o blogger urbano e o mar

6:30 da manhã, ainda está escuro. No pátio, observo os vestígios da tempestade nocturna. Já não há trovoada. Visto o casaco de pescador fluorescente, as minhas calças da pesca. Bebo um nescafé para acordar, as mãos entrelaçadas na caneca, pensativo, a contemplar o céu ainda estrelado. Encho o balde com as sardinhas, o gelo, arrumo a minha naifa de pesca e corto-me o polegar. O sangue mistura-se com engodo de pasta de sardinha. É essa a minha receita secreta, penso. O equipamento está preparado de véspera, meto tudo no carro, limpo a condensação dos vidros. Às 6:45 estou na cancela do baleacoop. Está fechada, só abre às 7:00, explica-me o segurança, durante a noite ninguém entra nem sai. Não há problema, trouxe um prático livrinho. Fico a ler no carro o meu livro de ficção científica. Às 7:00 a cancela abre. Depois desta pequena pausa continuo a minha epopeia para o pesqueiro do cabo carvoeiro. Em Peniche ainda paro no único café aberto a esta hora, um café de velhos pescadores como eu. Um deles está sentado numa mesa a ler o COrreio da Manhã. Olha-me de alto abaixo. O meu blusão fluorescente causa impacto, eu sei. Lancho um croissant com fiambre, um café, um b limonada. Mais satisfeito, dirijo-me para o pesqueiro. Passo a Cova de Dominique, o Carreirinho das Furnas e viro para a Furna Que Sopra. Estaciono o carro. O dia desponta num céu, suponho que rosa e lilás, com toques de fuscia e algum dourado, sim, mas eu ignoro essas tonalidades maricas, sou daltónico. O meu céu só tem duas cores, ou é preto ou é de dia. Desço até ao pesqueiro, numa falésia de 10 metros. A próxima hora é passada numa intensa luta corpo a corpo com a linha o anzol. Enrolou-se de tal forma em apenas 10 segundos que julgo estar perante magia negra de Poseidon a proteger o seu rebanho. Pondero cortar a linha e fazer uma montagem toda de novo, tendo em conta que no dia anterior em 3 horas consegui apenas pescar cerca de 36 minutos e o resto do tempo foi passado a desembaraçar linhas, mas resisto estoicamente a este impulso. Finalmente liberto a linha e o anzol. Corto um filete de sardinha, desfaz-se no anzol. Corto outro. Desfaz-se no anzol. Mais tarde vira a descobrir que existe uma coisa que é uma linha elástica para iscar sardinha à volta do anzol, mas naquele momento o meu estilo era mais puro e inocente… Consigo finalmente prender a merda de um bocado de sardinha decente ao anzol. Vejo dezenas de peixes na água. Atiro a linha e preparo-me para o embate… Retiro o isco, sobram apenas as espinhas,. Repito a operação cerca de dez vezes, com um cardume de peixes a debicar o meu anzol e o isco. Como que por magia, conseguem comer-me os bocados de sardinha sem ficarem engasgados no anzol que mais valia ser fluorescente e apitar. Às tantas há tantos peixes no pesqueiro que acho que a novidade se deve ter espalhado pelo Cabo Carvoeiro: “há um gajo que está a atirar sardinha mal iscada num anzol inapropriado! venham depressa, acho que tem um balde cheio de sardinha boa”. A certa altura os peixes quase que formavam um círculo em torno da zona para onde eu estava a atirar o meu anzol. Até que finalmente consegui iscar bem um bocado de sardinha, atirei e o Alfredo (é o nome que dou a este peixe, o meu primeiro), o Aflredo que não prima pela inteligência, mordeu o anzol com toda a força. Aposto que os amigos do Alfredo ficaram a olhar para ele do género “mas tu és parvo ou quê? Foste comer o anzol?” e o Alfredo “ups”, tarde demais. Tive um grande combate com o Alfredo. A cana vibrava e torcia-se, o carreto fazia CRrrrrRRrrRRRrrr Uma gota de suor formou-se na minha testa. Anda cá peixe! As gaivotas pousavam nos penhascos para assistir a este duelo mortal. Olhei em volta. Ninguém, eram mesmo só as gaivotas a assistir ao duelo mortar. Tentei filmar-me com o telemóvel para postar o duelo mortal no facebook enquanto puxava o Alfredo, mas tinha os dedos cheios de óleo de sardinha e não queria que o smartphone me cheirasse a traineira. Entretanto, o Alfredo tentava arrastar-me borda fora para a minha morte, 10 metros lá em baixo nas rochas. Eu lutava para içar o Alfredo contra ele e a força da gravidade. Finalmente consegui! Puxei o Alfredo para cima das rochas e ele ficou a saltitar. E eu pensei “e agora,?” Tinha grandes dentes o raio do bicho. Fiquei à espera que morresse sozinho, por falta de ar ou algo do género. Esperei 2 minutos e ele sempre a respirar assim como aquelas mulheres de 50 anos que têm quebras de tensão nos casamentos e ficam meio apáticas, com a boca aberta e as pessoas a segurar-lhes nas mãos e a passar-lhes panos com água pela testa e elas sempre a arfar. Às tantas peguei na minha faca de pesca e aproximei-me do Alfredo. Meti-lhe a cortiça dos anzóis em cima dos olhos para não assistir ao seu olhar..  ergui a faca, inspirei fundo… a minha mão tremia… espetei-lhe a faca por cima das guelras. O Alfredo deu um estertor e o sangue começou a escorrer pela rocha. Achei que devia filmar para depois postar na fanpage do ISIS com a hashtag #infidel fish. O certo é que o Alfredo não morreu. Continuou ali aos saltecos. Senti-me num episódio do Dexter. Ainda esperei um bocado, mas às tantas fartei-me e cortei a linha perto do anzol e empatei outro anzol, deixei o Alfredo morrer sossegado nas rochas.

Já em casa, vi na net que peixe é que tinha pescado. Um peixe porco de 990gr. Muito bem. Um peixe porco. Está certo. Escamar, esquece. Para furar a pele teve de ser com serrote na cauda e esfolado com alicate. Aproveitaram-se 4 filetinhos para uma entrada. Fiz muito simples para perceber melhor o sabor, uma marinadinha de azeite e umas pitadas de vinagre de arroz, pimenta fresca e uns toques de sal, frigideira com uma noz de manteiga, deixei-os tenros e não demasiado passados. Obrigado ao Alfredo. Ele foi o primeiro peixe que pesquei e eu fui o primeiro pescador que o pescou, estou em crer, pois duvido que fosse assim tão ‘pargo’ para cair no mesmo truque duas vezes 😀 calula!

 

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4 thoughts on “o blogger urbano e o mar

  1. Diz-se que as histórias de pescador são sinónimos de exagero, mas a tua é um regalo de genialidade, pela simplicidade com que nos coloca no pesqueiro, a cheirar a traineira e a admirar as contorções do Alfredo, o peixe porco que desempatou uma sardinha e ficou como a pescada, que antes de ser, já era.
    Adorei 🙂 🙂

  2. olha ó Tolan, meteste-me a curiosidade da pesca e hoje aproveitando o facto de estar a 5,700 Km de casa e sem miudos, fui experimentar. e caralho que aquilo é um fascinio. mesmo quando se vem para casa sem nada. ja so me falta escrever o livro

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