sou um homem que cheira a peixe fermentado

Finalmente tive tempo para estrear a minha cana e kit de pescador, incluindo um boné bastante vistoso que diz “the spirit of fishing”. É pena não me servir. Depois de pelo menos 2 dias a tentar fazer os nós todos para montar uma linha, digamos assim e chegar a uma falésia e zum (é pesca de pião), resolvi parar numa loja de Peniche para pescadores profissionais. Era uma loja para pescadores tão profissionais que vi o capitão Ahab a examinar arpões de carbono e o Velho a comprar um carreto para merlims. Vi muitos iscos: sardinha, camarão, coreano, lingueirão, ameijoa… mas como saber que o senhor peixe vai gostar? Acabei por escolher camarão. Fui para um pesqueiro jeitoso, entre duas pessoas que não sei porquê não pareceram invejar o meu pesqueiro. Devo dizer que a pesca nestas falésias foi muito terapêutica para a minha tendência para vertigens: em 24 horas curei-me. Sinto-me capaz de andar em vigas de arranha-céus. Lancei a linha e zás. Ficou presa. A restante meia hora foi passada a tentar libertar a linha, o que consegui para minha grande supresa e alívio, visto que tinha demorado horas a conseguir fazer os nós necessários no conforto do lar, sem vento e não tinha a certeza de conseguir repetir a operação alguma vez na vida (acho que um dos nós, o de empatar o anzol, foi mesmo um milagre que se operou ali, depois de uma hora a tentar). Às tantas dois pescadores de Peniche aproximaram-se de mim, curiosos. Eram pescadores a sério, daqueles que completamentam os parcos rendimentos da pesca industrial com pesca desportiva, vendendo o peixe a restaurantes. Ficaram atrás de mim a ver. Às tantas a pressão foi tão grande que me virei para trás e disse-lhes “não sei o que estou a fazer, é a primeira vez que pesco”. Riram-se. Ao içar a minha isca o riso foi substituído por espanto. Um deles pareceu mesmo julgar que aquilo era para os apanhados: ‘então não descascou o camarão? Você assim não pescava nada”. Seguiu-se o ajeitar do meu isco, da oliva de correr… fiz novo lançamento e eles disseram muito bem e desejaram-me boa sorte. Fiquei contente. Devo dizer que ao longo do fim de semana tive mais três interacções deste tipo com pescadores locais que se mostraram amistosos e pedagógicos. A verdade é que não apanhei nada, nem eu, nem nenhum dos pescadores ali plantados. Jantei. Hesitei… tinha trazido o kit noturno, o meu frontal (lâmpada de cabeça que uso para o trail), uns pauzinhos que quando se partem ficam fluorescentes para meter na bóia… E não resisti. Voltei para o mar à noite. E aqui começou uma experiência nova. O mar à noite, especialmente nestas falésias do cabo carvoeiro, é uma coisa impressionante, uma mancha negra que respira e ruge, só lhe ouvimos a espuma a crepitar, o trovão da rebentação, o ar exalado de furnas e fendas, empuraddo pelas ondas. Apesar da ténue neblina própria da vaporização do mar, fui brindado por um céu estrelado. Fiquei ali até quase às 4 da manhã, pacientemente reparando iscos, experimentando outras zonas para atirar… A pesca ao pião ou à bóia não permite a desconcentração de outros tipos de pesca como a pesca ao fundo. Estamos sempre a olhar para a bóia a ver quando se afunda, indicando um toque. Esta concentração zen é muito relaxante, talvez mais do que se tivesse apenas de olhar de vez em quando para a ponteira de uma cana, enquanto a minha mente divagava dali para fora. Voltei para casa tarde, de novo sem pescar nada (e que eu tivesse reparado, ninguém pescou nada naquelas falésias…), mas feliz, como se estivesse a explorar um mundo novo, muito dele feito de memórias de infânca, de férias por ali com o meu pai. No dia seguinte, mais tentativas infrutíferas, e à chuva ainda por cima, mas não vi ninguém pescar nada, por isso pode não ser só problema meu, Um pescador disse-me “pesco há 40 anos e o peixe também é esquisito para mim”. Há muitos turistas por ali, portugueses na romaria do almoço de domingo com a família, que se aproximam dos pescadores e fazem perguntas como “então, tá a morder?” O meu pai fazia isso e eu não percebia de onde vinha esta estranha aliança. Bom, o certo é que 24 horas disto me deixaram com um cheiro ao peixe do isco e a pasta de sardinha que precisou de um longo banho e muita esfregadela. Eu gostei deste cheiro, mas a reacção ao mesmo não foi unânime. Acho que ter ficado tanto tempo assim me insensibilizou num proceso gradual, mas o mesmo não aconteceu aos outros. Quando entrei em casa a primeira coisa que ouvi  foi “não tires já os ténis, leva ao lixo lá abaixo que está a cheirar mal” e o caixote estava vazio.

Anúncios

3 thoughts on “sou um homem que cheira a peixe fermentado

  1. Lourenço, aviso já que não só pescador (e também não quero convites), quanto aos anzóis, o melhor é comprares uma cortiça (vende-se em qualquer loja de pesca) e levares vários já empatados, há também à venda anzóis já empatados, sei que queres aprender tudo sobre essa arte, mas é uma solução simples e não é muito onerosa, tem atenção a uma coisa a linha com que empatas o anzol deve ser mais fina (menos resistente) que a linha que tens no carreto, assim se a linha presa presa, puxas(i), a linha do anzol parte e não perdes a bóia e os chumbos.

    Se vais para Peniche, podes experimentar a pesca de traineira, informa-te na loja pesca, esta é mais onerosa pois tens de pagar o barco/gasóleo, usualmente feita por grupos a rondar as dez pessoas, como demoras sempre algum tempo até chegar ao 1.º pesqueiro podes sempre pedir ajuda ao pessoal que te acompanha (não contes é com ela se precisares numa altura que está a “dar” peixe, eles são bastante competitivos por norma), é muito cansativa por causa do balanço do barco(sol,chuva e vento também não ajudam), mas trazes para casa muito/algum peixe, pois estes barcos estão equipados com sonar e procuram por cardumes e param sobre eles.

    Não sei se tens mas tenta comprar um carreto suplementar, para o caso de teres de cortar a linha é mais pratico substituir, isto é valido para os dois tipos de pesca, a pesca no barco é feita ao sentir(dedo indicador sob a linha logo à saída desta do carreto) aqui não precisas de bóia, mas de chumbos mais pesados pois tens que manter a linha o mais verticalmente possível para não interferir com as restantes linhas.

    O episódio dos pescadores irem ter contigo, passa-se em todo lado: 1.º é a saudação, logo seguido de um rápido olhar para o balde para avaliar a pescaria. Como tu também sofro um pouco com as vertigens, e dou sempre por mim a pensar no perigo da pesca em falésias. Nunca gostei de pescar ao fundo, grande seca, valia pela conversas e pela cervejas a tender para o chá com o passar do tempo.

    i) deves puxar a linha com o carreto até sentires bastante resistência, depois colocas a cana apontada à agua no sentido da entrada da tua linha na agua, seguras pelo carreto e andas para trás.

    boa sorte para a próxima.

    1. Obrigado pelas dicas Fernando!
      Curiosamente, tenho também encontrado pelos blogues portugueses preciosas dicas, fotografias com montangens, textos a explicar muitas coisas… Parece-me que este saber é transmitido assim, por conversas, pai que ensina filho, amigo que ensina amigo, sabedoria local… que eu saiba só há 1 livro de pesca em português bom e mesmo assim é uma tradução (muito bem feita e adaptada a portugal) de um livro italiano. 60% é sobre pesca de rio e lago, e só 40% sobre mar. O livro é interessante como cultura geral, mas acaba por ser bastante superficial como “manual”. Como isto tem muito de experiência, tentativa / erro, como cada pesqueiro é único, como cada um prefere uma técnica ou um peixe em especial etc. parece que cada pescador é uma enciclopédia. Um dos conselhos do autor é observar os pescadores locais mais experientes e ver o que eles estão a fazer 🙂 eu por norma sou um bocado audodidata (faz parte do meu prazer numa actividade, a aprendizagem da mesma), mas neste caso rendo-me! 🙂

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s