cuidado com os grandes negócios

Ela vive numa casa nos subúrbios distantes de Lisboa, uma dessas moradias nos altos de montes expostos, terra de ninguém, urbanizações interrompidas a meio, lotes invadidos por mato e ervas que o inverno fez explodir num verde de selva, tampas de esgoto no meio de caminhos de terra com cimento carcomido à volta, postes de iluminação que nunca iluminaram e calçada típica desfeita e dispersa pelas sucessivas enxurradas. Um moínho abandonado e em ruínas, apenas alguns metros acima da casa de Raquel, parece um funesto presságio a juntar-se ao olhar do homem que lhes vendeu a casa, um jovem viúvo que não negociou sequer, aceitou imediatamente a primeira proposta. O marido disse-lhe  ‘foi um grande negócio e isto tem uma vista fantástica, vais adorar’, mas a vista inclui um pedaço da CREL, um prédio gigante ao fundo num monte vizinho, o último piso do shopping  do Rádio Popular, os olhos vermelhos das eólicas a girar furiosamente ao vento e o quintal de uns vizinhos na única moradia vendida naqueles lotes, um pouco mais abaixo no morro, onde um barbecue de ferro se dissolve em oxidação. O pior para Raquel, esta noite, é mesmo o vento. Algo na configuração da casa, na orientação, na forma do vale, nas ruínas da chaminé da cozinha ou da sala, que faz o venho uivar num timbre côncavo que cria vácuo nos ouvidos quando sopra de sul, capaz de estalar os ossos. Neste fim de tarde está mesmo furioso. Às vezes uma rajada mais forte desce pela chaminé da lareira e há uma nuvem de cinza que é expelida num bafo curto, uma furna que sopra. Desistiu de aspirar, de se preocupar com o pó. O marido está fora, em viagem. Detesta o som da casa assim, vazia. Liga a tv e senta-se no sofá.A  ligação vai abaixo, a terceira vez desde que mandaram instalar o cabo. O súbito silêncio acentua ainda mais o uivar do vento. Sobe ao quarto. Pela janela vê a árvore solitária a dobrar-se no horizonte. A janela estremece com o vento e ela afasta-se do vidro. É quase de noite. Decide tomar um duche antes de comer algo rápido. Despe-se, põe a água a correr. O vapor sobe e preenche a casa de banho, envolve-a num calor relaxante, os azulejos frios escorrem de condensação. O melhor mesmo é não ouvir o barulho do vento que a põe doida, deixa a água escorrer pela cabeça, sobre os ouvidos, fecha os olhos… de súbito sente uma corrente de ar gelada, quando abre os olhos não há mais vapor na casa de banho e a porta está aberta. Raquel enrola-se na toalha, caminha descalça sobr e então ouve o som  de vidros a partir  no quarto, no piso de cima. A janela grande abriu-se. No escuro e a pingar água, Raquel sobe as escadas forradas a alcatifa, o vento quase lhe arranca a toalha, é ensurdecedor. No quarto, a jarra está feita em cacos que reluzem, a janela escancarada, os cortinados rasgados estalam como bandeiras de um navio fantasma numa tempestade e então é como se o demónio inspirasse uma grande golfada em vez de soprar, o vento suga-a para fora, para o inferno da noite e ela vai pelo ar em direcção à lua por detrás das nuvens.

(quando não é correntes de ar, é um cemitério índio, o comboio etc.)

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4 thoughts on “cuidado com os grandes negócios

  1. Conheço a Zona, perto do hospital de Loures, Serra de Montemor. É exactamente como dizes.
    A zona vale pelas pessoas e pequenas empresas que proliferam em garagens improvisadas. Bom sítio para bate-chapas, mecânicos, serralheiros, carpinteiros etc baratos.

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