os humanos que gostam de morrer

É verdade que sou um pouco frio e espero não transmitir à minha filha este meu desprendimento total perante as pequenas tragédias alheias que envolvem estupidez e inconsciência, como a do casal polaco, a quem os filhos estão a tirar a foto, e que saltou a vedação para a beirinha da falésia e morreram os dois. Só não me ri com a notícia (em público) pelo trauma que causou nos miúdos, mas pelo menos talvez tenha sido a única lição importante que aquele tipo de pais poderia dar aos filhos. O Expresso mostrou uma reportagem e deu a entender que todos os dias há dezenas de turistas que saltam a vedação para se colocarem mesmo na pontinha, pontinha. Quando não estão a cair das falésias, gostam que estas lhes caiam em cima, especialmente as arribas como as do Algarve. Enfiam-se mesmo ali à sombrinha da morte, com toneladas instáveis por cima, com os filhos e tudo. Quando entrevistados pela tv, encolhem os ombros e parecem confusos pela lógica implacável. Sabia que podem cair? Sim. Não é perigoso? É. Então e sair daí? Não. Mas é perigoso, não sabia? Sim. Uma pessoa pensaria que são muito Zen e que na eventualidade de serem soterrados com as famílias, nos seus últimos 30-40 segundos de vida, teriam o espírito pacificado e aceitariam o destino e até concluiriam que a sombra valeu a pena. Se não sabemos se quando estão soterrados estão satisfeitos ou aborrecidos porque não os vemos e raramente sobrevivem para contar, sabemos que ficam mesmo tristes quando morre alguém nessas circunstâncias ou noutras: esbracejam, arrancam cabelos, atiram-se para o chão, mesmo aqueles pais que tinham o filho de 20 anos com a 4ª classe a quem ofereceram uma CBR900 pelos anos e que costumava andar com ela de chanatos e bermudas a fazer Lisboa – Faro em pouco mais de 90 minutos. Quando tomam banho em águas tóxicas cheias de aviso de “proibido tomar banho”, fazem a mesma expressão confiante e desafiante perante as câmaras. Se compreendo e sinto empatia pelos pescadores que se empoleiram em falésias para apanhar um peixe especial para ajudar a pagar as contas ou pela emoção e adrenalina, tal como compreendo base jumpers ou alpinistas, tenho dificuldade em compreender os outros, os de fim de semana, os que vejo no Cabo Carvoeiro, descontraídos barrigudos, a 2 passos de uma queda abrupta, de cana na mão, por cima de uma plataforma saliente que tem placas a dizer “ARRIBA INSTÁVEL – PERIGO”. Não entendo, sendo naquele caso a pesca uma actividade lúdica para descontrair, como conseguem abstrair-se de tal forma daquilo? É curioso como os turistas tendem a ser o grupo mais suicida da humanidade. Chegam a um sítio e, apesar de não verem nenhum local a fazer aquilo que eles estão a fazer, eles fazem, para dar uma lição de bravura aos locais. Começa nos ingleses a enfrentar o sol escaldante do meio dia no 1º dia de férias de praia em qualquer sítio sem qualquer protector e termina nos estrangeiros que se afogam regularmente na praia da Nazaré em dias em que nenhum português se aproximaria mais de 50 metros do mar. Assim são os turistas colhidos por ondas nas falésias por todo o mundo, enquanto tiram selfies. Ainda este ano morreu uma jovem em Biarritz, foi colhida, ela e o companheiro que sobreviveu por sorte, por uma onda, numa rocha, numa zona proibida, num dia de alerta laranja. Foram para lá. Ver de mais perto. Apesar dos avisos e das pessoas a esbracejar. E viram de mais perto. Até porque estavam na conversa de costas para o mar enquanto a onda gigante se aproximou, por isso não a viram ao longe. Eu acho isso engraçado, porque de outro modo sinto-me responsável e angustiado pelo destino dos outros. Já contei o episódio que tive no Vimeiro, este ano, em que com bandeira vermelha, estou dentro da água na rebentação, a mergulhar debaixo de ondas e há um tipo que já lá estava há 10 minutos e que no instante em que perde pé, algo estupidamente inevitável naquele mar, se vira para mim em pânico, de olhos arregalados a gritar “AJUDA-ME! AJUDA-ME!” sendo depois devolvido à praia por mero acaso por outra onda. Fiquei aterrado, não só por ter vislumbrando por instantes o que seria o meu sentimento de culpa por não o ajudar e preferir chamar o salva vidas, mas pela estupidez tão profunda e abissal que habitava aquele cérebro. Aquele homem saiu da água e tinha família e ninguém deu por nada. Eu tenho mais com que me preocupar, até porque sou um pouco obsessivo compulsivo. Estou sempre alerta. Sei, ao contrário da generalidade da espécie humana, que os piores acidentes acontecem sobretudo quando não os esperamos.

Neste aqui ninguém morre, mas não deixa de ter piada na mesma.

 

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