vergonhas

Nunca, enquanto o meu pai foi vivo, fumei à frente dele. À frente da minha mãe, só numa passagem de ano ou num casamento em que fingia que estava a experimentar e tossicava, apesar de fumar um maço por dia.
As namoradas que me viam sorver sofregamente uns cigarros no carro, na estrada às curvas antes de chegar à casa de campo, para me encher de nicotina, depois mascar duas pastilhas e lavar a cara na torneira do pátio, naturalmente, achavam isto absurdo. Algumas fumavam e eu pedia-lhes para não fumarem lá por casa ou sequer no pátio. Isto gerava, naturalmente, um contexto algo tenso naqueles almoços. Lidar com pais quando somos crescidos já é difícil, especialmente com os meus (no canto esquerdo, com 70kg, a minha mãe e o seu eterno cepticismo das coisas nunca serem exactamente como eu digo que são e no canto direito, com 90kg, o meu pai para quem eu nunca fazia nada suficientemente bem). Com privação de nicotina em cima, isto é quase tão stressante como voar para o japão em turística ao lado de um velho francês que bebeu vinho e comeu camembert (história verídica).

Como é que num almoço de domingo eu regredia até ter 10 anos, sendo que só comecei a fumar aos 18? Depois dos trinta e da morte do meu pai, continuei a não fumar à frente da minha mãe, apesar dela saber desde sempre, nem que fosse preciso ir ao jardim longe da vista dela. Porquê, então, esta aparente hipocrisia? Há pais e filhos ou mães e filhas que fumam em conjunto. Para mim essa fronteira não se pode ultrapassar e dou comigo a preferir uma encenação tácita. Eu sei que tu sabes que eu sei, mas não vamos assumir, já me sentia mal que chegue por encher os pulmões daquele lixo e a verdade é que no fundo continuava a ser o puto de 10 anos para quem fumar era impensável que lhes azucrinou a cabeça ferozmente até terem os dois deixado de fumar.

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7 thoughts on “vergonhas

  1. A minha mãe também fumava às escondidas dos pais quando estávamos lá em cima, décadas a fio, até deixar há cinco ou seis anos, já com cinco filhos.

  2. Há tanta gente assim, eu e minha irmão somos assim. A minha mãe careca de saber que fumamos até já nos disse que podíamos fumar ao pé dela mas nem assim consigo, não sei se é respeito se é mesmo a noção de estar a fazer uma coisa tão estupida e não querer desiludir quem mais amamos. Agora escodo-me do meu filho para fumar desde que ele me pediu para deixar de fumar.

      1. Pelo menos foi a sensação que fiquei quando a minha irmã aos 18 anos puxou um cigarro à minha frente. Foi como se toda a inocência dela, a meus olhos, desaparecesse. Confesso que foi um grande “desgosto”, se é que me entendes

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