colégios para crianças – treiná-las para vencer

Sobre este texto da Palmier a propósito de jardins de infância e do tonto do Eduardo Sá, devo dizer que a minha filha está em lista de espera de várias opções antes mesmo de ter sido concebida. Quando tinha 24 anos, os colegas de escritório, mais velhos e que já tinham filhos, explicaram-me que havia longas filas de espera e era muito difícil a colocação. Também li um importante estudo no Reino Unido que deixava claro que o factor de maior impacto no desenvolvimento da criança e do seu sucesso era o pré-primário e não a universidade! Por isso, desde essa data que, todos os anos, finjo que tenho um filho e inscrevo-o na lista de espera dos jardins de infância da região da grande Lisboa. Podia encontrar parceira fértil a qualquer momento e assim precavinha o mais possível o futuro da prole. O filho tem nomes do tipo Cláudio Ramiro ou Marcio Jorge e está em muitas listas de espera. Dou-lhe esses nomes para não me esquecer de trocar o nome pelo verdadeiro e porque assim tenho uma boa desculpa quando aparecer lá com a minha filha: “olhe, mudámos o nome dela, Enércio Lima era capaz de não ser adequado” e as pessoas da creche até suspiram de alívio e não estranham. Também não estranham quando apareço lá ano após ano com um novo nome e invento uma desculpa para o desaparecimento do filho anterior, sendo “o tribunal deu a custódia à minha ex-mulher” a mais usual e credível. Só usei a do “nem imagina o peso que uma águia da serra da Lousã consegue carregar se estiver esfomeada” na creche de Monsanto, onde são todos pró- vida animal e jardins. Temo bem que 60% das listas de espera das creches de Lisboa estejam preenchidas por nomes falsos.
Há muitas creches que não defendem o melhor interesse da criança e não as preparam para o mundo real, para serem bem sucedidas e/ou felizes, psicologicamente sólidas, autoconfiantes, boas pessoas e capazes de empurrar o cepto nasal de um meliante em direcção ao cérebro com a palma da mão, para que este tenha uma morte rápida e piedosa. Cabe aos pais escolher o que querem desenvolver nos filhos: querem um filho que seja criativo e que se expresse de forma autoconfiante e feliz, ou querem um que ganhe dinheiro que chegue para se sustentar e a subsidiar os filhos dos outros que se expressaram de forma criativa e feliz? Eu não sou exigente, só quero que a minha filha seja treinada para vencer, de forma implacável (mas serena, como um ninja). Quero que entenda que há selecção e tudo o resto é uma treta. Até o amor. Até na criatividade e na expressão devia haver selecção, não relacionada com dinheiro, obviamente (o mundo é injusto neste critério, é preciso dizê-lo para que não ande para aí aos 30 anos a ficar chocada com o facto de não lhe editarem o livro, mas editarem pseudo-Paulo Coelhos destruindo a reputação de uma editora, mas tudo bem, fico-me por aqui. Até (e especialmente) num partido comunista há hierarquias e as comunidades eco freaks do alentejo têm sempre um holandês que manda naquilo tudo e tem 10 concubinas de rastas e cheias de pulgas. A suprema forma de liberdade, inclusive do meu terrível jugo de pai, é ela ter confiança nela própria e nas suas capacidades e ser tendencialmente optimista e feliz com ela própria. Acredito que o dinheiro que ela vai ganhar para me ajudar na reforma virá por arrasto. O problema é que os colégios mais progressistas pintam um retrato idílico do mundo e os colégios aparentemente mais disciplinadores parecem reminiscentes do Estado Novo (e até se orgulham). Uns e outros reclamam bons resultados escolares. Outro problema prende-se com a autodeterminação e feitio particular de um filho. A minha filha faz coisas verdadeiramente desprovidas de lógica e teria imensas dificuldades em sobreviver sozinha. Tem 13 meses, espero que isto lhe passe depressa, esta fase mais infantil. Temos visto documentários do BBC vida selvagem, para ela perceber a sorte que tem e o quanto está atrasada em relação a crias de outras espécies.

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12 thoughts on “colégios para crianças – treiná-las para vencer

  1. O que quis dizer é que há escolas que conseguem de facto levar as crianças mais além, que estimulam a autoconfiança e a responsabilidade, o espírito de grupo e de entre ajuda, escolas que podem exigir porque conseguem pôr as crianças a pensar e que estão preparadas para responder às dúvidas que surgem. E isso faz-se desde pequeninos, progressivamente como é óbvio (ninguém quer ensinar uma criança a ler aos três anos, ou a fazer contas de dividir aos quatro), e as crianças que frequentam escolas mais exigentes (e volto a frisar que exigência não é sinónimo de educação Nazi) são tão felizes como as outras, estão é habituadas a um ritmo diferente… E depois há as outras (no meu caso, “a outra”, em que dizer que tinha saído do Estado Novo seria um elogio…, na verdade a dita escola – super elogiada por um determinado grupo de pessoas, caríssima, claro… – deve ter viajado numa máquina do tempo directamente do Séc. XVIII…), uma escola em que as crianças não podem pensar pelas suas próprias cabeças, têm de desenhar de acordo com determinados cânones e escrever – a partir dos seis anos – com canetas de tinta permanente em sebentas sem linhas – as linhas faziam-nas com uma régua – porque era o mais parecido que existia com as sebentas do antigamente (e isto só a título de exemplo). Acontece que, na pré-primária, não damos por estes absurdos… eles só se começam a revelar no primeiro ano. Ou seja, no primeiro ano começamos a levantar o sobrolho, no segundo ficamos de boca aberta com os disparates, no terceiro estamos horrorizados mas não encontramos vaga noutra escola, na que vamos finalmente procurar com critérios bem mais definidos e olhos de ver, mas que, por ter as turmas completas, só aceita meninos no quinto ano…

    E a verdade é que as escolas que reúnem os requisitos que expus em primeiro lugar existem, são poucas mas existem e garanto, porque os meus filhos finalmente andam lá os dois (e eu também lá andei 🙂 ) que são meninos felizes 🙂

    Estive quase para fazer um post explicativo… até porque agora tenho o header perfeito para isso… 😀

  2. E ainda há aqueles que parecem o máximo, e que afinal só quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro… e não aconselha… e mais não posso dizer, a não ser que quem está no convento já inscreveu o rebento fora dos claustros… 🙂

  3. As escolas são todas uma merda. E isto pela simples razão que até aproximadamente aos 15 anos não há nada que possa ser aprendido que não possa ser ensinado em casa ou na rua ou em fim em qualquer vão de escada, As escolas ensinam a pensar? O que é essa merda de ensinar a pensar? Isso é bom? Dão-lhes “ritmo” no pensamento… Preparam-nos para ser tal qual os seus belos papás e pedagogos, felizes, cheios de ritmo… Que puta de treta!

    Isto é uma coisa. Outra coisa é a simples e singela constatação que não temos onde deixar os meninos, a não ser na escola, quando vamos trabalhar. Não é por termos de fazer isto que fazemos bem nem melhor.

      1. Eu também achei este comentário muito interessante.
        Eu diria que as escolas (onde cedo se faz a diferença entre os burros e os inteligentes, os que atingem os objectivos e os outros) visam preparar as crianças para mais tarde serem úteis à sociedade, para integrá-las mais tarde no mercado de trabalho. Não para fazê-los felizes, no meu ponto de vista.

        E os pais que não têm onde deixar os filhos sempre vão sendo consolados com o argumento extra da socialização (por ex, até é bom para os bebés irem para a creche cedinho para começarem logo a conviver com outras crianças e para se familiarizarem com regras)

      1. e porque não?
        não, não fui educada por um casal de lobos: fui à escola, como a maioria, e fui feliz lá; aliás, é perfeitamente possível ser-se feliz na escola (como é de tantas outras maneiras). O que não me impede de reflectir sobre o assunto e questionar algumas coisas.

      2. Portanto, é possível ir para uma escola e sair de lá a questionar a própria escola, e a sociedade, de forma mais ou menos radical. Aliás, é bastante comum. Até durante a própria experiência..

        De resto, a meu ver, é substancialmente pior os pais tomarem nas mãos as redeas de aplicar aos próprios filhos de forma exclusiva uma educação que acreditam ser a melhor, a não ser que estejamos a falar de seitas em quintas biológicas e que não faça diferença nenhuma porque os putos vão cruzar-se uns com os outros durante 3 ou 4 gerações.

  4. Lourenço, eu não quis dizer (e não acho) que as crianças não devem ir à escola e que é melhor os pais assumirem exclusivamente a educação dos filhos, de preferência “longe da vil sociedade”.
    já agora, um exemplo interessante fora da escola, de uma família que decidiu viajar pelo mundo durante um ano, num blogue que inclusivamente consta da lista ali à direita:
    http://apanhadanacurva.blogspot.pt/2014/04/everything-you-know-is-wrong.html#comment-form
    (um post em que a mãe se questiona sobre o facto de os filhos não frequentarem a escola durante esse período)

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