géneros

Sempre tive um misto de desprezo e inveja pelos experts de um género, aquelas pessoas que só lêem policiais ou fantasia ou ficção científica ou comics (são mais frequentes na música). Desprezo porque acho que é uma ignorância forçada e arrogante que nem permite fruir das obras, que torna todos os livros daquele estilo  “obrigatórios” ou “relevantes” só porque são do género. Esta postura está longe de ser próxima do que os próprios bons autores do género são. Todos os bons autores têm cultura literária e é frequente citarem influências que julgaríamos inesperadas (Gene Wolfe fala muito em Proust, Borges e Nabokov) e que são desconhecidas dos tais fanáticos (e falo em fanáticos, não de apreciadores que tendem a preferir algo).Quanto à inveja, comparo-a à que sinto pelas pessoas que são especialistas em algo e obcecadas com isso e que, dessa forma, pertencem a uma tribo, uma guilda familiar, talvez a mesma inveja que sinto daquelas famílias ultra benfiquistas que têm as casas decoradas com motivos do Benfica e levam a pequenada toda aos jogos e para eles é uma religião. Para eles aquilo não tem segredos, foram ao fim do que é possível ir e sentem-se envolvidos numa tribo.

Penso que nunca vi um género ser tão mal amado como a ficção científica. O problema não é da literatura em si, quero acreditar, pois duvido que as pessoas tenham de facto lido muitos livros de sci-fi a não ser clássicos que não associaram a ficção científica, como o Fahrenheit 451 ou o 1984. Quando menciono estas obras às vezes dizem-me “ah, mas isso é diferente, são clássicos” (estas pessoas, note-se, começam as frases com “ah” e metem a mão na anca como nas peças do La Feria). Talvez a opinião venha mais da reacção a coisas como o Star Wars ou o Star Treck, com as quais não se identificam muito e daí transponham para a literatura. Bom, a verdade é que eu próprio não li muita ficção científica a não ser quando era miúdo e lia toda a espécie de livro. A minha relação com os livros nessa fase não era muito diferente da que tem um guaxinim com os conteúdos de um caixote de lixo revirado. O certo é que não faço grande divisão de géneros. Sempre li um pouco de tudo e costumo guiar as minhas escolhas por algumas referências críticas, tudo isto influências da minha mãe que por muito Proust que lesse, falava do Tolkien como uma criança entusiasmada.

Voltando à ficção científica, em primeiro lugar acho que é um género aparentemente masculino, se o associarmos ao lado “científico” e ao lado geek. Isto parece machista lido assim. E é. Até agora só conheci homens que gostassem declaradamente de ficção científica por isso voltem lá à leitura do 50 sombras ou isso. Bom, as mulheres representam, pela minha estimativa, 97% das vendas literárias e isso pode explicar porque é mais provável que o fantástico ou o mistério ou cenas de mulheres com corpetes de latex a levar chibatadas nas nalgas cheguem aos tops do que propriamente histórias com substracto filosófico, ficção especulativa, questões existenciais profundas e naves espaciais a viajar pelo universo. Basta percorrer a lista dos best sellers. Faço este exercício regularmente e rio-me sempre, depois dos comprimidos. Top da fnac, hoje (a rosa livros que são comprados por mulheres)

Prometo Falhar
Pedro Chagas Freitas

A Culpa é das Estrelas
John Green
Resumo : Apesar do milagre da medicina que fez diminuir o tumor que a atacara há alguns anos, Hazel nunca tinha conhecido outra situação que não a de doente terminal, sendo o capítulo final da sua vida parte i… » Ler mais…

As Cinquenta Sombras de Grey

As Cinquenta Sombras Mais Negras

O Último Banqueiro

A Rainha Ginga
José Eduardo Agualusa

As Cinquenta Sombras Livre

Bifes Mal Passados
João Magueijo
Resumo : Um roteiro de cómicos fins-de-semana mal passados e tentativas frustradas de fazer férias em Inglaterra servem de ponto de partida para uma viagem pela cultura anglo-saxónica, como vista pelos olhos d… » Ler mais…

10 Dias Para Ensinar o Seu Filho a Dormir
Filipa Fernandes
Resumo : Não sabe o que é dormir uma noite inteira desde que o seu filho nasceu? Amamenta várias vezes por noite porque descobriu que é a única forma de acalmar o seu filho? O seu bebé só adormece quando está … » Ler mais…

The Fault in our Stars
John Green
Resumo : The paperback version of John Green’s Top Ten UK hit. A beautiful, humorous and emotional novel about sickness and health, life and death. Diagnosed with Stage IV thyroid cancer at 12, Hazel was prepa… » Ler mais…

Sumos e Águas Detox
Lillian Barros

Um Milhão de Prazeres Proibidos
C. L. Parker
Resumo : Lanie sonhava ser livre. Até ao dia em que Noah a libertou. Para a maioria das pessoas, dois milhões de dólares são uma fortuna. Para o multimilionário Noah Crawford, foi o dinheiro mais bem gasto da… » Ler mais…

chega?
ok. Por acaso comprei o dos sumos detox, mas isso não interessa. Sobre a ficção científica, acho que isto é por fases. Cresci nos anos 80 e ainda tive muitos ecos da febre da corrida espacial. A America de Reagan tinha um programa militar chamado Star Wars e o telejornal mostrava satélites a destruir ogivas nucleares com lasers potentes. Cresci com séries como o Buck Rogers, Espaço 1999, para além de reposições do Star Treck. Lembro-me bem de ver a magnífica série original da Twilight Zone, na rtp 2 e vários episódios eram ficção científica. A Guerra das Estrelas estava nos cinemas, numa reposição e foi o 2º filme que vi no cinema, antes de sairem os outros episódios. Spielberg dava o ET, o Encontros Imediatos do 3º Grau, Ridley Scott fazia o Aliens. O Back to The Future é de 1985, o Dune foi ao cinema nessa altura… Não creio cair num exagero se disser que nos anos 80 e talvez no início dos 90 ainda havia um entusiasmo da cultura popular pela ficção científica como tema. Havia embaixadores como Carl Sagan com uma notoriedade enorme. Mas nem essa época se podia comparar com os anos 70 e estes com os 60, no que respeita ao entusiasmo pelo espaço. Talvez o arrefecimento do optimismo na corrida espacial, com o desastre do Challenger e, sobretudo, o desinteresse na exploração lunar, a perspectiva de que demoraria muito tempo e seria um pouco inútil colonizar marte com o fim da guerra fria e o fim da propaganda ideológica etc. tudo isso tenha contribuído para o aparente adormecimento da ficção científica. Eu arrisco-me a dizer que está relacionado com um pessimismo quanto ao futuro. Talvez tenhamos pouca vontade de espreitar para a frente. Livros como o 1984 deixaram de ser especulativos para se aproximarem assustadoramente da nossa realidade moderna. O que há para lá disso? Não será mais confortável e vendável uma negação fantasiosa, um escape? Especulações, especulações. Fico-me por aqui com votos de que o gajo do Prometo Falhar (primeira vez que vi aquele título) cumpra a promessa num dia em que tente equilibrar-se num andaime num 10º andar.

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16 thoughts on “géneros

  1. Bom se calhar os homens também lêem “a culpa das estrelas” e as “50 sombras de grey” que as mulheres compram, mas escondidos em casa, longe da vista 😛

    daí acho que só compraria o do agualusa, que discordo que seja comprado e lido só por mulheres.
    (li o 1984 e o admirável mundo novo, mas também nunca tinha dado conta que podiam caber nessa categoria).

  2. Há um género, pelo menos em Portugal, ainda mais mal visto que a ficção cientifica: o humor. Tu leste o Bom Soldado Svjek, por exemplo, uma obra que eu acho que se tivesse sido escrito por um português contemporâneo nunca teria visto a luz do dia.

    É normal que se conote a ficção científica com os homens: pensa na proporção de personagens principais masculinas e femininas (parece que tiveram que meter à pressão mais umas mulheres no novo Star Wars, vê lá). No Star Trek tens a Uhura, mas daí para a frente é tudo homens.Star Wars, trilogia original, a unica mulher é a Leya. E é uma “princesa”. E engana-se e beija o irmão e tudo.

    Agora, acho que te enganas aí na Rainha Ginga, goste-se ou não do Agualusa (incluo-me no não, já agora), não é literatura de mulher.

    1. Ricardo, eu também comprei (mesmo) do dos batidos saudáveis, por isso não é preciso agora fingirmos que o Agualusa é literatura de homens 😉

      sim, é verdade, isso das personagens nesses casos que citas. O Dune por exemplo já é muito feminino. Mas sim. Geeks a escrever para geeks.

      No caso do humor não sei se concordo. Acho que é mal amado da crítica, de parte dela pelo menos, mas mais no cinema. Que sei eu. Sei que há fenómenos mainstream de humor, não têm é piada nenhuma. O Nilton tem livro? Se tiver é um bestseller.

      1. Já teve um, não chegou aos tops que me lembre. E eu queria mais referir-me a coisas tipo o Svejk, não crónicas ou piadolas. Ia ser considerado uma coisa light.

  3. Cá em casa os meus policiais e livros do Stephen King convivem pacificamente com as cenas que descreves acima de ficção científica do meu homem. Às vezes trocamos impressões sobre as coisas. E em meu abono, gostei muito dos contos de ficção científica do George R.R. Martin que li. Agora xaropadas como Star Wars e afins, não, obrigada.

  4. “Bom, as mulheres representam, pela minha estimativa, 97% das vendas literárias e isso pode explicar porque é mais provável que o fantástico ou o mistério ou cenas de mulheres com corpetes de latex a levar chibatadas nas nalgas cheguem aos tops do que propriamente histórias com substracto filosófico, ficção especulativa, questões existenciais profundas e naves espaciais a viajar pelo universo.”

    Como assim, 97% das vendas literárias? Mas só uma pequenina minoria de homens é que lê? Essa percentagem parece-me incrivelmente desequilibrada. Mas se formos por essa lógica então os tops estão cheios não do que as mulheres lêem mas do que a média de mulheres lê. É como as audiências da TV, os programas mais básicos são os que mais pessoas vêem. Se as percentagens estivessem invertidas (por muito que os 97% me pareçam enviesados mas brincando ao “suponhamos”) garanto-te que os tops não estariam cheios de livros de “substracto filosófico, ficção especulativa e questões existenciais profundas”, mas sim de biografias de Mourinhos, manuais de como compreender as mulheres e naves espaciais a viajar pelo universo (nesta és capaz de ter razão).

    Já agora, como é que se classifica o género de ficção científica? Tem que ter coisas que não se encontram no nosso mundo? Harry Potter é ficção científica? Senhor dos Anéis?

    1. os 97% foram inventados, mas as mulheres compram muito, mas MUITO mais livros do que os homens, pelo menos em Portugal. Bons livros e maus livros, atenção. E isto abona a favor das mulheres. Vê-se sempre pelos tops, não há volta a dar. Vê-se nos transportes públicos. Para cada gajo que eu vejo com o livro na mão, vejo 6 ou 7 mulheres com o as Sombras e os livros do José Rodrigues dos Santos. Isto não quer dizer que os gajos leiam coisas boas, devem ler coisas más na mesma proporção. Só que como há mais gajedo a ler… ah, eu não acho que uma biografia de Mourinho esteja ao mesmo nível de um Prometo Falhar ou livros do Paulo Coelho. Aí não cedo. Quanto a ficção científica, a única coisa que vejo comum nas definições envolve uma especulação sobre o futuro. O Book of The New Sun parece uma coisa fantástica estilo Tolkien, mas a explicação é que a humanidade, outrora grandiosa e avançada, regrediu e estagnou numa era de obscurantismo extremo, o que dá uma mistura estranha em que o moderno é na realidade o antigo, o arqueológico, as ruínas e o presente é algo onde há bruxas, monstros, cavaleiros… O Senhor dos Anéis ou Harry Potter são 100% fantasia.

      1. Nisso das proporções estamos de acordo então. Por acaso agora fiquei curiosa sobre isso das diferenças nos hábitos de leitura e se as mulheres realmente lêem mais (se compram mais…) e o que é que uns e outras mais lêem. Desconfio que quanto mais se avança na “erudição” mais se esbatem as diferenças entre o que homens e mulheres “eruditos” lêem, será?
        Bom, nesse caso o Game of Thrones também será fantasia, alguém atirou G.R.R. Martin para a conversa, daí a minha dúvida.

      2. Sim, RR Martin do game of thrones é fantasia, mas pode ter escrito ficção científica também. E sim, acho que acho que + erudição, menos diferenças nesse campo, sem dúvida. Excepto aqueles autores tipo Simone de Beauvoir e Anais Nin que as gajas curtem.

    2. Os livros que eu li do George R.R. Martin são aqueles compilados e editados em Portugal: O Cavaleiro De Westeros e o Dragão de Inverno. Tem lá duas ou três estórias de ficção científica muito boas (serão de terror, ainda assim). O Sandkings é qualquer coisa.

  5. (primeira vez a comentar, portanto, olá)
    10 Dias Para Ensinar o Seu Filho a Dormir–> ahahahah, pudera, é o desespero 😀

    de resto, confirmo: da minha parte, ficção científica não me desperta interesse; por outro lado, não li nenhum da lista das bestas céleres do momento.
    [a propósito de best sellers, há fenómenos curiosos: lembro-me de há uns anos ter ficado muito surpreendida com o súbito sucesso do Portugal, Hoje- Medo de Existir do José Gil, que de repente (?) andava nas bocas do mundo; aparentemente toda a gente tinha comprado ou lido e gostado. Dessa vez fui carneira (ok, o tema interessava-me), comprei o livro e oh, não só detestei a escrita como não percebi metade. Continuo sem perceber bem o que aconteceu (não a parte em que não atingi o livro), mas enfim, era só mesmo uma curiosidade.]
    Sobra uma data de outras coisas, felizmente 🙂 no meu caso, é principalmente literatura francesa (por influência familiar, digamos).

  6. Gostei bastante deste texto. Tens razão em muito do que dizes. Em relação ao Sci Fi, faltou talvez referir a interpenetração do género com o audiovisual. Mais do que noutros géneros, o Sci- fi vive de pescadinhas de rabo na boca. De influencias reciprocas cinema/ livro. É ao compreender isso que se vê melhor o resurgimento deste género no cinema de Hollywood e bem assim no indie. O final dos anos 90 assistiu ao retorno em força dos temas de ficção cientifica, agora mais marcados pelo ciber punk, onde pontuam referências ao desenvolvimento digital. Esta passagem para o software depois do hardware, da rocket science (ainda hoje sinónimo de complexidade entre os anglo-saxões), propiciaram reflexões diferentes onde o individualismo é mais explorado, o existêncialismo etc- que já se tinha assomado em trabalhos como Do Androids Dream Of Electric Sheep? com a célebre adaptação ao cinema que resultou em um dos melhores filmes de sempre. Mais do que o optimismo universalista de Star Trek com as suas reflexões kantianas, que nunca foi interessante mas que estava comprometido com os ideias democráticos do Pós Guerra, (Nações Unidas igual a United Federation Of Planets), temos os temas do engano, ficção e realidade de Matrix que reflecte a própria natureza, “o que é aquilo que é?” a ontologia. Os irmãos polacos (como se chamavam?) eram estudiosos de filosofia.

    Os anos 80 foram tempos de refluxo de quase toda a qualidade estética, profunda decadência política que desencadeou no Sci-fi alguns gritos irónicos que não se podem ignorar- Brazil (do Gilliam 1985 de longe o de maior qualidade, ácido, lúcido, esteticamente irrepreensível, finíssimo para os olhos de um cinéfilo que goste de expressionismo alemão, de Lang) Robocop dois anos depois, e o disparatado- no bom sentido- They Live. . Todos a responder ao Reaganismo, como o Dr. Strange Love havia respondido a uma suspeita de militarismo pós- Kennedy.

    Na década de 90 e primeira e segunda dos século XXI já temos muita sci-fi a revolver os temas da genética ( já não os da sustentabilidade ambiental que foram tema dos 70’s), e do digital. Cidade da Carne etc….

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