se entrar numa igreja…

… e me alistar no catolicismo (é assim que se diz?) resolver os meus problemas espirituais, creio que o farei, sem qualquer grandes pruridos éticos pelo facto de continuar ateu na mesma, lá no fundo. Gosto mesmo daquilo, das igrejas. E percebo porque há intelectuais e pessoas com nível cultural, inteligentes, que de vez em quando saem do armário e se assumem como ovelhas do grande rebanho e vão de um extremo ao outro, quais personagens de Dostoiévski. Com o tempo fui gostando cada vez mais e vou espreitando os seus interiores, mesmo assim, sempre com o medo e a cautela típicos de um impostor em riscos de ser desmascarado, como se as igrejas tivessem um detector de incréus na porta, escondido nas pesadas dobradiças de ferro, prestes a disparar um alarme sempre que um sindicalista quisesse ir por ali adentro a profanar. Têm uma boa rede de distribuição, as igrejas, é o termo, em marketing. O mercado está saturado e há pouca procura primária, têm vindo a perder quota de mercado. Se calhar gosto delas porque sou um hispter da fé. Agora que é uncool ser molestado por padres, toda gente debanda. O fixe é ir a concertos de rock ou apanhar bebedeiras nas danceterias e ouvir martelinhos com aqueles raios de laser que é como uma droga para os miúdos. E veneram marcas como a Appleo e os iPhones. Também há a variável Papa Francisco, é um Papa porque quem uma pessoa nutre simpatia. Acho que se gosto das igrejas é porque quando entro nelas tenho a sensação de deixar o meu tempo para trás. Estimula a imaginação de uma pessoa. Às vezes, se não estiver a decorrer nenhuma liturgia pois com o padre a falar não me consigo concentrar, sento-me um bocadinho.

beijinhos

Quando eu me aproximo da minha filha com a cara assim de lado, pronto para uma beijoca, o mais provável é levar uma chapa e ouvir “nan”. Só de lhe invadir o personal space, agita os braços e esperneia. Não gosta. Faz o mesmo com a mãe, por isso sei que não é pessoal, contudo, começo a ficar um pouco amuado com a brincadeira. Ela dá beijos e abraços ternurentes ao Coelho Fofinho, ao Coelho Simpático, à Mantinha, à Minnie. Tudo o que é boneco, é alvo, eventualmente, de abraços e beijinhos e turras mais ou menos desajeitadas. Dou comigo a ter ciúmes do Coelho Fofinho. O que é que ele tem que eu não tenha? No outro dia, vi-me sentado frente a frente com o Coelho Simpático, sozinhos os dois. O ar dele, na almofada, no sofá, no meu sofá, orelhas dispostas de forma indisciplinada, uma tapar-lhe uma vista… pareceu-me detectar sinais daquela arrogância que os mais novos têm para com os mais velhos.

uma pessoa

Um bebé é uma coisa assim alien, vem do espaço, é isso que um pai com sensibilidade literária que se preze e que lê ficção científica sente. Os olhos pacíficos, azulados, contemplam-nos com serenidade, de muito longe, mas muito perto. A pouco e pouco vai aprendendo os nossos costumes e começa a ser humano, muitas vezes é um espelho genético dos pais e não só e nota-se antes mesmo de verbalizar pensamentos elaborados.

Há dias senti o primeiro momento de verdadeira comunhão com ela. A ver o Baby TV, lado a lado, de manhã muito cedo. Ela concentrada, encostada ao sofá, ao meu lado. Foi o estar ao meu lado, encostada, cotovelo contra cotovelo. De vez em quando olhava para mim e comentava algo na sua linguagem já elaborada e eu respondia. Depois voltávamos a ver mais um pouco. Aqueles instantes em que ela e eu estávamos lado a lado a assistir a qualquer coisa, foi como um fast forward para o futuro. Há uma pessoa nova na minha vida. Uma pessoa que vem de onde? Estou tão embasbacado com isto.

rituais

Peça a peça, tento reconstruir a narrativa de uma parte de mim. É como se pegasse num velho diário de adolescência, cheio de ideias idiotas e ingénuas, algumas geniais, outras bastante estúpidas, relacionadas com a escrita. Lembro-me do meu pai ralhar comigo um dia, quando toquei num rebento numa árvore. Disse-me que naquela fase o rebento era tão frágil que qualquer toque podia comprometer o seu crescimento. Talvez seja o mesmo com as ideias para grandes livros. Não vale a pena insistir nos mesmos rituais, é preciso encontrar outros. Nem nos mesmos temas. E penso que um dos muitos erros do passado, um erro frequentemente cometido, foi permitir que a exposição de planos e ideias, por genuíno entusiasmo, acabasse por minar a minha confiança, pois não via reflectida nos outros a plenitude do que tinha na mente, o que é sempre o caso, é inevitável. E por outro lado, ocorria um esvaziar da minha própria necessidade de contar a história a mim próprio pela escrita, como se fossem spoilers. Uma visão boa é nossa. Gostei da resposta do Gene Wolfe numa entrevista, talvez uma resposta banal entre os escritores, mas no caso dele (vou no fim do 2º volume do Book of The New Sun) tem uma dimensão especialmente significativa devido à fabulosa imaginação que ele demonstra: escrevo o livro que eu próprio gostaria mais de ler. Depois, há a dimensão da coisa. Lobo Antunes disse que só começava a escrever uma obra quando tinha a certeza de não conseguir escrevê-la. Talvez explique porque não conseguimos lê-la. Eh eh. Mas agora a sério.

lista de 100 melhores tracks de IDM

Alô buenos dia matosinhos. Infelizmente o acrónimo “IDM” significa “intelligent dance music” (sim, é uma tragédia) mas a lista da FACT começa logo com o disclaimer:

Nobody ever wanted to call it IDM.
Braindance, electronica, bleep techno – anything was better than the US-centric (and still awkwardly disparaging) ‘intelligent dance music’, but over time the term has stuck. We can thank early ’90s mailing list the IDM List for the awful acronym.

Pode-se ouvir a lista toda numa playlist do youtube no artigo da revista. Espectacular isto da internet. Boa Sorte.

The Marcia Blaine School For Girls – Sometimes My Arms Bend Back

sempre que chove torrencialmente em Lisboa é a mesma coisa, todos os anos…

Tenho de assistir ao desfilar de pessoas nas redes sociais que de alguma forma consideram que um dilúvio combinado com maré cheia como sucedeu no passado dia 22 é da responsabilidade de uma câmara municipal e de um autarca que não limpa sarjetas. Trabalhei em Alcântara: sempre que choviam bátegas em Monsanto a água saía das tampas de esgoto e das sarjetas como se fossem geisers com a pressão que levava. Se calhar se estivessem entupidas era melhor. Porra. Há inundações em todas as cidades do mundo se chove aquilo que chove aqui, ou pior. Irra…

colégios para crianças – treiná-las para vencer

Sobre este texto da Palmier a propósito de jardins de infância e do tonto do Eduardo Sá, devo dizer que a minha filha está em lista de espera de várias opções antes mesmo de ter sido concebida. Quando tinha 24 anos, os colegas de escritório, mais velhos e que já tinham filhos, explicaram-me que havia longas filas de espera e era muito difícil a colocação. Também li um importante estudo no Reino Unido que deixava claro que o factor de maior impacto no desenvolvimento da criança e do seu sucesso era o pré-primário e não a universidade! Por isso, desde essa data que, todos os anos, finjo que tenho um filho e inscrevo-o na lista de espera dos jardins de infância da região da grande Lisboa. Podia encontrar parceira fértil a qualquer momento e assim precavinha o mais possível o futuro da prole. O filho tem nomes do tipo Cláudio Ramiro ou Marcio Jorge e está em muitas listas de espera. Dou-lhe esses nomes para não me esquecer de trocar o nome pelo verdadeiro e porque assim tenho uma boa desculpa quando aparecer lá com a minha filha: “olhe, mudámos o nome dela, Enércio Lima era capaz de não ser adequado” e as pessoas da creche até suspiram de alívio e não estranham. Também não estranham quando apareço lá ano após ano com um novo nome e invento uma desculpa para o desaparecimento do filho anterior, sendo “o tribunal deu a custódia à minha ex-mulher” a mais usual e credível. Só usei a do “nem imagina o peso que uma águia da serra da Lousã consegue carregar se estiver esfomeada” na creche de Monsanto, onde são todos pró- vida animal e jardins. Temo bem que 60% das listas de espera das creches de Lisboa estejam preenchidas por nomes falsos.
Há muitas creches que não defendem o melhor interesse da criança e não as preparam para o mundo real, para serem bem sucedidas e/ou felizes, psicologicamente sólidas, autoconfiantes, boas pessoas e capazes de empurrar o cepto nasal de um meliante em direcção ao cérebro com a palma da mão, para que este tenha uma morte rápida e piedosa. Cabe aos pais escolher o que querem desenvolver nos filhos: querem um filho que seja criativo e que se expresse de forma autoconfiante e feliz, ou querem um que ganhe dinheiro que chegue para se sustentar e a subsidiar os filhos dos outros que se expressaram de forma criativa e feliz? Eu não sou exigente, só quero que a minha filha seja treinada para vencer, de forma implacável (mas serena, como um ninja). Quero que entenda que há selecção e tudo o resto é uma treta. Até o amor. Até na criatividade e na expressão devia haver selecção, não relacionada com dinheiro, obviamente (o mundo é injusto neste critério, é preciso dizê-lo para que não ande para aí aos 30 anos a ficar chocada com o facto de não lhe editarem o livro, mas editarem pseudo-Paulo Coelhos destruindo a reputação de uma editora, mas tudo bem, fico-me por aqui. Até (e especialmente) num partido comunista há hierarquias e as comunidades eco freaks do alentejo têm sempre um holandês que manda naquilo tudo e tem 10 concubinas de rastas e cheias de pulgas. A suprema forma de liberdade, inclusive do meu terrível jugo de pai, é ela ter confiança nela própria e nas suas capacidades e ser tendencialmente optimista e feliz com ela própria. Acredito que o dinheiro que ela vai ganhar para me ajudar na reforma virá por arrasto. O problema é que os colégios mais progressistas pintam um retrato idílico do mundo e os colégios aparentemente mais disciplinadores parecem reminiscentes do Estado Novo (e até se orgulham). Uns e outros reclamam bons resultados escolares. Outro problema prende-se com a autodeterminação e feitio particular de um filho. A minha filha faz coisas verdadeiramente desprovidas de lógica e teria imensas dificuldades em sobreviver sozinha. Tem 13 meses, espero que isto lhe passe depressa, esta fase mais infantil. Temos visto documentários do BBC vida selvagem, para ela perceber a sorte que tem e o quanto está atrasada em relação a crias de outras espécies.