venham comigo

Estou no Febras, Baleal, Peniche, peço um Kopke reserva para acompanhar a costeleta de novilho. Mais do que os pedaços de gordura suculenta da costeleta, devoro o Shadow & Claw de Gene Wolfe. A sua escrita transporta-me para fora dali. Faço sinal: “mais um bushmills, duas pedras de gelo”. Estou mergulhado no seu universo fantástico e ao 2º bushmils após 1 garrafa de kopke, nada me parece real. Decido levar a sensação ao extremo. Vou para o mar, de havianas novas que comprei. Os meus pés enterram-se na areia húmida. Vejo o mar apesar da lua nova, ténues reflexos da luzes da estrada e do bar do bruno. Continuo até pisar areia lisa, dura e molhada. Vejo a via láctea por cima de mim e a espuma das ondas ,todo o seu clamor, a envolver o meu campo de visão. Sinto-me no planetário. Está tão escuro que não vejo os meus pés e o chão, o que apenas faz parecer mais real a ilusão de estar a flutuar num sonho. Vejo um bar à beira mar e caminho para lá, com o capuz metido na cabeça. Entro, subindo as escadas, vindo da praia. Ninguém repara. Peço um uisque e sento-me numa mesa cá fora, com boa luz. Há uma americana com focinho de raposa a contar uma história lenta a dois rapazes portugueses. Eles ouvem, fingem-se interessados e preocupados. Concentro-me no livro. À minha direita, três estrangeiras, provavelmente alemãs, brincam com os smartphones. Peço mais um bushmils, sento-me, leio. Estou tão mergulhado na história que mesmo que alguém tivesse estilhaçado as muralhas do meu mundo, eu teria apenas olhado com pasmo, com um “deixem-me em paz”. Depois deram slides das férias dos campos de surf. Aqui, fiquei parado a observar. Eram fotos, projectadas num ecrã gigante, de um dos muitos surfcamps de PEniche. Na plateia, constituída integralmente por estrangeiros, na maioria alemães e ingleses, muitos risos e palmas aquando de uma foto de alguém mas preponderante no grupo a cair de chofre nas ondas. Risos e mais risos. Sai ao 3º whisky e caminhei junto ao mar, os meus pés na areia molhada. Lembrei-me do meu pai, da minha mãe, nesta mesma areia, dos meus cães soltos a correr sprints ilógiciso em todas as direcções, como se obrigados a tal pelo espaço vazio. As pedras na areia da maré vazia, pedras que estariam debaixo de água e das ondas dentro de umas horas. Fiz-lhes uma festa. Um carro parou num promontório, máximos acesos a iluminar a espuma branca das ondas. Eu, recortado pelos faróis, encapuzado, devia-lhes parecer exactamente o que eu sou, tanto que desligaram as luzes quando me aproximei do carro.

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