influências, influências

Ontem tive uma leitura épica, não há dúvida, metido em esplanadas de bares animados, exposto ao vento húmido do mar, de capuz enfiado até às orelhas. Cheguei a sentir-me tão transportado para o universo do Book of The New Sun que toda a minha envolvência parecia uma extensão da história. Senti-me tão bem nesse, neste, universo, que quando cheguei a casa até pensei que tinha coerência para escrever um texto, apesar dos 3 ou 4 bushmills (mal servidos, diga-se). Borges é reconhecido como a grande influência de Wolfe para o Book of The New Sun, uma influência que não sou capaz de reconhecer pelo meu parco domínio da obra de Borges. Eu vejo duas outras grandes influências. O que são influências? Se calhar Gene Wolfe nunca leu Boris Vian. Duvido que não tenha lido Kafka. Não estará tudo ligado? Aposto que se googlar bem, encontro algures que Kafka influenciou Borges e que o Vian foi influenciado por todos e nunca influenciou ninguém a não ser eu próprio quando escrevia crónicas da família sem metáforas. E se calhar foram todos influenciados por Homero e Shakespeare. E Cervantes. Mas aqui no Book of The New Sun há dois aspectos que me saltaram à vista e se conjugaram com o meu conhecimento e a minha experiência literária. Porque, o que é experiência? É co-nhe-ci-men-to. Jorge Jesus sabe e sabe que Paulo Rego vê a senhora a chorari enquanto que para o néscio o quadro é apenas um gatafunho. Eu vejo a senhora a chorari. Primeira ligação com Kafka, a mais relevante, é o espaço físico da cidade de Nessus conter distâncias que podem ser, narrativamente, infinitas, como num pesadelo estranho. Severian está no ponto A e quer ir para o ponto B, mas nunca lá chega, porque é desviado para C, D e E ou fica simplesmente retido, à maneira do Castelo de Kafka. A cidade de Nessus tem uma muralha enorme e são proibidos edifícios na proximidade da mesma. A muralha é tão grande que no horizonte, Severian a confunde com as nuvens negras de uma tempestade que avança. Os episódios sucedem-se e estão ligados a personagens e cada parte é uma espécie de conto, os capítulos têm normalmente o nome da personagem mais relevante ou de uma parte da cidade. Enquanto que numa obra como o Dune de Frank Herbert (refiro-a porque foi o livro que li antes) tudo está interligado e faz parte de um edifício complexo e piramidal, em Wolfe há uma liberdade e linearidade própria das histórias infantis. Tudo se sucede e apaga para dar lugar à próxima situação depois da próxima curva. O mundo é geralmente hostil e contém armadilhas, duplos sentidos, traições. Há uma opacidade burocrática e o grande líder, o Autarch, é tão misterioso e distante como um Deus. As suas decisões são completamente imprevisíveis e aleatórias. Severian é um produto deste sistema, pertence a uma guilda de Torturadores que vive numa parte velha da cidade e para o cidadão comum, a sua existência é lendária e não algo real, mas mesmo Severian acaba por não se encaixar no papel da sua guilda. O mundo está cheio de rituais, de leis estranhas, cruéis. Quanto a Vian, concretamente o Espuma dos Dias, a semelhança vem das poderosíssimas metáforas e da liberdade na construção do universo. Mas se em Vian isso é encarado como uma liberdade poética, digamos assim, surreal, em Wolfe é realista. O futuro, muito depois da antiguidade em que vivemos agora, é como uma idade das trevas medieval, mas polvilhada de uma magia, com base científica. Assim, é possível viajar no tempo e entre estrelas apenas com o alinhar de espelhos numa torre e vemos uma espécie de mago explicar a teoria da relatividade de Einstein versão magia. É possível a existência de jardins temáticos que estão encantados por um feitiço que por vezes fixa um visitante ao próprio jardim para ele servir de atracção aos próximos visitantes. É possível a existência de um lago de águas castanhas que conserva os mortos eternamente e de um barqueiro que os repesca. Talvez tenha vindo daqui a minha ligação com Vian e o nenúfar. Um duelo à morte é travado com recurso a plantas venenosas das quais retiram as folhas que são atiradas como facas. As plantas são colhidas na proximidade deste lago que mais não é que a cratera de um vulcão extinto. E há homens verdes que são verdes porque têm algas no sangue e só precisam de sol para sobreviver e fazer crescer as alguinhas. E fico-me por aqui.

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