derek

Acabei de ver o primeiro e episódio e hmm… não. Thumbs down. Como sou fã do Ricky devo ver tudo na mesma, mas não há como fugir. O conceito podia ter sido mais bem feito, mesmo que para efeitos de drama e não de comédia, pois seria injusto – percebemos depressa – julgar esta série pelo prisma da comédia. Se tem meia dúzia de momentos cómicos é uma sorte, o sumo é drama. Para além de algo batida a ideia do mockumentary para quem criou o Office há uma catrefada de tempo (a montagem, a edição, a fotografia, o mesmo ritmo), Ricky leva-se a sério de uma forma demasiado básica. Achei o Extras, depois do Office, um expoente máximo da capacidade que Ricky Gervais tem de mostrar que é boa pessoa enquanto acumula todos os defeitos do mundo, esforçando-se para negar qualquer obrigação moral e combatendo o sentimento de culpa. Lembra-me o meu pai que era uma pessoa que resmungava muito ,mas praticava o bem e cedia, sempre contrariado e a resmungar, mas podia-se contar com ele. No Extras isso está bem cristalizado na relação da personagem de Ricky com a sua amiga que tinha a inteligência do Derek e era igualmente ingénua. Mesmo no Office essa ambiguidade estava lá. O próprio David Brent era dramático e deprimente, apesar da série ser de comédia. A sua solidão, a sua vida falhada, as suas inseguranças, a rejeição de aceitar a realidade e terraplaná-la com uma arrogância desmedida que só o metia em encrencas autodestrutivas… o Derek pareceu-me demasiado forçado também, a personagem está demasiado pantomineira, o queixo, a mímica corporal, é cansativo e deixa poucas margens para a subtileza e amplitude de recursos de Ricky Gervais enquanto actor cómico. Assim de repente lembro-me da série do Louis CK. Começa como uma comédia com apontamentos de drama e a certa altura tem episódios que não têm um só momento de comédia, é drama puro e de cortar à faca e vai piorando. A série é bastante irregular e indefinida, mas o falhanço é tão genuíno que a coisa acaba por resultar no sentido de culto, digamos assim. É como se Louis estivesse na merda e não lhe apetecesse escrever humor, mas sim por uma vez aproveitar para desabafar e experimentar temas e abordagens novos, despidos da constante auto-ironia e cinismo distanciado. Sentem-se e pressentem-se produtores ou manda chuvas a torcer o nariz e a pedir-lhe para “fazer rir” ou que as audiências estão demasiado baixas e o Louis CK a mandá-los à merda e a insistir no que lhe apetece fazer naquele dia. No caso do Derek, não senti 100% isso, mas praí 80%, porque é demasiado calculado. Acredito que Ricky quisesse fazer algo diferente. A melhor metáfora talvez seja a do hamster do piano. O Derek é o hamster do piano, até as mãos à frente o imitam. A personagem também lembra um pouco (mesmo em termos de mímica corporal e QI) a personagem que ele cria no Extras, para a sitcom mainstream onde vende a alma pelas audiências, o que dá a entender que o boneco Derek é genuíno dentro dele, no sentido de ser a sublimação de um lado da sua personalidade em que ele sabe ser imbecil e boa pessoa. Aliás, sigo-o no facebook e confirma-se, nem que seja pelas famosas (e horripilantes) selfies na banheira. Mas isso não chega para para justificar a 100% o meu investimento de tempo para ver tv.

Anúncios

7 thoughts on “derek

  1. viva , não sou fã de séries nem de comédias e não conheço nada do que referes. calhou apanhar um episódio do tal derek e fiquei até ao fim. passava-se num “lar de idosos”. gostei mesmo muito, dos contrastes, do humor negro, do cinismo, de alguns aspectos que também referes no teu texto. presumo que para quem seja idiota no género, a coisa passe. enfim, eu curti bastante o gervais queixo-calçadeira. saúde

    1. henrique, não conhecesse o Office, do Ricky Gervais? O Office é obrigatório. Não gostas quando te dizem isto? “é obrigatório”. Epá, mas é. E vais gostar muito do Extras que também é Obrigatório, mas menos, é tipo o ensino, mas há ciganitos e pobres que se safam.

  2. O Derek é uma série sobre bondade, materializada no Derek mas que surge ao longo dos episódios em situações inesperadas através de outras personagens à partida revoltantes ou pelo menos que não são “puras”. A personagem do Derek é propositadamente exagerada porque não há nada nele para além da bondade e à medida que a série avança subtilmente chegamos à conclusão que na verdade é só isso mesmo que importa. Nem dinheiro, nem classe social, nem educação universitária, polimento, nada. E isto é uma lição incrivelmente poderosa, embora pareça ingénua ou básica. A arte está na forma como o Ricky consegue transmitir isto sem ser condescendente uma única vez.

    1. não sei DS, não achei pouco condescendente. Eu logo no 1º episódio, a cena em que a enfermeira vai para dentro do bar e dá uma cabeçada numa das 3 jovens que goza com o Derek, arrepiou-me mesmo, foi como se, sei lá, o Jorge Jesus de repente tivesse dado uma “entravista” sem erros. Aquilo não é Ricky Gervais.

  3. Não retirando mérito às capacidades de actor do Ricky Gervais, não consigo deixar de vê-lo e sentir que é uma pessoa amarga (o que é bem diferente do mero sarcasmo). Fico curiosa para saber como é que alguém assim trata o tema da bondade – fiando-me na descrição da D.S.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s