bem vindos ao futuro

edit: alterei a parte em que remetia um link para o Espumadamente pois o texto dava a impressão errada que o mesmo fez parte da manobra de marketing, quando de facto queria apenas linkar para o seu post que a denunciava.

Vem isto a propósito de jornais como DN divulgarem o video falso do tipo a correr para o tornado como se fosse verdadeiro. Que as pessoas divulguem vídeos virais falsos como se fossem verdadeiros, com efeitos digitais ou campanhas publicitárias disfarçadas etc., ainda percebo e já me habituei. Há coisas  bem piores. Por exemplo, não me habituei  à ideia que milhões de portugueses acham mesmo que o Fernando Pessoa escrevia frases motivacionais à Paulo Coelho para lhes alegrar o dia. É uma guerra em que não me meto desde 1999, de cada vez que recebia o e-mail da seringa com sida nas cadeiras do cinema, da ninhada de cães para dar ou do transplante de medula. Cansei-me do “mas pode ser verdade, não sabes” que ouvia de volta quando, teimosamente, coleccionava os factos que provavam que aquilo era falso, por exemplo, que os próprios já me tinham enviado a foto daquela pessoa desaparecida, mas com outro nome e outros contactos e que se eu quisesse aborrecê-los, podia editar os contactos, meter lá os deles e fazer forward. Não vale a pena. As pessoas gostam de ver reforçados os seus preconceitos e ver confirmados os seus medos ou fantasias ou sentirem que salvaram a vida a uma criança desconhecida com um botão de like. É uma lição que vale a pena fixar. E hoje, o banal real ou a ficção assumida já não serve, não tem interesse, tem de ser tudo amplificado por uma manobra qualquer de ilusão, sendo que a fama cibernética é dinheiro em 2014. O custo e danos de reputação de se descobrir um embuste são tão irrelevantes num contexto em que a ética desaparece e a memória também, ao ponto de vermos que há empresas que aceitam de bom grado um pouco de má reputação junto de uma minoria em prol de projecção mediática gratuita nas massas. Até aconteceu aqui nos blogues, conforme relatado aqui pelo Espumadamente, quando um inner circle qualquer promoveu activamente um livro de um amigo / colega, um Luís Carmelo, com a notícia falsa de que uma jornalista tinha sido raptada. Na discussão que se seguiu depois, os que acharam aquilo duvidoso foram acusados de terem pouco sentido de humor. Tudo bem. Para o Luís Carmelo, ficar registado na memória de muito poucos como eu por isto foi mais do que compensado por ter vendido meia dúzia de livros a pessoas do tipo das que partilham mensagens motivacionais do Einstein em brasileiro. Tudo bem. Se Orson Welles sofreu pelo embuste da invasão de marcianos e que era em si uma sátira brilhante à credulidade das massas, hoje os embustes são inconscientes, mecânicos ou com fins meramente lucrativos. Hoje são vídeos virais, ontem eram leões a comer pessoas num circo romano. O que me preocupa é quando os media oficiais fazem o mesmo, não só reforçando a sua galopante redundância, como activamente demitindo-se do papel de informar, ao desinformar e amplificar informação falsa. Aqui, a notícia interessante poderia ser a falsidade do vídeo. Era isso que traria relevância ao jornalismo, ao mostrar que sem media oficiais ficamos entregues ao caos e à desinformação e que afinal eu preciso deles, não posso ficar entregue às mentiras da internet. Mas afinal não, chegámos ao ponto em que os jornalistas não se dão a 60 segundos de trabalho para validar uma informação, que foi o que eu demorei a descobrir que o vídeo era falso.  Aqui preocupa-me porque o comportamento, mesmo a nível de gestão pura e dura, de lucros, de preservação do seu papel, é suicida, é auto-destrutivo. Seja para o jornalista que afinal é um mero gestor de conteúdos que se limita a postar links (é pago para isso?), seja para o jornal em si. Talvez isso explique porque li há dias uma brilhante conclusão da parte de um jornalista: “o Japão é o país do mundo com a população mais envelhecida, no entanto, também é o que tem maior esperança de vida”. Esta decadência, por vezes com contornos engraçados, outras vezes nem por isso, preocupa-me porque é um espelho de uma decadência civilizacional objectiva e não relativa. É um sinal de perigo, de que posso estar num caudal histórico a caminho de umas cataratas para trevas que ainda não vislumbro.  Hoje é um vídeo parvo, ontem uma conclusão de pessoa sem formação estatística elementar, amanhã são as imagens de uma operação militar qualquer que afinal ocorreu há 4 anos noutro continente e daqui a 5, 10 anos para me justificar uma intervenção militar do meu governo. Não existe contexto cronológico e verdade, tudo uma nuvem de um gigantesco eterno AGORA em que é mais barato digitalizar notícias do nada, receber videos dos smartphones dos users e fazer copy paste da internet do que efectivamente ter jornalistas a ver, a registar e a analisar as coisas com uma visão crítica, a testemunhar. Dá a sensação que, como li há tempos numa boa piada, o 1984 do George Orwell não foi encarado como um aviso, mas sim como um manual de instruções.

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One thought on “bem vindos ao futuro

  1. um pouco a propósito disto, ainda esta semana discutia com uma amiga polaca a qualidade dos telejornais portugueses vs. polacos. ela estava admiradíssima com os nossos telejornais e com a sua baixa qualidade de verdadeira/boa informação. e eu percebo essa admiração infelizmente. eu não conheço os serviços informativos na Polónia, mas nem é preciso ter um termo de comparação para perceber que os nossos são fraquíssimos.

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