como se despem de juízo próprio, de personalidade, de humanismo e agem como Robocops histéricos que entram em espiral de pânico quando um subject doesn’t follow the procedure.

Mete-me nojo o elogio ao “civismo dos protestos” da parte de quem é alvo do protesto. É como uma festinha paternalista, condescendente. E mete-me ainda mais asco o orgulho de quem protesta em ser bem educado ao fazê-lo. Parece que só falta um aperto de mão no fim, entre todas as partes. Acho uma encenação. Uma negação do protesto. E revelador que não lhes toca assim tanto. Que é uma encenação, um deixar sair vapor.

O que eu vejo nos motins como os de LA, Londres, Paris ou agora no Missouri, é a impotência da autoridade para controlar um incêndio social, mesmo com uma resposta pesada e quase militar (já se fala em chamar a guarda nacional). E o pânico dos instalados. E eu gosto que a autoridade seja relembrada frequentemente de que pode haver contextos em que é impotente.  Seja onde for.

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12 thoughts on “violência

  1. Desde sempre os motins são uma manifestação de mau-estar social, que se alimenta desta paz podre em que vivemos, em que os Espírito Santo e quejandos são a nata e o traficante de bairro a encarnação do mal. Há muito mais cinzento que o que imaginamos. Agora uma musiquinha à propos.

  2. Eras um beto mais ingénuo e socialmente insularizado, entretanto tens crescido. Bonito de ver, sim senhor.

    Sobre a autoridade ser impotente, devo deixar uma advertência; depende do grau de empenhamento dessa autoridade em reprimir. Como sabes, algumas autoridades pura e simplesmente liquidam as manifestações abrindo fogo de salva real sobre as pessoas.

    Dito isto, concordo com o que escreves aqui, ou quase. Cometeste o erro de incluir os Riots de Londres como manifestação. Não foram. Esses consistiram em vandalismo puro e com o objectivo de pilhar lojas. O erro, já admitido pela Metropolitan Police foi esse mesmo, começaram a tratar da sublevação como se fosse uma manifestação política como a dos mineiros nos anos 80. Não foi.

    1. Jorge, mas a faísca dos riots de londres foi a morte de um gangster qualquer. Não vejo grande diferença entre esses e as pilhagens dos riots de LA depois do caso Rodney King. Não era propriamente uma manif, era pilhagem de lojas, incendiar carros, espancar pessoas…

      1. Compreendo a tua leitura, vi pouco sobre os motins de LA (era demasiado novo). li algumas coisa por alto mais em relação ao julgamento dos polícias que espancaram o sr. King do que à reacção inorgânica que se viveu depois nas ruas e que assumiu a forma que descreveste. O que quis dizer foi que essa faísca tinha uma motivação de tipo “político”, inscrevia-se na tradição de violência inter-racial que é antiga nos EUA. Acredito que alguns políticos ao nível estadual e federal, repetiram os protestos ligados a estes combates pela social equality e racial discrimination, mesmo tendo o cuidado de condenar a violência que não terá sido brincadeira. Os de Londres foram diferentes, aquilo começou pelos yobs e chavs da suburbia mas evoluiu para o crime puro e simples sem outra motivação que não o ganho patrimonial. No FB os tipos combinavam hora e ocasião para pilhar loja x e Y. Depois alastrou estranhamente à classe média teenager. Assim, ficamos surpreendidos ao saber que uma jovem filha de um banqueiro roubou cones de gelado em Piccadilly. A diferença observa-se nisto; nos EUA houve políticos que perante o motim falaram sobretudo dos problemas raciais, em Inglaterra não houve um. Lembro-me de assistir ao debate nos Comuns- que foram chamados de urgência porque estavam em recesso – para discutir a crise. Nenhum (e estive atento aos backbenchers mais antigos do Old Labour) se levantou para falar de problemas sociais. Apenas se discutiram as formas de reagir e reprimir, o papel do governo na gestão da resposta etc…Lembro-me que de entre os mais exóticos dry tories se pediu exercito na rua.

  3. a regulamentação das manifestações é a primeira forma repressão destas, isso parece-me normal, é a forma mais pacífica de evitar a crítica da sociedade, o problema é que as ditaduras sempre tomaram a forma de opinião pública, conseguindo voltar a sociedade contra si própria.
    um presente:

    1. Em democracia não deve parecer normal reprimir manifestações. O que será normal é a repressão de crimes. Em países liberais as manifestações são mais regulamentadas pelos lideres de quem as organiza (quando os há) do que pelas autoridades, que normalmente se devem limitar a regular o trânsito, impedir violência sobre as pessoas, destruição de propriedade ou outros crimes de delito comum.Em suma, assegurar que se realizam dentro das baias legais que impedem por ex uso de armamento.

      1. normal é aquilo que é dentro da norma, não significa que se concorde, e desde sempre que se reprimiram manifestações (reprimir também é a limitação do efeito, não apenas a proibição). aliás transformar uma manifestação numa passagem de rebanhos que apenas afecta os automobilistas é uma das maiores vitórias de quem quer reprimir manifestações.

        em Portugal temos tido exemplos gloriosos de como travar manifestações ainda na forja, reunindo com directores de jornais a bem da ordem pública, carregando sobre multidões muito pouco homogéneas para criar reflexos de pavlov nos manifestantes pacíficos, usando redes sociais para partilhar contra-informação anedótica mas eficiente, não é necessário o refúgio nas baias legais, estamos no século XXI em Portugal.

  4. Bem gostava de saber quem é que anda a reunir com diretores de jornais e a ordenar cargas policiais selectivas para causar reflexos pavlov. Acredito que por exemplo, os apoiantes do governo usem as redes sociais para publicar o que descreve, assim como os promotores de movimentações que o contestam. Sobre as baias legais- são um refúgio sim e essencial de todos. Felizmente temos, com poucas excepções, sabido isso quando nos recusamos a usar a força como se fosse uma forma desejável de expressão de interesses. Inquieta-me ler que as autoridades possam fazer o que diz. No passado e em Portugal, fizeram-no por exemplo no bloqueio à Ponte 25 de Abril aquando dos últimos anos do cavaquismo quando a polícia permitiu acesso selectivo ao garrafão da ponte por parte de agentes da JSD que distribuíram papeis volantes publicitando a desmobilização dos automobilistas dos protestos.

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